segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Dedilhar Sentimentos

Estava ouvindo um relato de uma cliente querida, uma narrativa gradualmente melancólica, sobre um assunto abordado em outro post, que é a Morte. Ou o processo de mudança inerente à própria vida. Ela estava concluindo um projeto longo e estafante, e terminava com um misto de cansaço e melancolia. Uma grande vantagem de associar a Psiquiatria com a Psicologia Analítica é que a tristeza pode ser ouvida e acolhida dentro da sala, em vez de ser abordada com golpes de Prozac, como um inseto que deva ser esmagado. Não só a tristeza, mas outros temas que as pessoas gostam de evitar, como Doença, Velhice, Mágoa... Tudo isso pode ser trazido e expandido, para falar do que, em situações menos intimistas, pode pegar mal ou quebrar o clima da conversa. Isso me lembra um verso antigo de Cazuza: “Outra vez vou me esquecer/ Pois nessas horas, pega mal sofrer”. Dentro do ambiente terapêutico não pega mal sofrer. Então aquele imenso cansaço foi virando uma tristeza de saber que as coisas acabam. Ela ía descrevendo a percepção de seus pais idosos, cada vez mais frágeis dentro do susto que é envelhecer. Um relacionamento curto também estava terminando. As lágrimas correram mansas para expressar a sensação de um pedaço da vida estava, diariamente, se apagando. Foi naquele ponto que foi ficando claro que a tristeza não era só tristeza e o cansaço não era só cansaço: aquele tipo de pensamento insidioso, que aos poucos vai tomando conta de toda a experiência do sujeito não era um pensamento comum: era um pensamento depressivo, aquela percepção da fragilidade era reflexo do estado de real fragilidade que ela atravessava. Mas aí vem o dilema: falar que os pensamentos derivam de uma espécie de esgotamento de neurotransmissão que chamamos de Depressão, também não é esvaziar a tristeza para depois medicá-la? Seria dizer algo como: “Você não está pensando o que está pensando, é a Depressão que está pensando dentro da sua cabeça, cabeção”. Onde termina o cansaço e começa o esgotamento?
Outra vantagem de ser terapeuta é que, quando não se sabe o que falar, é melhor não falar nada. Deixamos o silêncio pairando, até que algo ocorra para falar, ou continuar calado. O que me ocorreu foi um conto de Borges, um trecho curto e direto como toda a sua escrita. Nesse conto, alguém encontrava o relato de exploradores de alguma área desértica. Esses exploradores procuraram por muitos anos achar uma tribo perdida que tinha uma característica especial: esses homens haviam descoberto o segredo da Imortalidade. Como os exploradores do século XVI, que adentravam as selvas em busca do Eldorado ou da Fonte da Vida, esses homens buscavam a tribo dos homens imortais. Como seriam esses homens semi divinos? Quando a tribo foi finalmente descoberta, os aventureiros mal conseguiam crer em seus próprios olhos: Em vez de semi deuses iluminados, o que descobriram é que a Imortalidade tinha subtraído a humanidade daquela tribo. Eram todos humanídeos quase pré-históricos, vivendo no mais profundo e absoluto ócio. Não havia nada para buscar, nem salvar. O homem, sem a Morte, tinha virado uma besta. Uma besta sem propósito.
Ela sorriu e achou fantástico o conto. Nunca tinha olhado o assunto sob esse ângulo. A nossa capacidade única na Natureza de saber da nossa mortalidade é talvez uma de nossas maiores forças. E fraquezas. Tentar adiar ou barrar a Morte é tarefa de muitos buscadores, mas, aparentemente, ninguém descobriu qual é o truque, e se descobriu não está afim de contar para muita gente. Mas o conto deixa delineado, com a ironia borgeana, que nada nos torna mais humanos do que a nossa finitude. E nossos medos.
