No último Congresso Brasileiro de Psiquiatria me cerquei da melhor das boas vontades e fui fazer um curso. O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria não era um sujeito muito brilhante, o que resultou em campanhas publicitárias bobocas (Exemplo: “Craque que é craque não usa Crack”. Ai meu Deus. Não dá nem para comentar) e acabou fazendo um congresso nivelado por baixo, como se todos fossem um pouco retardados. Gosto de tentar garimpar coisas boas o tempo todo, mas haja otimismo. Lá fui eu para o curso de Genômica e Psiquiatria. Essa é a próxima fronteira. Estamos chegando perto de compreender como atuar nas doenças através da ativação ou da desativação de determinados genes. Qual será o tipo de resposta a determinados medicamentos a partir do perfil genético da pessoa que será tratada. O assunto deveria atrair mais atenção, mas a sala não estava muito cheia. Lá pelas tantas, o antigo psicoterapeuta convertido à Neurociência descreve um diálogo com o homem que era o papa da farmacogenômica. Ele tinha ido com uma comitiva de pioneiros desbravar essa nova fronteira, há alguns anos. O homem prometeu explicar como a psicoterapia afeta a expressão de nossos genes. Vai o curso, vem os slides, e nada do homem dizer como que a psicoterapia modifica a expressão gênica. No intervalo, já impaciente, foi ter com o homem e perguntar, de que jeito afinal a psicoterapia pode modificar nossa expressão genética? Pelo aprendizado, meu caro Watson. Eureka! Como eu não tinha pensado nisso...
Conversei na semana passada com uma cliente que foi embora de São Paulo e descobriu que o que eu falava, com pouca modéstia, é verdade: não dá para se achar com muita facilidade psiquiatra que faça psicoterapia. Os poucos espécimes preservados estão para ser tombados pelo Ibama. Portanto, ela teve que achar uma psiquiatra para seguir com a medicação e uma terapeuta para dar sequência ao trabalho. A psiquiatra ela já achou, na terceira tentativa, mas a psicoterapeuta está um pouco difícil. Demos risada com as candidatas que já foram rejeitadas. Uma delas disse que praticava uma psicoterapia nova, baseada na Neuroplasticidade. Acabei dentro de uma gargalhada, que eu sou junguiano e não preciso fazer cara de psicanalista. Como, cara pálida? Psicoterapia baseada em Neuroplasticidade? Essa é uma incrível novidade! A grande questão é: qual psicoterapia não se baseia em Neuroplasticidade?
Para os leitores desse blog que já estão tentados a fechar essa página, calma que eu explico. Há alguns anos foi feita uma pesquisa nos Estados Unidos em que se aplicou uma entrevista padronizada a cerca de seiscentas pessoas que passaram por diversos tratamentos psicoterápicos e um número semelhante de pessoas que achavam que Freud ou Jung eram marcas de sabão em pó alemão, como grupo controle. O grupo submetido à psicoterapia relatava um índice maior de bem estar e autoestima, além de referirem maior conforto com a sua vida e entendimento das coisas. Não é difícil criticar o resultado, pois obviamente as pessoas que buscam psicoterapia tem normalmente um melhor nível cultural e econômico, além de uma disposição maior a refletir sobre a própria vida. O engraçado é que esta pesquisa derruba um pouco o senso comum de que fazer psicoterapia é coisa de “quem precisa”, por ser muito neurótico. Os índices de neuroticismo maiores ficaram com o grupo que foge da terapia ou indica para todo mundo e não faz.
Trabalhar sobre si mesmo, receber a escuta de alguém que está disposto a ajudar na sua reflexão, produz mais consciência. Não é só um processo de aprendizagem. É um processo de aprendizagem, “também”. O que muda a expressão de nossos genes não é só aprender como controlar a raiva, ou levantar a autoestima. O próprio ato da reflexão, nessa época irrefletida, já modifica, para melhor, as redes neurais e a capacidade de se lidar com as questões importantes e desimportantes da vida. Isso modifica também, as relações entre os neurônios e a Neuroplasticidade. Tudo o que modifica a relação entre pensamento e emoções muda também os neurônios e os genes. Por isso que a resposta do gringo e a afirmativa da jovem terapeuta soaram tão óbvias.
O que é bom lembrar é que o processo psicoterápico envolve muito mais do que Aprendizagem e Neuroplasticidade.
