No filme “Um Método Perigoso”, um jovem psiquiatra de nome Carl Jung usa uma aparelho de medição para explorar a Psique humana. Com a ajuda de uma assistente, ele aplica um teste de ler uma série de palavras, pedindo que o examinado diga a primeira coisa que vem à sua mente. Quando o examinado “engasga” com uma palavra, demora mais para fazer a associação ou aumentava a sua frequência cardíaca diante de uma palavra comum, isso normalmente remetia a o que Jung chamou de Complexo.
Hoje essa palavra, como outras descritas pelo psiquiatra suíço, caiu no uso comum. “Ele é muito complexado”; “Ele tem complexo de Peter Pan” e assim vai. Não foi bem isso que Jung dizia a respeito do conceito. Complexo é uma ideia fortemente carregada de afeto, que exerce um efeito inconsciente em nosso comportamento. O corredor Oscar Pistorius virou uma celebridade mundial ao chegar numa final olímpica correndo com duas próteses, uma vez que teve uma má formação congênita que não desenvolveu suas pernas a partir do joelho. Esse home famoso e multipatrocinado era casado com uma modelo belíssima. Os vizinhos relatam uma relação tempestuosa, com violência verbal e física no casal, o que culminou com a morte de sua esposa, trancada no banheiro, que tomou quatro tiros do atleta e paratleta olímpico. Ele alega que foi um acidente, que atirou num suposto ladrão. A opinião pública e de várias pessoas, desconfia da versão. Mas essa tragédia, como muitas outras, é um exemplo triste da ação de um complexo. Por exemplo, um campo emocional inconsciente relacionado ao abandono. A sensação de estar sendo abandonado ou abandonada, desencadeia quase sempre uma reação de altíssimo conteúdo emocional, podendo chegar a agressão e morte. Esse é o Complexo, descrito pelo jovem Jung há cem anos. Uma palavra, uma imagem, uma lembrança podem desencadear uma reação afetiva desproporcional e fora de contexto.
O pesquisador Joseph LeDoux finalmente descobriu, ou redescobriu, o Cérebro Emocional descrito por Jung e por Freud. Uma pequena região, do tamanho de uma ervilha, chamada Amígdala, faz todo o processamento do medo e do comportamento emocional em nosso Sistema Nervoso, o que exerce uma forte e inconsciente influência em nosso comportamento.
Existe uma Memória Emocional e uma Memória Cognitiva, muitas vezes operando em paralelo em nossa psique. Por isso somos muitas vezes assaltados por reações emocionais que não conseguimos controlar. Talvez o exemplo mais extremo desse fato seja a crise de Pânico, quando o Cérebro Emocional cria uma espécie de autonomia e uma descarga adrenérgica violentíssima pode ocorrer quando a pessoa está presa no trânsito de São Paulo, por exemplo. O estímulo constante das áreas do Medo pode desencadear essas crises, que são como um grito de independência de nosso Cérebro de paleoprimata. Não é incomum que alguns paciente fiquem muito decepcionados quando eu digo que estão apresentando crises ansiosas ou crises de Pânico completamente fora de seu controle. O que é pior, a tentativa de controlar essas crises, tornam as mesmas ainda mais incontroláveis.
O trabalho de psicoterapia vai recuperar esses complexos emocionais e colocá-los em novo contexto, o que permite ao paciente elaborar e ressignificar algumas experiências ruins gravadas em sua Memória Emocional. Essa é a essência de vários métodos terapêuticos.
O engraçado é que a Neurociência, na mesma medida que tenta suplantar e desacreditar a obra gigantesca de Jung e Freud, acaba validando conceitos e observações feitas meticulosamente por esses pensadores no início do século passado. Os complexos existem e influenciam nosso Cérebro Emocional. Algumas vezes, podem fazer um homem racional destruir a própria vida e a de outra pessoa, escondida atrás da porta do banheiro.
