Aproveito esses dias de folga para acabar alguns dos dez livros que estão inacabados em minha cabeceira. Um deles é “O Monge e a Psicanalista”. Não sei se o título aproveita o best seller “O Monge e o Executivo”, uma tentativa pop de aproximar alguma espiritualidade da prática da liderança nas corporações. Este encontro entre uma psicanalista francesa e um monge beneditino, nos anos sessenta, dentro e fora do mosteiro, na agradável casa de amigos em comum, é bem diferente. É um embate amoroso, mas inconciliável entre duas formas diferentes de fé, a Cristã e a psicanalítica, embora no limite as duas busquem a mesma coisa, que é a diminuição do sofrimento humano. Mas não vou me enfiar em questões dessas diferenças, que renderam algumas cacetadas da psicanalista judia no monge cristão. Vou falar de uma questão importante, levantada pelo monge, que serve como reflexão no último dia do ano.
O livro não é fácil, assim como o debate, excessivamente intelectual e francês, o que cansa de vez em quando. Quando estão falando sobre Rimbaud, poeta muito caro a ambos, o monge afirma que a frase deste poeta: “O Eu é Outro”é, na verdade, uma afirmação do homem inteiramente só, no seu eterno narcisismo. Não sou eu quem vai fazer a leitura dessa frase/equação simbólica, mas a entendo como a busca infinita pelo Eu que está fora de nossos pensamentos, fora de nosso campo de Ser dedicado aos nossos medos e inseguranças. O Outro que sou Eu é o Ser maior que nos habita e de vez em quando, muito de vez em quando, se manifesta. Pois o monge achou que a frase contém toda a miséria do Eu perdido dentro de si mesmo, que não busca o encontro. Deus se faz no encontro, o que poderia ser descrito pela equação “Deus é Outro”, isto é, o Infinitamente Outro que encontramos, ou não, em nossa busca. A psicanálise, que trabalha o encontro do sujeito com a sua verdade íntima seria, por esse raciocínio, a maior das perversões, pois coloca esse Eu perdido dentro de si e apartado do Outro, que é o irmão a quem eu devo amar e encontrar. O psicanalista se retira desse encontro uma vez que não responde amorosamente ao paciente, mas possibilita, em seu silêncio, essa escuta do Outro que sou Eu. Para quem está achando esse texto difícil, sugiro não ler esse livro.
Para me socorrer nesse diálogo que não é um diálogo, vou para o Budismo, de novo. Sei que as minhas incursões são perigosas e estrangeiras, outro dia levei um pito de um leitor desse blog porque escrevi Mindfulness errado. Mas vou continuar me metendo a besta, é uma característica minha, ou do Outro que não sou Eu.
O Budismo fala de três sendas, ou caminhos que podem te levar à Iluminação : Buda, Darma e Sangha. Isso resolve esse debate. O caminho sem dúvida belo que o monge descreveu é Sangha. O Novo Testamento tem a frase: “Quando dois ou mais estiverem reunidos em meu Nome, lá estarei entre eles”. Ponto para o monge. Ou para o Sangha: a experiência do encontro é a experiência inicial do divino em nossa vida. Mas Jesus também passou quarenta dias no deserto, para encontrar quem ele queria, e não queria, dentro de si. Esse é o Buda. Jesus também pediu no Monte das Oliveiras para ser poupado de todo o sofrimento que viria, mas acabou percebendo que precisaria viver a dor e, sobretudo o Mistério, que seria o seu caminho. Este é o Darma. Podemos passar por esses caminhos, todo dia. Ou por nenhum deles.
Buda é o caminho do encontro profundo com o Infinito, que está dentro de cada um. A Meditação é uma das formas de aprofundar esse Encontro. É uma busca pessoal e solitária, contrária a o que imagina o monge como caminho perfeito. Sangha é a busca do Divino, ou do Transcendente, nos olhos do Outro, no encontro amoroso com os amigos ou com os irmãos que partilham da tua mesa. Darma é a manifestação de sua missão ou vocação profunda nesta vida, que te empurra a levantar da cama e jogar a sua parte desse jogo que não conhecemos direito as regras nem seu resultado. Todos esses caminhos podem te levar a Roma, ou a um lugar fora de nosso Eu egoísta. Todos esse caminhos podem ser praticados neste ano que se inicia. Boas Entradas (e Boas saídas) para todos.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Perda de Alma
Este blog já passou por outros Natais, e chegando à véspera ou ao dia de Natal, é um tanto difícil para um junguiano deixar de falar da belíssima Mitologia Cristã, particularmente do Mito da Natividade. Quem quiser pode procurar esses posts pelos termos da Natividade ou do Mito Cristão. Hoje não vou escrever sobre isso.
Uma dificuldade ou, uma potencialidade do trabalho com a chamada Psicologia Profunda é trabalhar num mundo onde não há mais silêncio, ou, no limite, não há mais Mundo Interno. Tudo é exteriorizado ou exteriorizável. Lutos, amores, alegrias, tristezas, morte, vida, tudo pode ser transmitido em Tempo Real na nuvem. Já falei sobre isso muitas vezes. O resultado, num mundo onde tudo corre e é consumido rapidamente, é um tempo em que as pessoas perdem a sua Alma. A própria Alma passa a ser dada como inexistente, ou reduzida ao Marcador Somático de Antonio Damásio, uma parte sensitiva de nossa Cognição que nos dá a sensação de sermos algo. Não é mais o “Penso, Logo Existo”, mas o “Percebo, Logo Sou”.