No outro retorno, aquela nuvem de pessimismo e medo tinha se dissipado. A tristeza não parecia tão funda, seus pais não pareciam tão velhos. A sessão, que parecia dedilhar sentimentos tão profundos, ficou para trás, também. A vida voltou ao seu ritmo, e pudemos prosseguir viagem sem tanto medo das coisas que terminam.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Significado

Há poucos anos estava com a minha família passando o final de ano em Florianópolis e, como costuma acontecer nessa época, presos em um dos imensos congestionamentos que se formam em suas vias de apenas uma pista, numa ilha que não foi projetada para receber tanta gente. Os carros avançavam muito devagar e notamos, eu e meu filho, uma moça correndo aflita atrás de um cãozinho minúsculo, uma espécie de miniatura de Fox Paulistinha cortando perigosamente a frente dos carros. Bendito congestionamento que permitia aos motoristas perceberem a movimentação para evitar que o bichinho estressado se pusesse sob algum carro. Ficamos torcendo silenciosamente pela moça e alguns voluntários que tentavam pegar o fugitivo. Foi quando ele entrou numa rua pequena e sem saída que eu acelerei o carro e resolvi entrar na perseguição. O pequenino ficou encurralado num muro, eu atravessei o carro como um tira americano e eu e meu filho descemos para a operação resgate. Fomos miseravelmente driblados pelo dog, que escapou entre nós em cena de comédia, só faltou batermos as cabeças. Felizmente, ele não passou pela segunda linha de pessoas que nos seguiram, que acabaram capturando o travesso. Voltamos para o carro e retomamos o caminho do congestionamento até a Praia dos Ingleses, quando meu filho comentou que sentia uma imensa alegria no coração, como se algo tivesse se abrido dentro de seu peito. Foi bom ele notar, porque eu também estava sentindo aquela coisa que era mais do que alegria, era uma espécie de expansão de sentimento, de ter saído de nossa costumeira apatia e medo de envolvimento para fazer uma coisa pelo Outro, mesmo que o outro tivesse cerca de 30 centímetros de comprimento.
Na web há um TED, para quem não conhece, uma pequena aula ou exposição de saber ou manifesto pessoal de no máximo 20 minutos que já comentei em posts anteriores. Um TED de 2014 foi apresentado por um sujeito chamado Dan Pacholke, que apresentou o seu trabalho de décadas com cadeias e Sistemas Prisionais americanos, com um título inusitado “Como viver uma vida com significado dentro de uma prisão”. A sua apresentação discorreu sobre as formas de repressão truculenta e força bruta dos presos, e como foram desenvolvendo projetos piloto de treinamento de guardas em suas capacidades de comunicação e contenção de conflitos de forma não violenta, melhorando significativamente o ambiente para os internos e a equipe. O próximo passo foi usar uma prisão agrícola para intervenção ecológica, plantando árvores e alocando espécies de plantas e animais em extinção, ou participando de pesquisas científicas. As pessoas ficaram inspiradas e se sentiram participando de algo maior do que a mediocridade de oprimir ou ser oprimido que caracterizam as instituições fechadas, um presídio acima de tudo. Um modelo fácil de se entender e aplicar seria um grande projeto de recuperação da mata ciliar que envolve o reservatório da Cantareira. São Paulo está à margem (sem trocadilho) de um colapso ecológico de esgotamento de recursos hídricos e as autoridades pedem para rezarmos para São Pedro. Pobre São Pedro, que já carrega a fama de ter negado Jesus três vezes, agora precisa sanar a monumental incompetência de nossos gestores. A mata que poderia e deveria proteger o reservatório está dizimada. A mão de obra institucionalizada em celas superlotadas talvez tivesse uma melhora em sua autoestima e senso de pertencimento de pudessem ajudar a proteger nossos reservatórios e áreas de mananciais. Ou participassem de feiras de adoção das centenas dos cães capturados e mortos em nossa cidade, muitas vezes abandonados pelas próprias famílias que os adotaram. Eles poderiam correr atrás desses bichos soltos como eu e meu filho tomando fintas do cachorrinho fugitivo.
Vivemos uma crise humana sem precedentes e em todas as áreas de nossas vidas. Talvez a crise mais profunda seja a de falta de significado. Sobretudo, a falta de significado do trabalho, da ação política ou mesmo do consumo. Muitas pessoas massacradas nos cubículos corporativos talvez invejassem os presidiários que podem tentar salvar rãs ou plantas ameaçadas de extinção. Um papel do trabalho de todos, inclusive e sobretudo dos profissionais de saúde mental, onde me incluo, devem começar a pesquisar e focar em projetos que conectem as pessoas com algo que não seja o próprio umbigo. Algo que forneça, minimamente, a noção de significado para nossa vida e ação.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Stay Hungry, Stay Foolish

Recapitulando os dois últimos posts desse mal teclado blog, o assunto foi o discurso de Steve Jobs em Stanford. Já fiz meus comentários sobre o expositor e o exposto e, sem propaganda indevida, sugiro ao leitor ou leitora incautos que adentraram esse blog agora, propositalmente ou não, que deem uma passada de olhos nos dois últimos textos. Por que o autor dessas linhas dominicais gosta tanto desse discurso? Tenho a impressão que nessa apresentação curta, Steve Jobs dividiu em três momentos, ou fases, de nossa odisséia humana, mesmo sem ter tido a intenção de fazê-lo. Eu dividiria essas fases em três arquétipos principais: A Ferida, A Jornada Noturna e o Significado.