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domingo, 30 de março de 2014
domingo, 30 de setembro de 2012
Tocáveis
Um filme francês estourou surpreendentemente na bilheteria, ganhando o circuito das grandes redes, um feito para poucos que conseguem atravessar as barreiras do cinemão americano. O filme é “Intocáveis”, o que sugere mais um remake da saga de Elliot Ness contra Al Capone, mas não é nada disso. O filme conta sobre o encontro improvável de dois deficientes: um social e outro físico. Um imigrante, recém saído da prisão, passa por uma entrevista para cuidar de um tetraplégico, um homem rico que nada sente abaixo da linha do pescoço. Daí a delicadeza do título. De certa forma, a marginalidade física e social não permite a ambos o toque humano. São solitários, isolados do mundo, uma fonte de sofrimento bem comum em nossos dias. Driss, um senegalês abusado, quer apenas provar que passou por entrevista e foi reprovado, para continuar recebendo o seu Seguro Desemprego. Um diálogo ácido entre eles se dá quando Phillipe, o rico cadeirante, pergunta a Driss como é viver dependendo dos outros. Ele responde de primeira: “Me diga você”, pois ele está cercado de enfermagem e serviçais. Quando Driss aceita trabalhar para Phillipe, a relação vai ser pautada por esse constante embate de homens inteligentes e feridos, sempre dispostos a sacanear um ao outro, o tempo todo. O que poderia descambar para um dramalhão ou um filme edificante acaba criando cenas engraçadíssimas do óbvio contraste entre eles e suas vidas, com o negão (desculpe, o afrodescendente) pintando e bordando naquele mundo empolado dos aristocratas. Como todo processo terapêutico, ambos saem transformados do encontro, mas isso eu vou deixar para quem ainda não viu poder saborear no cinema.
Estou lendo um paper sobre os avanços da neurobiologia e suas implicações para a psicoterapia. Uma, evidente, vem sendo observada na multiplicação dos cursos de Coaching e na influência que isso vai começar a ter nos próximos anos. O termo representa Treinamento, o Coach é o Treinador, o Coachee é a pessoa a ser treinada. Como tudo nessa vida, isso pode trazer um trabalho positivo, de intervenção estruturada nos sistemas de crenças disfuncionais, ou pode abolir a subjetividade humana. Você parte do mesmo princípio de todas as Psicologias, de que você é fruto de uma família e uma sociedade que incutem uma série de crenças compartilhadas e formas de ver o mundo. Pode parecer louco para nós que um menino de quinze anos detone uma carga de explosivos em seu corpo, matando dezenas de inocentes, por acreditar que aquilo é melhor para o seu povo e para o seu Deus. Isso está estabelecido em seu sistema de crenças. Menos dramáticos são nossos hábitos, que criam uma rede de funcionamentos quase impossíveis de se mudar. Um deles é a crença que vamos continuar ganhando peso gradativamente no decorrer de nossas vidas se continuarmos com o mesmo padrão alimentar, e não mudamos esse padrão. Parece impossível fazê-lo. O Coaching vai tentar mudar essas características através do desenvolvimento de outras alternativas de interpretação dessas crenças. Talvez um menino bomba pudesse ser ensinado a vencer os invasores através da educação de outras crianças e do ensino do amor que está descrito no belo Alcorão. É difícil, mas é possível. A neuroplasticidade mostra que podemos modificar essas redes neurais, num sistema de aprendizagem.
O que me incomoda nessa aparente onipotência de Logos, o Cérebro racional tão longamente desenvolvido e glorificado em nosso tempo, é a ingenuidade, tantas vezes abordada nesse blog, de se achar que podemos fazer alguma mudança em nossa vida só pelo viés da racionalidade. Querem um exemplo? A partir de amanhã vou começar novo regime, vou me exercitar mais e assistir menos televisão. Essa é a decisão correta e racional de se tomar, é só aplicá-la. Fácil, não?
O encantador no filme francês, o que talvez explique seu sucesso inesperado, é a descrição de como o afeto, os encontros de alma, podem ser o impulso para o enfrentamento de nossos medos mais profundos. Driss e Phillipe desafiam, um ao outro, o tempo todo, a enfrentar os próprios medos e as próprias limitações, para modificar, a partir do desencontro e também do desconforto, os seus padrões. Esse não é um sistema que pode ser programado, ou controlado por Logos. É a força inerente à vida, que Logos não pode captar.