A epidemia de Depressão, Obesidade, Deficit de Atenção e Ansiedade está, na opinião deste escriba, inteiramente correlacionada com essa perda de Alma. A sensação de correria sem objetivo leva a Desatenção como um grave sintoma de nosso tempo. Acidentes, tragédias, catástrofes todo tipo de doença deriva deste senso de correria desatenta. Os exemplos estão todos por aí: enfermagem injetando café com leite na veia de uma idosa, acidentes cirúrgicos, médicos operando o joelho errado, mães esquecendo o bebê no carro para morrer de desidratação e hipertermia, exemplos diários e cada vez mais dolorosos.
Na prática clínica, a Alma pode começar a pedir a nossa atenção em pequenos e suaves sinais de que algo não vai bem: noites mal dormidas, irritabilidades e desconcentração. Uma sutil sensação de que algo não está encaixado ou fora do lugar. Os sintomas e as sensações podem evoluir, e a Alma, que começa sussurrando, pode irromper aos berros, numa crise de Pânico, num nódulo maligno de Mama ou Tireóide, um acidente grave de trânsito ou um divórcio. Podemos ouvir os seus sinais, ou tentar suprimir os seus berros, mas a tragédia de nosso tempo talvez seja a própria ausência do conceito que temos uma Alma e ela deva ser considerada em tudo o que fazemos, como uma conselheira ou breque dessa correria.
Quando alguém chega ao consultório em diversos níveis de dor e sofrimento psíquico, aquilo que pede como ajuda pode ser visto como alguma disfunção de metabolismo cerebral e corrigido com medicamentos. Se a orientação for mais profunda, o paciente pode rever as suas prioridades, melhorar a dieta, perder peso, fazer exercícios, desacelerar. Se o trabalho realmente engrenar, a doença poderá ser vista como um mergulho na direção de um significado mais profundo da própria vida e da saída do circuito oval onde corremos não se sabe para onde. A maior parte volta para o circuito com o auxílio luxuoso de alguns medicamentos de tarja vermelha e preta.
Uma paciente de Jung contou um sonho desagradável em que estava numa espécie de lodaçal, ou coisa pior, enfiada até o pescoço e sem conseguir sair. Na borda estava Jung. Ela pensa: “Quer ver que, em vez de me tirar daqui, esse puto vai me mandar mergulhar?”. Dito e feito. Ele falou, sem dó: “Mergulha”. Como se pode perceber, não é fácil ser junguiano neste século. Mergulhar na própria lama não é para qualquer um. O que será que tem do outro lado?
Uma dificuldade ou, uma potencialidade do trabalho com a chamada Psicologia Profunda é trabalhar num mundo onde não há mais silêncio, ou, no limite, não há mais Mundo Interno. Tudo é exteriorizado ou exteriorizável. Lutos, amores, alegrias, tristezas, morte, vida, tudo pode ser transmitido em Tempo Real na nuvem. Já falei sobre isso muitas vezes. O resultado, num mundo onde tudo corre e é consumido rapidamente, é um tempo em que as pessoas perdem a sua Alma. A própria Alma passa a ser dada como inexistente, ou reduzida ao Marcador Somático de Antonio Damásio, uma parte sensitiva de nossa Cognição que nos dá a sensação de sermos algo. Não é mais o “Penso, Logo Existo”, mas o “Percebo, Logo Sou”.
A epidemia de Depressão, Obesidade, Deficit de Atenção e Ansiedade está, na opinião deste escriba, inteiramente correlacionada com essa perda de Alma. A sensação de correria sem objetivo leva a Desatenção como um grave sintoma de nosso tempo. Acidentes, tragédias, catástrofes todo tipo de doença deriva deste senso de correria desatenta. Os exemplos estão todos por aí: enfermagem injetando café com leite na veia de uma idosa, acidentes cirúrgicos, médicos operando o joelho errado, mães esquecendo o bebê no carro para morrer de desidratação e hipertermia, exemplos diários e cada vez mais dolorosos.
Na prática clínica, a Alma pode começar a pedir a nossa atenção em pequenos e suaves sinais de que algo não vai bem: noites mal dormidas, irritabilidades e desconcentração. Uma sutil sensação de que algo não está encaixado ou fora do lugar. Os sintomas e as sensações podem evoluir, e a Alma, que começa sussurrando, pode irromper aos berros, numa crise de Pânico, num nódulo maligno de Mama ou Tireóide, um acidente grave de trânsito ou um divórcio. Podemos ouvir os seus sinais, ou tentar suprimir os seus berros, mas a tragédia de nosso tempo talvez seja a própria ausência do conceito que temos uma Alma e ela deva ser considerada em tudo o que fazemos, como uma conselheira ou breque dessa correria.
Quando alguém chega ao consultório em diversos níveis de dor e sofrimento psíquico, aquilo que pede como ajuda pode ser visto como alguma disfunção de metabolismo cerebral e corrigido com medicamentos. Se a orientação for mais profunda, o paciente pode rever as suas prioridades, melhorar a dieta, perder peso, fazer exercícios, desacelerar. Se o trabalho realmente engrenar, a doença poderá ser vista como um mergulho na direção de um significado mais profundo da própria vida e da saída do circuito oval onde corremos não se sabe para onde. A maior parte volta para o circuito com o auxílio luxuoso de alguns medicamentos de tarja vermelha e preta.