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domingo, 3 de março de 2013
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Cérebro Emocional e Aprendizagem
Sábado eu gravei uma vídeo aula aqui no consultório. Um paciente meu está com um bloqueio de estudo, o que está pior às vésperas do vestibular e eu queria aproveitar para alinhavar uma idéias. Ele não veio para a aula de um aluno só mas deu para gravá-la em vídeo. Talvez eu a coloque no Youtube, mas ela ficou um tanto ruinzinha, pela falta de domínio do veículo. No começo ela estava gritada, depois a voz ficou baixa. O ângulo da filmagem foi a linha dos olhos do aluno, deixando o expositor, no caso, eu, mais gordinho do que já me encontro. Mas no final a experiência foi OK e vou repeti-la. Estou apaixonado pela idéia da criação de Consciência ser basicamente um sistema de aprendizagem em várias camadas, do nosso Cérebro normal à máquina quântica que são nossos neurônios e nossas redes neurais. Fico com um pouco de medo de usar esse termo, “quântico”. O que antes era definido como “holístico”, hoje está sob o guardachuva do “quântico”. Percepção Extrassensorial, sincronicidades, visões de OVNIs e vidas passadas, tudo tem um componente que puxa pelo “Quântico”. Mas o fato é que nosso Cérebro é uma máquina probabilística, capaz de percepções e intuições não locais, bem, isso aparece na prática clínica o tempo todo. Pode dar o nome que quiser.
A aula em questão era sobre um conceito de psiquiatra/físico Jeffrey Satinover que já citei em outros posts, o Quarto Cérebro. Como o único aluno não veio, acabei falando dos três Cérebros mais conhecidos. O primeiro é um Cérebro mais antigo, vegetativo, quase um pequeno Cérebro de Réptil em nosso Sistema Nervoso. Ele garante as funções ditas vegetativas, o batimento cardíaco, a respiração, o sono, a regulação da temperatura e o nível primário de Consciência. Se ele não vai bem, o resto também não vai bem.
O Segundo Cérebro está no início da parte mediana de nosso Cérebro e vai até a Substância Cinzenta. É um Cérebro de Mamífero ou de Paleoprimata. Responde pela regulação de toda a nossa vida emocional e instintiva, a regulação de nossos hormônios e aparato básico de sobrevivência, os ciclos biológicos e a modulação do medo e do desejo, grandes forças em nosso desenvolvimento e motivações. No caso do aluno que não veio, é justamente a parte do seu Sistema Nervoso que está causando o seu bloqueio. Uma estrutura do tamanho de uma ervilha, chamada Amígdala, está orquestrando todo o estrago. O medo de fracassar criou um sistema de congelamento. Quando ele pensa em estudar, um frio percorre o seu Estômago, o Coração dispara, a boca fica seca. A repetição de experiências desagradáveis criou um profundo bloqueio, passar no vestibular parece um salto impossível sobre o precipício. Ele não suporta mais decepcionar a si mesmo e as pessoas que o amam. Não esperem nada de mim, ele fala com o seu bloqueio. Ele não percebe, mas está lutando pelo seu direito de fracassar. Parece estranho, mas quase todo mundo chega a um ponto em que precisa abandonar o medo de decepcionar as pessoas amadas.
Superar as dificuldades e os medos também podem ser transformados em um Sistema de Aprendizagem. Como eu já escrevi em outras postagens, mudar velhos hábitos é uma tarefa para um Hércules interior. Mudar o hábito de desistir, de fracassar, de interromper o processo de aprendizagem, também é uma tarefa daquelas. Estava lendo que Michael Jordan não era nem o melhor jogador de basquete de sua família. O seu irmão mais velho era a estrela e sempre fazia questão de prová-lo diante do irmão caçula. Parece que quando Michael foi reprovado e cortado do time de basquete de sua escola, aquilo provocou uma mudança profunda em seu comportamento. Ele passou a treinar mais do que todos e procurar adversários cada vez mais difíceis. A sua curva de aprendizagem passou a ser exponencial e diária, até virar o maior jogador de basquete de todos os tempos. Ele passou a se excitar com os erros e as derrotas, em vez de chorar e ficar com pena de si. Ele também não ficou deitado em um divã de um terapeuta compreensivo e acolhedor repetindo a mágoa e a admiração do irmão que gostava de oprimi-lo. Penso que ele derrotou esse irmão milhares de vezes em sua vida. Tenho certeza que ele fez isso usando os sentimentos, inclusive o seu medo, para atingir níveis cada vez maiores de Concentração e Motivação. Viram? Não deu para falar do Terceiro Cérebro. Mas não vou demorar a abordá-lo.
A aula em questão era sobre um conceito de psiquiatra/físico Jeffrey Satinover que já citei em outros posts, o Quarto Cérebro. Como o único aluno não veio, acabei falando dos três Cérebros mais conhecidos. O primeiro é um Cérebro mais antigo, vegetativo, quase um pequeno Cérebro de Réptil em nosso Sistema Nervoso. Ele garante as funções ditas vegetativas, o batimento cardíaco, a respiração, o sono, a regulação da temperatura e o nível primário de Consciência. Se ele não vai bem, o resto também não vai bem.