Estou lendo um paper sobre os avanços da neurobiologia e suas implicações para a psicoterapia. Uma, evidente, vem sendo observada na multiplicação dos cursos de Coaching e na influência que isso vai começar a ter nos próximos anos. O termo representa Treinamento, o Coach é o Treinador, o Coachee é a pessoa a ser treinada. Como tudo nessa vida, isso pode trazer um trabalho positivo, de intervenção estruturada nos sistemas de crenças disfuncionais, ou pode abolir a subjetividade humana. Você parte do mesmo princípio de todas as Psicologias, de que você é fruto de uma família e uma sociedade que incutem uma série de crenças compartilhadas e formas de ver o mundo. Pode parecer louco para nós que um menino de quinze anos detone uma carga de explosivos em seu corpo, matando dezenas de inocentes, por acreditar que aquilo é melhor para o seu povo e para o seu Deus. Isso está estabelecido em seu sistema de crenças. Menos dramáticos são nossos hábitos, que criam uma rede de funcionamentos quase impossíveis de se mudar. Um deles é a crença que vamos continuar ganhando peso gradativamente no decorrer de nossas vidas se continuarmos com o mesmo padrão alimentar, e não mudamos esse padrão. Parece impossível fazê-lo. O Coaching vai tentar mudar essas características através do desenvolvimento de outras alternativas de interpretação dessas crenças. Talvez um menino bomba pudesse ser ensinado a vencer os invasores através da educação de outras crianças e do ensino do amor que está descrito no belo Alcorão. É difícil, mas é possível. A neuroplasticidade mostra que podemos modificar essas redes neurais, num sistema de aprendizagem.
O que me incomoda nessa aparente onipotência de Logos, o Cérebro racional tão longamente desenvolvido e glorificado em nosso tempo, é a ingenuidade, tantas vezes abordada nesse blog, de se achar que podemos fazer alguma mudança em nossa vida só pelo viés da racionalidade. Querem um exemplo? A partir de amanhã vou começar novo regime, vou me exercitar mais e assistir menos televisão. Essa é a decisão correta e racional de se tomar, é só aplicá-la. Fácil, não?
O encantador no filme francês, o que talvez explique seu sucesso inesperado, é a descrição de como o afeto, os encontros de alma, podem ser o impulso para o enfrentamento de nossos medos mais profundos. Driss e Phillipe desafiam, um ao outro, o tempo todo, a enfrentar os próprios medos e as próprias limitações, para modificar, a partir do desencontro e também do desconforto, os seus padrões. Esse não é um sistema que pode ser programado, ou controlado por Logos. É a força inerente à vida, que Logos não pode captar.
sábado, 4 de setembro de 2010
Cirurgia Plástica e Imagem Corporal
Para você que chegou agora, olhe as últimas 3 postagens, que falam sobre o tema de uma aula, ok? Obrigado. Do que falávamos mesmo? Ah, Imagem Corporal. Vamos nessa.
Na esquina de minha rua tinha um barbeiro, daqueles que cortavam cabelo com a navalha, o Ranulfo, carinhosamente alcunhado por nós de Pomba, pelo o que fazia em nossas cabeças. Quando o simpático mas algo tosco Pomba acabava os seus cortes de cabelo e finalmente mostrava a sua "obra" para a minha mãe, eu e meu irmão saudávamos o sucesso de seu corte com uma crise de choro. Evitávamos olhar para o espelho por algumas semanas, sem mencionar as gargalhadas que nos esperavam na escola. Escapamos por pouco de um Transtorno Dismórfico Corporal, pois todos os elementos da doença lá estavam à nossa disposição: mudança da imagem corporal, prejuízo da autoestima, medo do olhar crítico e do ridículo público. Quando um cirurgião mexe na aparência de uma pessoa, notadamente no nariz que é o ponto de equilíbrio ou de desequilíbrio de uma fisionomia, os primeiros contatos com o espelho são particularmente dramáticos, pois haverá uma fase inicial onde a imagem desse rosto vai ser reorganizada nas redes neurais do paciente. Nesse momento pode haver uma espécie de curto circuito ansioso, onde a pessoa não consegue se reconhecer naquela que está refletida no espelho. Esse "não sou eu" deve fazer o médico se sentir como o Pomba vendo as crianças aplaudindo o seu corte militar com choro e palavrões.
A Neurociência vem descrevendo nos últimos 20 anos a capacidade do Cérebro mudar os seus mapas e imagens mentais diante de mudanças na entrada e saída de informação, num fenômeno chamado Neuroplasticidade. Este processo permite ao paciente criar para si uma nova imagem, sem a experiência do sábio chinês Chuang Tzu, que sonhou que era uma borboleta e acordou sem saber se era um sábio sonhando ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Chuang Tzu. Apesar da estranheza inicial, o nosso Cérebro tem a capacidade de reorganizar a sua Imagem Corporal quase imediatamente quando a nova imagem aparece, sem imaginar -se uma borboleta, ou uma lagarta.