Uma paciente de Jung contou um sonho desagradável em que estava numa espécie de lodaçal, ou coisa pior, enfiada até o pescoço e sem conseguir sair. Na borda estava Jung. Ela pensa: “Quer ver que, em vez de me tirar daqui, esse puto vai me mandar mergulhar?”. Dito e feito. Ele falou, sem dó: “Mergulha”. Como se pode perceber, não é fácil ser junguiano neste século. Mergulhar na própria lama não é para qualquer um. O que será que tem do outro lado?
domingo, 21 de dezembro de 2014
Jornada Incerta
Mais um intervalo entre os posts. Este período é difícil para os psiquiatras, como escrevo todo ano. O único lugar onde o Natal é uma reunião de pessoas felizes, em famílias grandes e unidas é nos comerciais de Peru Sadia. A data de nascimento do menino Jesus foi arbitrariamente fixada em 25 de Dezembro, o que faz com que a data do nascimento da Criança Divina coincida com o final do ano. Um símbolo de nascimento de possibilidades com outro de final de ciclo. Para os psiquiatras, prevalece o sentimento de final de ciclo, e quem está se arrastando em uma Depressão ou uma crise existencial severa pode achar que não vai querer começar um novo ano. É uma época acidentada e perigosa.
As pessoas não ficam mais generosas nem desarmadas neste período. Ficam antes estressadas com as compras de última hora, com a sensação de que este Natal está mais magro do que no ano passado e que o próximo amo será pior que esse. Duvido. Ficamos hipnotizados com as mensagens pessimistas da mídia e os profetas de plantão nunca são cobrados por suas previsões catastrofistas. Muito pelo contrário. Ceticismo dá um ar de rigor científico e realismo aos comentaristas e ninguém em sã consciência consegue fazer uma previsão otimista para este país no ano que vem. Pelo menos não vamos passar um semestre esperando pelo Apocalipse na Copa do Mundo ou vamos ficar sentados no dinheiro esperando que o PT perca a eleição: vamos ter que investir, empreender, inventar, enquanto muita gente fica à margem justificando a própria covardia. Vamos ter que botar o pé na estrada e ganhar o dinheiro com honestidade, pois a gigantesca maioria desse país ganha o seu pão com trabalho, não com negociatas com empreiteiras ou estatais. A sensação global de avacalhação tem mandado muita gente boa para o exterior ou para a apatia. Apatia não resolve nada.
Hoje estava em uma conversa no Skype e citei uma passagem de Joseph Campbell, maravilhoso estudioso de Mitologia americano que morreu na época que eu engatinhava em meus estudos junguianos. Campbell foi entrevistado por Bill Moyers numa série maravilhosa chamada “O Poder do Mito” (já falei dele em outros posts). Foi uma série de entrevistas que deram a oportunidade para este homem falar da obra de sua vida e dos mitos que a animaram. Uma das inúmeras histórias foi sobre uma cena do “Star Wars”, em que Luke Skywalker está esperando para iniciar sua viagem no hiperespaço. Ele está numa espécie de bar cheio de alienígenas, bebendo um drink futurista enquanto espera a sua vez antes de iniciar a sua Jornada. Todos estão lá, ansiosos, esperando pela sua vez. É uma cena banal e extemporânea nesse dias de computação gráfica e efeitos 3 D nos filmes. Campbell viu grande beleza nessa cena. A Jornada do Herói é incerta e implica em mergulhar no inesperado, no desconhecido. Muita gente hoje fica encalacrada nesta antessala e nunca empreende a sua jornada, sempre por razões muito plausíveis, como as incertezas da Economia, a impressionante incapacidade dos governantes de gerar uma visão compartilhada com a população produtiva, que paga os impostos e as propinas na Petrobrás. Nossa psique macunaímica tem uma grande resistência às jornadas arquetípicas e à construção de novos projetos e novos futuros. É mais fácil ficar à beira da estrada gritando que não vai dar certo.
A Natividade também é um mito belíssimo de uma jornada incerta, uma jornada de um jovem, sua esposa adolescente e o menino que ela traz em seu ventre. O seu nascimento é cercado de vários perigos e dores, mas o caminho vai se fazendo na medida em que o burrico anda passo a passo para Belém. E sem GPS. Sobretudo, sem garantias.
As pessoas não ficam mais generosas nem desarmadas neste período. Ficam antes estressadas com as compras de última hora, com a sensação de que este Natal está mais magro do que no ano passado e que o próximo amo será pior que esse. Duvido. Ficamos hipnotizados com as mensagens pessimistas da mídia e os profetas de plantão nunca são cobrados por suas previsões catastrofistas. Muito pelo contrário. Ceticismo dá um ar de rigor científico e realismo aos comentaristas e ninguém em sã consciência consegue fazer uma previsão otimista para este país no ano que vem. Pelo menos não vamos passar um semestre esperando pelo Apocalipse na Copa do Mundo ou vamos ficar sentados no dinheiro esperando que o PT perca a eleição: vamos ter que investir, empreender, inventar, enquanto muita gente fica à margem justificando a própria covardia. Vamos ter que botar o pé na estrada e ganhar o dinheiro com honestidade, pois a gigantesca maioria desse país ganha o seu pão com trabalho, não com negociatas com empreiteiras ou estatais. A sensação global de avacalhação tem mandado muita gente boa para o exterior ou para a apatia. Apatia não resolve nada.