O Segundo Cérebro está no início da parte mediana de nosso Cérebro e vai até a Substância Cinzenta. É um Cérebro de Mamífero ou de Paleoprimata. Responde pela regulação de toda a nossa vida emocional e instintiva, a regulação de nossos hormônios e aparato básico de sobrevivência, os ciclos biológicos e a modulação do medo e do desejo, grandes forças em nosso desenvolvimento e motivações. No caso do aluno que não veio, é justamente a parte do seu Sistema Nervoso que está causando o seu bloqueio. Uma estrutura do tamanho de uma ervilha, chamada Amígdala, está orquestrando todo o estrago. O medo de fracassar criou um sistema de congelamento. Quando ele pensa em estudar, um frio percorre o seu Estômago, o Coração dispara, a boca fica seca. A repetição de experiências desagradáveis criou um profundo bloqueio, passar no vestibular parece um salto impossível sobre o precipício. Ele não suporta mais decepcionar a si mesmo e as pessoas que o amam. Não esperem nada de mim, ele fala com o seu bloqueio. Ele não percebe, mas está lutando pelo seu direito de fracassar. Parece estranho, mas quase todo mundo chega a um ponto em que precisa abandonar o medo de decepcionar as pessoas amadas.
Superar as dificuldades e os medos também podem ser transformados em um Sistema de Aprendizagem. Como eu já escrevi em outras postagens, mudar velhos hábitos é uma tarefa para um Hércules interior. Mudar o hábito de desistir, de fracassar, de interromper o processo de aprendizagem, também é uma tarefa daquelas. Estava lendo que Michael Jordan não era nem o melhor jogador de basquete de sua família. O seu irmão mais velho era a estrela e sempre fazia questão de prová-lo diante do irmão caçula. Parece que quando Michael foi reprovado e cortado do time de basquete de sua escola, aquilo provocou uma mudança profunda em seu comportamento. Ele passou a treinar mais do que todos e procurar adversários cada vez mais difíceis. A sua curva de aprendizagem passou a ser exponencial e diária, até virar o maior jogador de basquete de todos os tempos. Ele passou a se excitar com os erros e as derrotas, em vez de chorar e ficar com pena de si. Ele também não ficou deitado em um divã de um terapeuta compreensivo e acolhedor repetindo a mágoa e a admiração do irmão que gostava de oprimi-lo. Penso que ele derrotou esse irmão milhares de vezes em sua vida. Tenho certeza que ele fez isso usando os sentimentos, inclusive o seu medo, para atingir níveis cada vez maiores de Concentração e Motivação. Viram? Não deu para falar do Terceiro Cérebro. Mas não vou demorar a abordá-lo.
domingo, 30 de setembro de 2012
Tocáveis
Um filme francês estourou surpreendentemente na bilheteria, ganhando o circuito das grandes redes, um feito para poucos que conseguem atravessar as barreiras do cinemão americano. O filme é “Intocáveis”, o que sugere mais um remake da saga de Elliot Ness contra Al Capone, mas não é nada disso. O filme conta sobre o encontro improvável de dois deficientes: um social e outro físico. Um imigrante, recém saído da prisão, passa por uma entrevista para cuidar de um tetraplégico, um homem rico que nada sente abaixo da linha do pescoço. Daí a delicadeza do título. De certa forma, a marginalidade física e social não permite a ambos o toque humano. São solitários, isolados do mundo, uma fonte de sofrimento bem comum em nossos dias. Driss, um senegalês abusado, quer apenas provar que passou por entrevista e foi reprovado, para continuar recebendo o seu Seguro Desemprego. Um diálogo ácido entre eles se dá quando Phillipe, o rico cadeirante, pergunta a Driss como é viver dependendo dos outros. Ele responde de primeira: “Me diga você”, pois ele está cercado de enfermagem e serviçais. Quando Driss aceita trabalhar para Phillipe, a relação vai ser pautada por esse constante embate de homens inteligentes e feridos, sempre dispostos a sacanear um ao outro, o tempo todo. O que poderia descambar para um dramalhão ou um filme edificante acaba criando cenas engraçadíssimas do óbvio contraste entre eles e suas vidas, com o negão (desculpe, o afrodescendente) pintando e bordando naquele mundo empolado dos aristocratas. Como todo processo terapêutico, ambos saem transformados do encontro, mas isso eu vou deixar para quem ainda não viu poder saborear no cinema.