A cena do médico tirando as bandagens de um paciente, no momento de mostrar o resultado de uma cirurgia já foi bastante explorada pelo cinema e televisão, sempre como suspense se o paciente vai ou não aceitar o resultado, a nova face refletida no espelho. Esse é o momento crucial,onde a imagem que o paciente guardava de si vai ser modificada, remapeada em suas redes neurais. Uma reação catastrófica pode gerar um período de não reconhecimento da própria imagem, com todos os outros sintomas do Transtorno Dismórfico Corporal, como olhar obsessivamente para o espelho várias vezes ao dia, a preocupação obsessiva com o orgão operado até a tentativa de esconder a nova imagem com bonés, cabelo e barba ou até máscaras semelhantes às usadas por Michael Jackson. O trabalho de recuperação consiste em diminuir, com o uso de medicamentos e psicoterapia, essa reação catastrófica de não reconhecimento para o paciente poder fazer a sua reorganização de imagem corporal da melhor forma possível. Esse deve ser o pesadelo de um cirurgião plástico, o mesmo do barbeiro da esquina de minha rua. Mas é bom saber e orientar o paciente que se trata de uma doença que pode ser adequadamente tratada.
Na esquina de minha rua tinha um barbeiro, daqueles que cortavam cabelo com a navalha, o Ranulfo, carinhosamente alcunhado por nós de Pomba, pelo o que fazia em nossas cabeças. Quando o simpático mas algo tosco Pomba acabava os seus cortes de cabelo e finalmente mostrava a sua "obra" para a minha mãe, eu e meu irmão saudávamos o sucesso de seu corte com uma crise de choro. Evitávamos olhar para o espelho por algumas semanas, sem mencionar as gargalhadas que nos esperavam na escola. Escapamos por pouco de um Transtorno Dismórfico Corporal, pois todos os elementos da doença lá estavam à nossa disposição: mudança da imagem corporal, prejuízo da autoestima, medo do olhar crítico e do ridículo público. Quando um cirurgião mexe na aparência de uma pessoa, notadamente no nariz que é o ponto de equilíbrio ou de desequilíbrio de uma fisionomia, os primeiros contatos com o espelho são particularmente dramáticos, pois haverá uma fase inicial onde a imagem desse rosto vai ser reorganizada nas redes neurais do paciente. Nesse momento pode haver uma espécie de curto circuito ansioso, onde a pessoa não consegue se reconhecer naquela que está refletida no espelho. Esse "não sou eu" deve fazer o médico se sentir como o Pomba vendo as crianças aplaudindo o seu corte militar com choro e palavrões.
A Neurociência vem descrevendo nos últimos 20 anos a capacidade do Cérebro mudar os seus mapas e imagens mentais diante de mudanças na entrada e saída de informação, num fenômeno chamado Neuroplasticidade. Este processo permite ao paciente criar para si uma nova imagem, sem a experiência do sábio chinês Chuang Tzu, que sonhou que era uma borboleta e acordou sem saber se era um sábio sonhando ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Chuang Tzu. Apesar da estranheza inicial, o nosso Cérebro tem a capacidade de reorganizar a sua Imagem Corporal quase imediatamente quando a nova imagem aparece, sem imaginar -se uma borboleta, ou uma lagarta.
A cena do médico tirando as bandagens de um paciente, no momento de mostrar o resultado de uma cirurgia já foi bastante explorada pelo cinema e televisão, sempre como suspense se o paciente vai ou não aceitar o resultado, a nova face refletida no espelho. Esse é o momento crucial,onde a imagem que o paciente guardava de si vai ser modificada, remapeada em suas redes neurais. Uma reação catastrófica pode gerar um período de não reconhecimento da própria imagem, com todos os outros sintomas do Transtorno Dismórfico Corporal, como olhar obsessivamente para o espelho várias vezes ao dia, a preocupação obsessiva com o orgão operado até a tentativa de esconder a nova imagem com bonés, cabelo e barba ou até máscaras semelhantes às usadas por Michael Jackson. O trabalho de recuperação consiste em diminuir, com o uso de medicamentos e psicoterapia, essa reação catastrófica de não reconhecimento para o paciente poder fazer a sua reorganização de imagem corporal da melhor forma possível. Esse deve ser o pesadelo de um cirurgião plástico, o mesmo do barbeiro da esquina de minha rua. Mas é bom saber e orientar o paciente que se trata de uma doença que pode ser adequadamente tratada.
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