Hoje estava em uma conversa no Skype e citei uma passagem de Joseph Campbell, maravilhoso estudioso de Mitologia americano que morreu na época que eu engatinhava em meus estudos junguianos. Campbell foi entrevistado por Bill Moyers numa série maravilhosa chamada “O Poder do Mito” (já falei dele em outros posts). Foi uma série de entrevistas que deram a oportunidade para este homem falar da obra de sua vida e dos mitos que a animaram. Uma das inúmeras histórias foi sobre uma cena do “Star Wars”, em que Luke Skywalker está esperando para iniciar sua viagem no hiperespaço. Ele está numa espécie de bar cheio de alienígenas, bebendo um drink futurista enquanto espera a sua vez antes de iniciar a sua Jornada. Todos estão lá, ansiosos, esperando pela sua vez. É uma cena banal e extemporânea nesse dias de computação gráfica e efeitos 3 D nos filmes. Campbell viu grande beleza nessa cena. A Jornada do Herói é incerta e implica em mergulhar no inesperado, no desconhecido. Muita gente hoje fica encalacrada nesta antessala e nunca empreende a sua jornada, sempre por razões muito plausíveis, como as incertezas da Economia, a impressionante incapacidade dos governantes de gerar uma visão compartilhada com a população produtiva, que paga os impostos e as propinas na Petrobrás. Nossa psique macunaímica tem uma grande resistência às jornadas arquetípicas e à construção de novos projetos e novos futuros. É mais fácil ficar à beira da estrada gritando que não vai dar certo.
A Natividade também é um mito belíssimo de uma jornada incerta, uma jornada de um jovem, sua esposa adolescente e o menino que ela traz em seu ventre. O seu nascimento é cercado de vários perigos e dores, mas o caminho vai se fazendo na medida em que o burrico anda passo a passo para Belém. E sem GPS. Sobretudo, sem garantias.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Infecções Psíquicas
Uma situação angustiante na prática clínica é presenciar os quadros em que a pessoa que procura ajuda e que fica presa num emaranhado de pensamentos, geralmente, pensamentos negativos a respeito de si ou do mundo. Nada do que se fala ou se faz possibilita o rompimento daquela cadeia de formas-pensamento que capturaram aquela mente de maneira quase permanente. O mais difícil é criar uma perspectiva que o sofrimento está sendo causado por um Sistema de Crenças, um Sistema de Pensamentos que pode estar lá há muito tempo, mas ainda assim é apenas um emaranhado de pensamentos que se reproduzem como um vírus em nossa Psique. Vou dar um pequeno exemplo: estava lendo um pequeno livro budista que eu não consigo terminar, portanto, estou sempre voltando para o seu começo. Provavelmente não vou conseguir lê-lo inteiro, por questões difíceis de precisar: não sei se o livro é chato ou se eu sou chato. Podemos ser ambos chatos, ou a parte do começo seja a que eu queira repetir. Não tenho uma opinião definitiva sobre o assunto, como podem notar. O fato é que o autor descreveu uma situação com um monge de seu mosteiro que me fez pular na cadeira: esse monge tinha um pequeno centro de meditação e formação, que foi próspero e teve algum sucesso durante algum tempo, depois passou por alguns infortúnios, como um pequeno incêndio e foi perdendo adeptos, até ficar inoperante, como as vídeolocadoras ou as empresas de películas fotográficas. O autor do livro descreveu que esse monge, como muitos executivos que são substituídos por profissionais com a metade de seu preço e idade, passou a sentir um cara muito azarado. Ele dizia que não conseguia ter sorte desde a sua infância. As pessoas não deveriam confiar projetos para ele, pois simplesmente ele não conseguia ter sorte e os projetos tendiam a ir para as cucuias em sua mãos. O tal monge carequinha e fofinho foi adoecendo de infelicidade e morrendo. Cacete, o psiquiatra aqui presente pensou, o cara teve uma depressão e foi afundando dentro dela até se apagar. Meditação, dieta vegetariana e uma vida numa comunidade afetiva e protetora não impediram o carequinha de afundar numa depressão que criou vários incêndios em sua vida interior e exterior.
Se estivéssemos em um Congresso de Psiquiatria eu já ouço os comentários de que obviamente o monge teve um quadro depressivo, derivado do estresse de comandar um núcleo de meditação e da sua condição genética. A falta de tratamento fez a condição se complicar, causando várias perdas de performance e isolamento social, até a evolução negativa final. E olha que os colegas estariam certos, ou estariam interpretando o quadro de maneira criteriosa. Mas estariam perdendo um detalhe importante, que geralmente fica na conta dos pensamentos pessimistas gerados pela Depressão: o pequeno monge teve uma Infecção Psíquica, que começou com um foco inocente e foi virando gradualmente uma infecção generalizada, como vemos tantas vezes em nossa prática clínica. Essa forma-pensamento que estava na mente desse monge deve ter se implantado em sua infância, quando olhava as outras crianças jogando e pensava que ele tinha nascido para não ter sorte. Esse pensamento ficou implantado em suas redes neurais e deve ter criado os seus filhotes em sua vida, criando um sistema com um Pensador e um Comprovador. O Pensador afirma: “Eu nasci para não ter sorte”. Cada pequeno infortúnio é usado pelo Comprovador para confirmar o que o pensador afirmou. Nos gibis de minha infância, essa dupla era representada por primos engraçadas, o Pato Donald e seu primo, Gastão. Gastão passa o tempo todo contando vantagem sobre a sua sorte. Se o pneu de seu carro fura, uma pata maravilhosa passa na estrada e lhe dá carona. Gastão se diverte: olha como eu tenho sorte. Donald, por sua vez, está sempre emputecido por sua falta de sorte. Se o pneu de seu carro fura, ele abre o porta-malas e vê o seu estepe também furado. Ele esbraveja e começa a cair uma chuva, com uma nuvem sobre a sua cabeça. E assim vai a historinha. Quanto mais se irrita com a sua má sorte, mais azarado ele se sente, e mais infortúnios acontecem. Parece familiar?