Estou lendo um paper sobre os avanços da neurobiologia e suas implicações para a psicoterapia. Uma, evidente, vem sendo observada na multiplicação dos cursos de Coaching e na influência que isso vai começar a ter nos próximos anos. O termo representa Treinamento, o Coach é o Treinador, o Coachee é a pessoa a ser treinada. Como tudo nessa vida, isso pode trazer um trabalho positivo, de intervenção estruturada nos sistemas de crenças disfuncionais, ou pode abolir a subjetividade humana. Você parte do mesmo princípio de todas as Psicologias, de que você é fruto de uma família e uma sociedade que incutem uma série de crenças compartilhadas e formas de ver o mundo. Pode parecer louco para nós que um menino de quinze anos detone uma carga de explosivos em seu corpo, matando dezenas de inocentes, por acreditar que aquilo é melhor para o seu povo e para o seu Deus. Isso está estabelecido em seu sistema de crenças. Menos dramáticos são nossos hábitos, que criam uma rede de funcionamentos quase impossíveis de se mudar. Um deles é a crença que vamos continuar ganhando peso gradativamente no decorrer de nossas vidas se continuarmos com o mesmo padrão alimentar, e não mudamos esse padrão. Parece impossível fazê-lo. O Coaching vai tentar mudar essas características através do desenvolvimento de outras alternativas de interpretação dessas crenças. Talvez um menino bomba pudesse ser ensinado a vencer os invasores através da educação de outras crianças e do ensino do amor que está descrito no belo Alcorão. É difícil, mas é possível. A neuroplasticidade mostra que podemos modificar essas redes neurais, num sistema de aprendizagem.
O que me incomoda nessa aparente onipotência de Logos, o Cérebro racional tão longamente desenvolvido e glorificado em nosso tempo, é a ingenuidade, tantas vezes abordada nesse blog, de se achar que podemos fazer alguma mudança em nossa vida só pelo viés da racionalidade. Querem um exemplo? A partir de amanhã vou começar novo regime, vou me exercitar mais e assistir menos televisão. Essa é a decisão correta e racional de se tomar, é só aplicá-la. Fácil, não?
O encantador no filme francês, o que talvez explique seu sucesso inesperado, é a descrição de como o afeto, os encontros de alma, podem ser o impulso para o enfrentamento de nossos medos mais profundos. Driss e Phillipe desafiam, um ao outro, o tempo todo, a enfrentar os próprios medos e as próprias limitações, para modificar, a partir do desencontro e também do desconforto, os seus padrões. Esse não é um sistema que pode ser programado, ou controlado por Logos. É a força inerente à vida, que Logos não pode captar.
Estou lendo um paper sobre os avanços da neurobiologia e suas implicações para a psicoterapia. Uma, evidente, vem sendo observada na multiplicação dos cursos de Coaching e na influência que isso vai começar a ter nos próximos anos. O termo representa Treinamento, o Coach é o Treinador, o Coachee é a pessoa a ser treinada. Como tudo nessa vida, isso pode trazer um trabalho positivo, de intervenção estruturada nos sistemas de crenças disfuncionais, ou pode abolir a subjetividade humana. Você parte do mesmo princípio de todas as Psicologias, de que você é fruto de uma família e uma sociedade que incutem uma série de crenças compartilhadas e formas de ver o mundo. Pode parecer louco para nós que um menino de quinze anos detone uma carga de explosivos em seu corpo, matando dezenas de inocentes, por acreditar que aquilo é melhor para o seu povo e para o seu Deus. Isso está estabelecido em seu sistema de crenças. Menos dramáticos são nossos hábitos, que criam uma rede de funcionamentos quase impossíveis de se mudar. Um deles é a crença que vamos continuar ganhando peso gradativamente no decorrer de nossas vidas se continuarmos com o mesmo padrão alimentar, e não mudamos esse padrão. Parece impossível fazê-lo. O Coaching vai tentar mudar essas características através do desenvolvimento de outras alternativas de interpretação dessas crenças. Talvez um menino bomba pudesse ser ensinado a vencer os invasores através da educação de outras crianças e do ensino do amor que está descrito no belo Alcorão. É difícil, mas é possível. A neuroplasticidade mostra que podemos modificar essas redes neurais, num sistema de aprendizagem.
O que me incomoda nessa aparente onipotência de Logos, o Cérebro racional tão longamente desenvolvido e glorificado em nosso tempo, é a ingenuidade, tantas vezes abordada nesse blog, de se achar que podemos fazer alguma mudança em nossa vida só pelo viés da racionalidade. Querem um exemplo? A partir de amanhã vou começar novo regime, vou me exercitar mais e assistir menos televisão. Essa é a decisão correta e racional de se tomar, é só aplicá-la. Fácil, não?
O encantador no filme francês, o que talvez explique seu sucesso inesperado, é a descrição de como o afeto, os encontros de alma, podem ser o impulso para o enfrentamento de nossos medos mais profundos. Driss e Phillipe desafiam, um ao outro, o tempo todo, a enfrentar os próprios medos e as próprias limitações, para modificar, a partir do desencontro e também do desconforto, os seus padrões. Esse não é um sistema que pode ser programado, ou controlado por Logos. É a força inerente à vida, que Logos não pode captar.
domingo, 24 de outubro de 2010
Somos todos Obsessivos?
Nas últimas décadas as pesquisas em Neurociência decifraram os circuitos que são ativados em nosso Cérebro Emocional quando estamos preocupados com alguma coisa e essa preocupação vai ganhando peso até virar um curto circuito obsessivo. Já falamos sobre isso nos Transtornos Dismórficos Corporais, quando uma idéia sai de nosso Córtex e passa por vias que vão fazer uma alça nas vias motoras e voltam por um sistema de relê para realimentarem a mesma idéia, geralmente no Córtex Frontal, onde tudo tinha começado. É quase como se pudéssemos observar a idéia, ou a preocupação, ou a obsessão indo e voltando do Cérebro Racional até o Cérebro Emocional sem nunca encontrar uma saída. Um labirinto neurofisiológico. Dessa forma, uma preocupação vira uma idéia fixa, uma idéia fixa vira um sistema obsessivo, um sistema obsessivo pode virar uma paranóia.
Hoje quase tudo nos cobra algum grau de obsessão. Vivemos na época do pensamento intencional, quase tudo o que fazemos tem um objetivo e um plano de ação. Pensamos, pensamos, normalmente no que nos falta, no que não temos, ou não realizamos, nossos objetivos não cumpridos. Hoje dei uma passada na região do Mercadão, região central da cidade de São Paulo, quando passamos pela rua e víamos deitados no meio fio os mendigos das ruas adjacentes a 25 de Março. O cheiro de urina, as frutas esmagadas no chão e os cachorros de rua deitados perto de seus donos, que cena. Pensamos e somos estimulados a pensar, no carro novo, nos projetos a realizar, nas dificuldades das relações e o cachorro de rua com o corpo encostado em seu dono, indiferente à miséria, confiante que a comida virá e o abrigo é lá mesmo.
Todos temos um nó na vida que não conseguimos desatar e nos ocupa muito tempo em preocupação, suor e lágrimas. Uma lacuna profunda na alma da mulher pós moderna é a ausência estudada do homem, que se subtrae dos relacionamentos como um pássaro que abandona o ninho para dominar a fêmea ou o jogo do encontro e desencontro amoroso. O homem sofre de seu medo e solidão, mas recua diante da expectativa feroz e da cobrança de uma mulher que quer a forra de séculos de opressão e desatenção.
Penso no cachorro do mendigo, na sua presença amorosa, na gratuidade da sua presença. Ele nunca vai padecer de uma obsessão amorosa ou profissional. Talvez porque ele não tenha objetivos que lhe tirem o sono sob as marquises.
Hoje quase tudo nos cobra algum grau de obsessão. Vivemos na época do pensamento intencional, quase tudo o que fazemos tem um objetivo e um plano de ação. Pensamos, pensamos, normalmente no que nos falta, no que não temos, ou não realizamos, nossos objetivos não cumpridos. Hoje dei uma passada na região do Mercadão, região central da cidade de São Paulo, quando passamos pela rua e víamos deitados no meio fio os mendigos das ruas adjacentes a 25 de Março. O cheiro de urina, as frutas esmagadas no chão e os cachorros de rua deitados perto de seus donos, que cena. Pensamos e somos estimulados a pensar, no carro novo, nos projetos a realizar, nas dificuldades das relações e o cachorro de rua com o corpo encostado em seu dono, indiferente à miséria, confiante que a comida virá e o abrigo é lá mesmo.