Uma visão de Psiquiatria e mesmo de Medicina mais profundas deveria começar a interferir no Sistema de Crenças disfuncionais das pessoas. Isso não significa distribuir manuais de Psicologia Positiva ou de Autoajuda, mas ajudar as pessoas a identificar essas infecções psíquicas e aplicar o entendimento e o trabalho interno para identificar, questionar e criar alternativas para esses sistemas de pensamento. A doença é uma oportunidade para tratar essas, e outras, infecções. Muitos médicos e muitos pacientes passam batidos por essa oportunidade.
Se estivéssemos em um Congresso de Psiquiatria eu já ouço os comentários de que obviamente o monge teve um quadro depressivo, derivado do estresse de comandar um núcleo de meditação e da sua condição genética. A falta de tratamento fez a condição se complicar, causando várias perdas de performance e isolamento social, até a evolução negativa final. E olha que os colegas estariam certos, ou estariam interpretando o quadro de maneira criteriosa. Mas estariam perdendo um detalhe importante, que geralmente fica na conta dos pensamentos pessimistas gerados pela Depressão: o pequeno monge teve uma Infecção Psíquica, que começou com um foco inocente e foi virando gradualmente uma infecção generalizada, como vemos tantas vezes em nossa prática clínica. Essa forma-pensamento que estava na mente desse monge deve ter se implantado em sua infância, quando olhava as outras crianças jogando e pensava que ele tinha nascido para não ter sorte. Esse pensamento ficou implantado em suas redes neurais e deve ter criado os seus filhotes em sua vida, criando um sistema com um Pensador e um Comprovador. O Pensador afirma: “Eu nasci para não ter sorte”. Cada pequeno infortúnio é usado pelo Comprovador para confirmar o que o pensador afirmou. Nos gibis de minha infância, essa dupla era representada por primos engraçadas, o Pato Donald e seu primo, Gastão. Gastão passa o tempo todo contando vantagem sobre a sua sorte. Se o pneu de seu carro fura, uma pata maravilhosa passa na estrada e lhe dá carona. Gastão se diverte: olha como eu tenho sorte. Donald, por sua vez, está sempre emputecido por sua falta de sorte. Se o pneu de seu carro fura, ele abre o porta-malas e vê o seu estepe também furado. Ele esbraveja e começa a cair uma chuva, com uma nuvem sobre a sua cabeça. E assim vai a historinha. Quanto mais se irrita com a sua má sorte, mais azarado ele se sente, e mais infortúnios acontecem. Parece familiar?
Uma visão de Psiquiatria e mesmo de Medicina mais profundas deveria começar a interferir no Sistema de Crenças disfuncionais das pessoas. Isso não significa distribuir manuais de Psicologia Positiva ou de Autoajuda, mas ajudar as pessoas a identificar essas infecções psíquicas e aplicar o entendimento e o trabalho interno para identificar, questionar e criar alternativas para esses sistemas de pensamento. A doença é uma oportunidade para tratar essas, e outras, infecções. Muitos médicos e muitos pacientes passam batidos por essa oportunidade.
domingo, 30 de novembro de 2014
Psicologia Positiva e Nem Tanto
Como eu sou um tanto lento com tecnologias, internet e provavelmente serei o último a ter Facebook neste planeta, virei um fã tardio dos TEDs, que descobri que é uma sigla de Tecnologia, Entretenimento e Design. Assistindo a uma de suas aulas, me deparei com o tema da Psicologia Positiva. A explanação do colega era consistente e bacana, mas tive ímpetos de pular para o próximo TED que explicava como as pessoas ficam dependentes de uma seita. A Psicologia dita Positiva (não que as outras Psicologias sejam Negativas, suponho) questiona a ênfase excessiva da Psicologia na visão da Doença; as pessoas se sentem desconfortáveis na presença de Psis em geral (psiquiatras e psicólogas, por exemplo) porque imaginam que eles tem uma espécie de visão de Raio X que vai detectar todas as taras e as loucuras que escondemos em nosso íntimo. A Psicologia Positiva não teria em seu foco deixar as pessoas menos infelizes, nem caçar traumas ou loucuras, mas ajudar o ser humano em sua busca incessante pela Felicidade. Pois é aí, justamente, que a porca torce o rabo.
Nossa busca incessante pela Felicidade é uma fonte permanente de Infelicidade. Os homens esperam a Felicidade no volante de uma Ferrari, as mulheres buscam por um Príncipe tão Encantado quanto descolado e muitos lenços de papel são gastos nessa busca incessante. Nada é mais falso do que a ideia de que somos criadores de nossa realidade. Por outro lado, nada me parece mais verdadeiro. Uma afirmação que pode ser absolutamente errada ou certa, sem dúvida está na fronteira do paradoxo. O Paradoxo, senhoras e senhores, é exatamente o ponto onde navegam muitas das psicoterapias bem feitas. A felicidade como busca, ou como exercício, pode ser o tanto o caminho ou a cenoura que faz os burros puxarem a carroça do Capitalismo e da Cultura de Massa.
Estranhamente podemos acabar defendendo o direito de todo ser humano à sua própria Miséria. A vida é feita de Mistério, e o Mistério está por traz de muitas de nossas buscas, como o de Conhecimento, Justiça, Sabedoria, Iluminação Espiritual ou Paz de Espírito. Talvez o sofrimento intrínseco à nossa vida consciente seja também um direito. A busca incessante de prazer como fonte de Felicidade já foi contraindicada por muitos sábios e iluminados, mas a Psicologia Positiva não se opõe à busca de Prazer como fonte de Felicidade. Eu, particularmente, não me oponho à experiência prazerosa da vida ou da passagem do tempo. Passamos metade da vida com medo de viver e a outra metade com medo de morrer. Medo da passagem do tempo, medo do que ele nos reserva. Medo da felicidade, ou da infelicidade. O prazer não reduz o medo. Muitas vezes, aumenta o medo de ter e de perder.
A excessiva ênfase em nosso tempo das autos: autoestima, autodesenvolvimento, autoexpressão, autoajuda e quantas autos quisermos acrescentar, não vem trazendo muita felicidade para quase ninguém, com exceção do autores de autoajuda. Nosso corpo, nossa psique, nossa felicidade é um reflexo do que fazemos com nossa vida e nossa Psique. Nossa tarefa é equilibrar saúde mental, econômica, afetiva, física e espiritual em apenas uma encarnação. Felicidade é um efeito colateral desta construção. Uma Psicologia que se entende como Positiva é a que ajuda o Sujeito não apenas a buscar, mas antes entender o equilíbrio delicado de todas essas saúdes. A Felicidade é uma vivência construída interna e externamente. Como já escrevi em outros posts, é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro (como a música já cantava).
Nossa busca incessante pela Felicidade é uma fonte permanente de Infelicidade. Os homens esperam a Felicidade no volante de uma Ferrari, as mulheres buscam por um Príncipe tão Encantado quanto descolado e muitos lenços de papel são gastos nessa busca incessante. Nada é mais falso do que a ideia de que somos criadores de nossa realidade. Por outro lado, nada me parece mais verdadeiro. Uma afirmação que pode ser absolutamente errada ou certa, sem dúvida está na fronteira do paradoxo. O Paradoxo, senhoras e senhores, é exatamente o ponto onde navegam muitas das psicoterapias bem feitas. A felicidade como busca, ou como exercício, pode ser o tanto o caminho ou a cenoura que faz os burros puxarem a carroça do Capitalismo e da Cultura de Massa.
Estranhamente podemos acabar defendendo o direito de todo ser humano à sua própria Miséria. A vida é feita de Mistério, e o Mistério está por traz de muitas de nossas buscas, como o de Conhecimento, Justiça, Sabedoria, Iluminação Espiritual ou Paz de Espírito. Talvez o sofrimento intrínseco à nossa vida consciente seja também um direito. A busca incessante de prazer como fonte de Felicidade já foi contraindicada por muitos sábios e iluminados, mas a Psicologia Positiva não se opõe à busca de Prazer como fonte de Felicidade. Eu, particularmente, não me oponho à experiência prazerosa da vida ou da passagem do tempo. Passamos metade da vida com medo de viver e a outra metade com medo de morrer. Medo da passagem do tempo, medo do que ele nos reserva. Medo da felicidade, ou da infelicidade. O prazer não reduz o medo. Muitas vezes, aumenta o medo de ter e de perder.
A excessiva ênfase em nosso tempo das autos: autoestima, autodesenvolvimento, autoexpressão, autoajuda e quantas autos quisermos acrescentar, não vem trazendo muita felicidade para quase ninguém, com exceção do autores de autoajuda. Nosso corpo, nossa psique, nossa felicidade é um reflexo do que fazemos com nossa vida e nossa Psique. Nossa tarefa é equilibrar saúde mental, econômica, afetiva, física e espiritual em apenas uma encarnação. Felicidade é um efeito colateral desta construção. Uma Psicologia que se entende como Positiva é a que ajuda o Sujeito não apenas a buscar, mas antes entender o equilíbrio delicado de todas essas saúdes. A Felicidade é uma vivência construída interna e externamente. Como já escrevi em outros posts, é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro (como a música já cantava).
domingo, 23 de novembro de 2014
Dependentes
Estava conversando numa sessão sobre a possibilidade de aumentar o número de sessões, já que o assunto estava ficando mais bacana e as visões internas, as introvisões que chamamos de Insight, estavam se tornando mais ricos e mais presentes no trabalho. Veio a dúvida se aumentar a frequência das sessões não seria criar uma dependência do terapeuta. Esta é uma questão que vira e mexe aparece em nossos sofás terapêuticos: a indústria da terapia, seja medicamentosa ou psicoterápica, busca, pelo menos a nível inconsciente, induzir uma espécie de dependência nas pessoas? Essa indústria é uma máfia silenciosa que captura as pessoas para dentro de uma bolha onde o remédio e a sessão serão drogas pesadas, que induzem mais e mais uso (e abuso)?