Todos temos um nó na vida que não conseguimos desatar e nos ocupa muito tempo em preocupação, suor e lágrimas. Uma lacuna profunda na alma da mulher pós moderna é a ausência estudada do homem, que se subtrae dos relacionamentos como um pássaro que abandona o ninho para dominar a fêmea ou o jogo do encontro e desencontro amoroso. O homem sofre de seu medo e solidão, mas recua diante da expectativa feroz e da cobrança de uma mulher que quer a forra de séculos de opressão e desatenção.
Penso no cachorro do mendigo, na sua presença amorosa, na gratuidade da sua presença. Ele nunca vai padecer de uma obsessão amorosa ou profissional. Talvez porque ele não tenha objetivos que lhe tirem o sono sob as marquises.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O Cérebro Emocional
Vem ganhando corpo na literatura de Neurociência a constatação de que, como muitas estruturas de nosso organismo, o Cérebro Humano é a sobreposição de diversas estruturas que foram se complexificando e aperfeiçoando no decorrer de milhões de anos de evolução. Temos um Cérebro Vegetativo, responsável entre outras coisas por tudo o que funciona magnificamente em nosso Sistema Nervoso que sequer nos damos conta, como o batimento cardíaco, a respiração e o simples fato de estarmos despertos. Tudo isso depende desse Cérebro, que está anatomicamente embaixo das outras estruturas, acrescentadas no decorrer de eras a essa original, como várias camadas de sorvete, uma bola mais evoluída sendo colocada acima da bola anterior, mais primitiva. No topo de nosso sundae neuronal temos o Neocortex, que separa "alguns" homens de outros mamíferos mais primitivos, responsável por nossas funções cognitivas mais complexas e recentes na história humana, como Pensamento, Linguagem, Capacidades Construtivas e Memória. No meio desse sanduíche evolutivo temos o Cérebro Emocional, termo totalmente inadequado tecnicamente mas maravilhosamente sintético e didático para fins de explicação, pelo que iremos adotá-lo. O Cérebro Emocional, também conhecido como Subcórtex, também equilibra e se conecta a outras funções fundamentais, como o sono, o apetite, o medo e a organização de movimentos. A parte mais lucrativa para os psiquiatras nesse Cérebro é o Sistema Límbico, que responde por grande parte dos sintomas que enfrentamos diariamente, como medos, fobias, ansiedade e depressão. É um sistema que se integra ao Cérebro de baixo e ao de cima, formando uma verdadeira cola evolutiva. Podemos reagir como primatas primitivos em uma briga doméstica ou como seres evoluídos,dependendo do "andar" de nosso edifício cerebral que predomina na hora da briga. Podemos acrescentar milhares de anos de Religião, Filosofia e mais recentemente Psicologias para aprendermos a adotar comportamentos mais evoluídos e humanos, no bom sentido das palavras. Humanizar significa transformar reações emocionais primitivas em outras, racionais e refletidas. Essa é uma grande vantagem que o nosso Neocortex nos propiciou, a capacidade de reflexão, de interromper o impulso instintivo e adotar uma estratégia a médio e longo prazo para atingir nosso objetivo.
Desde o notável avanço dos medicamentos e das terapias biológicas que vem se colocando a "superioridade" de suas bolinhas sobre os tratamentos psicológicos. Os profissionais que conseguem combinar o tratamento farmacológico com a compreensão profunda dos maus funcionamentos de nosso Cérebro Emocional estão ficando raros, infelizmente. Mas saiba o leitor que integrar o conhecimento acerca dos vários Cérebros (sim, existem outros) é o caminho mais promissor para entender doentes e sintomas. Essa é uma parte importante da minha busca e de muito mais gente. Somos uma colagem de lembranças, crenças, medos e sonhos que se distribuem dentro e muito provavelmente fora de nossos neurônios. Saber sobre isso nos permite uma vida e um entendimento mais profundo da alma humana.
Desde o notável avanço dos medicamentos e das terapias biológicas que vem se colocando a "superioridade" de suas bolinhas sobre os tratamentos psicológicos. Os profissionais que conseguem combinar o tratamento farmacológico com a compreensão profunda dos maus funcionamentos de nosso Cérebro Emocional estão ficando raros, infelizmente. Mas saiba o leitor que integrar o conhecimento acerca dos vários Cérebros (sim, existem outros) é o caminho mais promissor para entender doentes e sintomas. Essa é uma parte importante da minha busca e de muito mais gente. Somos uma colagem de lembranças, crenças, medos e sonhos que se distribuem dentro e muito provavelmente fora de nossos neurônios. Saber sobre isso nos permite uma vida e um entendimento mais profundo da alma humana.
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