Assisti recentemente um documentário sobre o que aconteceu em nossa sociedade com a substituição da dieta vegetal de nossa vida agrícola para a dieta com forte presença da proteína animal, ou da alimentação baseada na carne. Os livros de Medicina do início do Século Vinte nem tinham capítulos sobre Infarto do Miocárdio e a Doença Coronariana era praticamente inexistente. Era quase um evento raro, assim como a Obesidade. Com a troca da dieta baseada em vegetais e grãos para o senso comum que não há como eliminar a carne da dieta e quanto mais carne melhor, as doenças cardiovasculares foram se tornando as superestrelas da Medicina. Vamos chegar à idade madura com pílulas para baixar o Colesterol, controlar o Diabetes e a Hipertensão, e tudo isso está fortemente correlacionado com a nossa dieta. O uso progressivo de antidepressivos e ansiolíticos também deve estar correlacionado com esse tipo de alimentação, que nas últimas décadas ainda foi se tornado cada vez mais industrializada e acrescentada de gorduras Trans, doses industriais de Sódio e alimentos cada vez mais desprovidos de nutrientes. Para isso, temos outras pílulas, de vitaminas, para devolver o que foi retirado da alimentação. Estou falando tudo isso para demonstrar que estamos imersos em mais dependências e mais indústrias produtoras de pseudociências e necessidades. Estou tentando diminuir ao máximo o consumo de carne e outros pró inflamatórios de minha dieta. O resultado é, se parar para fazer um lanche numa padaria, não tenho o que pedir. Estamos enfiados em vários circuitos de dependência, os consultórios não estão livres disso. Em alguns países desenvolvidos, se o médico suspende o tratamento antidepressivo e o paciente tem uma recaída e, por exemplo, perde o emprego, o médico pode ser questionado e mesmo processado. Retirar a medicação envolve um acordo de mútua vigilância e cuidado entre médico e paciente. Sem esse cuidado, sem essa confiança, é melhor manter a medicação. Recebo algumas vezes pessoas que estavam mantendo a prescrição de antidepressivos por alguns anos pelo simples fato de não terem mantido o seu seguimento. Dava para ter suspendido ou trocado a medicação, que o sujeito preferiu manter quase como automedicação. Tudo isso para “não ficar dependente” do tratamento.
O Budismo tem um conceito que eu adoro, que é a Interdependência. Não somos apenas dependentes, mas interdependentes. Um tratamento deveria fortalecer esses laços de interdependência e enfraquecer os nós da codependência. É bem mais fácil falar do que fazer. Aumentar o número de sessões porque o processo está se aprofundando e se tornando mais rico é exatamente o contrário de criar Dependência. Significa aprofundar o Silêncio, numa época que somos dependentes do Ruído.
Assisti recentemente um documentário sobre o que aconteceu em nossa sociedade com a substituição da dieta vegetal de nossa vida agrícola para a dieta com forte presença da proteína animal, ou da alimentação baseada na carne. Os livros de Medicina do início do Século Vinte nem tinham capítulos sobre Infarto do Miocárdio e a Doença Coronariana era praticamente inexistente. Era quase um evento raro, assim como a Obesidade. Com a troca da dieta baseada em vegetais e grãos para o senso comum que não há como eliminar a carne da dieta e quanto mais carne melhor, as doenças cardiovasculares foram se tornando as superestrelas da Medicina. Vamos chegar à idade madura com pílulas para baixar o Colesterol, controlar o Diabetes e a Hipertensão, e tudo isso está fortemente correlacionado com a nossa dieta. O uso progressivo de antidepressivos e ansiolíticos também deve estar correlacionado com esse tipo de alimentação, que nas últimas décadas ainda foi se tornado cada vez mais industrializada e acrescentada de gorduras Trans, doses industriais de Sódio e alimentos cada vez mais desprovidos de nutrientes. Para isso, temos outras pílulas, de vitaminas, para devolver o que foi retirado da alimentação. Estou falando tudo isso para demonstrar que estamos imersos em mais dependências e mais indústrias produtoras de pseudociências e necessidades. Estou tentando diminuir ao máximo o consumo de carne e outros pró inflamatórios de minha dieta. O resultado é, se parar para fazer um lanche numa padaria, não tenho o que pedir. Estamos enfiados em vários circuitos de dependência, os consultórios não estão livres disso. Em alguns países desenvolvidos, se o médico suspende o tratamento antidepressivo e o paciente tem uma recaída e, por exemplo, perde o emprego, o médico pode ser questionado e mesmo processado. Retirar a medicação envolve um acordo de mútua vigilância e cuidado entre médico e paciente. Sem esse cuidado, sem essa confiança, é melhor manter a medicação. Recebo algumas vezes pessoas que estavam mantendo a prescrição de antidepressivos por alguns anos pelo simples fato de não terem mantido o seu seguimento. Dava para ter suspendido ou trocado a medicação, que o sujeito preferiu manter quase como automedicação. Tudo isso para “não ficar dependente” do tratamento.
O Budismo tem um conceito que eu adoro, que é a Interdependência. Não somos apenas dependentes, mas interdependentes. Um tratamento deveria fortalecer esses laços de interdependência e enfraquecer os nós da codependência. É bem mais fácil falar do que fazer. Aumentar o número de sessões porque o processo está se aprofundando e se tornando mais rico é exatamente o contrário de criar Dependência. Significa aprofundar o Silêncio, numa época que somos dependentes do Ruído.
sábado, 15 de novembro de 2014
A Pálpebra dos Lagartos
Depois de duas semanas sem publicar nada neste blog, atendo aos apelos de um de seus doze seguidores para voltar a essas mal tecladas. Não sei se a vitória da senhora Dilma me emudeceu, ou foi melhor me calar para não me juntar ao coro de sandices que se publicou de lado a lado, com direito a racismos, fascismos e outros bichos que ainda estão por aí. Sobre isso, me calo. Vou começar este post com algo bem mais divertido que isso, um poema de Manoel de Barros, falecido aos 97 anos, cheio de luzes e de cores de passarinho, há dois dias. Vamos lá: “No descomeço era o verbo/Só depois que veio o delírio do verbo/O delírio do verbo era o começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos” (Livro das Ignorãças, Ed Record).
Para quem não conhece, Manoel de Barros era o maior poeta vivo deste país que não se importa com poesia. Mais do que poeta e escritor de hai kais pantaneiros, Manoel era um mestre Zen, um cantor de urinóis enferrujados, formigas, do ínfimo, do desimportante, ou, no caso desse trecho de poema, um restaurador da visão de criança que a vida nos subtrai por volta dos sete anos de idade. A criança que diz: eu escuto a cor dos passarinhos. Jesus disse aos apóstolos que deixassem vir a eles as criancinhas, pois deles é o Reino dos Céus. Manoel de Barros nunca citou este trecho, mas levou-o para dentro de suas poesias. A criança escuta a cor, desenha o canto, alucina as folhas e os galhos.
O Zen procura sempre desconstruir em seus koans a nossa estrutura de pensamento, nossa organização cognitiva, nossos a prioris kantianos de Tempo e Espaço. O mestre Zen abole o tempo, o espaço e o encadeamento cognitivo que nos organiza o mundo. Um poeta beatnik, cujo nome me foge, definiu o Zen como “O mundo subtraído de si mesmo”. Manoel, neste poema, começa invertendo o Genesis, que começa com o gigantesco No Princípio: “No Princípio era o Verbo” (este é um princípio retumbante). O poeta não quer saber de começos, só de descomeços, onde o Verbo delira de si e a cor pode ser escutada no canto.
Mais trechos, do mesmo livro: “As coisas que não tem nome são mais pronunciadas por crianças”; “Não tem altura o silêncio das pedras”; “Poesia é voar fora da asa”; “Ando muito completo de vazios”; “Hoje eu desenho o cheiro das árvores”.
Uma criança se delicia com o nonsense, quando colocamos um sapato na cabeça ou viramos o mundo de ponta cabeça. Vivemos num mundo cheio de senso e com pouco bom senso, e tudo queremos sobredeterminar com nossas intencionalidades: para tudo temos metas, objetivos, tarefas a cumprir. Não temos a menor ideia do que é estar completo de vazios ou qual é a altura do silêncio das pedras. Manoel desenhou o cheiro das árvores e as pálpebras dos lagartos.
Para quem não conhece, Manoel de Barros era o maior poeta vivo deste país que não se importa com poesia. Mais do que poeta e escritor de hai kais pantaneiros, Manoel era um mestre Zen, um cantor de urinóis enferrujados, formigas, do ínfimo, do desimportante, ou, no caso desse trecho de poema, um restaurador da visão de criança que a vida nos subtrai por volta dos sete anos de idade. A criança que diz: eu escuto a cor dos passarinhos. Jesus disse aos apóstolos que deixassem vir a eles as criancinhas, pois deles é o Reino dos Céus. Manoel de Barros nunca citou este trecho, mas levou-o para dentro de suas poesias. A criança escuta a cor, desenha o canto, alucina as folhas e os galhos.
O Zen procura sempre desconstruir em seus koans a nossa estrutura de pensamento, nossa organização cognitiva, nossos a prioris kantianos de Tempo e Espaço. O mestre Zen abole o tempo, o espaço e o encadeamento cognitivo que nos organiza o mundo. Um poeta beatnik, cujo nome me foge, definiu o Zen como “O mundo subtraído de si mesmo”. Manoel, neste poema, começa invertendo o Genesis, que começa com o gigantesco No Princípio: “No Princípio era o Verbo” (este é um princípio retumbante). O poeta não quer saber de começos, só de descomeços, onde o Verbo delira de si e a cor pode ser escutada no canto.
Mais trechos, do mesmo livro: “As coisas que não tem nome são mais pronunciadas por crianças”; “Não tem altura o silêncio das pedras”; “Poesia é voar fora da asa”; “Ando muito completo de vazios”; “Hoje eu desenho o cheiro das árvores”.
Uma criança se delicia com o nonsense, quando colocamos um sapato na cabeça ou viramos o mundo de ponta cabeça. Vivemos num mundo cheio de senso e com pouco bom senso, e tudo queremos sobredeterminar com nossas intencionalidades: para tudo temos metas, objetivos, tarefas a cumprir. Não temos a menor ideia do que é estar completo de vazios ou qual é a altura do silêncio das pedras. Manoel desenhou o cheiro das árvores e as pálpebras dos lagartos.
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