A primeira pequena história é sobre a epopeia da Infância, que desde tio Sigmund sabemos, um período desagradável de nossa vida. Steve Jobs descreve impassível a brincadeira do destino com o seu nascimento; foi recusado por sua mãe biológica, que o deu para adoção e pelo primeiro casal da lista, que na última hora preferiu trocá-lo por uma menina em bom estado. Terminou aos cuidados de um casal muito simples e amoroso que fez muito sacrifício para criá-lo. E não deve ter sido muito fácil, mesmo.
Steve Jobs nunca fez as coisas que idealizou. Sempre colocou gente talentosa e disponível a trabalho semi escravo para materializar os seus projetos. A sua juventude coincide com a fundação da Apple, a luta para sua sobrevivência como companhia e a criação de um destino heroico, como Édipo, que foi abandonado por seu pai para ser criado por pastores e pessoas muito simples e procurou suplantar a sua dor com uma inteligência muito superior. Édipo, digo, Jobs, suplantou as dores da passagem de infância, adolescência e pós adolescência tornando-se um milionário dono de uma empresa de computadores e visando, antes de tudo, mudar o mundo. Para isso, usou (e abusou) de uma Inteligência e Visão bem adiante de seu tempo. E o mundo mudou. Bastante, aliás. A sua trajetória de Herói Ferido culminou com o tema de nosso último post, a Tijolada, quando foi demitido de sua própria empresa e afastado de seu comando. Atordoado, passou alguns anos longe de seu bebê, a Apple, procurando por um caminho para voltar para o jogo. Ganhou muito dinheiro, continuou tentando mudar o mundo, mas passou esses anos andando no escuro, numa Jornada Noturna, sem saber o que procurava e para onde estava indo. Só sabia que precisava seguir andando, passo após passo, na direção que a sua Intuição mandava. Jung passou por uma profunda Depressão quando tomou a sua tijolada, sendo expulso da Psiquiatria por Bleuler e da Psicanálise por Freud. Passou alguns anos estudando textos ininteligíveis de Alquimia e vários outros livros empoeirados, até começar a entender o que estava descobrindo e legando em sua imensa obra. Foi a sua Jornada Noturna.
Recapitulamos então: A Ferida, A Tijolada, A Jornada Noturna. Por fim, a última jornada, a Morte.
Steve Jobs falou sobre a Morte em perspectiva. Na época, tinha recebido o diagnóstico recente de um tipo de Câncer raro de Pâncreas. Não era de um tipo particularmente letal de Câncer de Pâncreas, que costumam ser muito agressivos e letais. Na época ele se sentia curado. Infelizmente, a doença recidivou alguns anos depois em seu Fígado e a evolução da doença levou à sua morte, como sabemos.
Jobs falou da morte como uma grande invenção da natureza, pois ela permite que o novo suceda o velho e que as ideias avancem, sem os impedimentos dos poderosos que, como qualquer outro ser humano, acabam morrendo. A Morte permite a Renovação de nosso DNA e de nossa Psique Humana.
Jobs alertou que não havia como se revestir de autoimportância já que, diante da morte, já estamos todos nús. Não há também motivo para viver uma vida mentirosa, já que temos um tempo limitado para seguir viagem.
Gosto muito da descrição de Dumbledore para Harry Potter, que havia sido morto por Lord Voldemort e o local de passagem era uma estação londrina de trem. Essa cena é do último livro e filme da saga. Harry perguntou ao mestre: como era morrer, afinal? Havia algo que pudesse ser feito, ou alguma tarefa a se cumprir? Dumbledore, o Velho Sábio, falou para Harry que a Morte era simplesmente, seguir caminho, seguir o trem sem olhar para trás.
Steve Jobs terminou seu discurso citando uma frase de uma revista hippie de sua época “Stay hungry, stay foolish”, em tradução livre: “Continue faminto, continue sem saber”. Tomara que essa seja a minha estação de trem, quando vou encontrar o Velho Mestre, que vai me aconselhar a continuar aprendendo, e seguir viagem sem me levar muito a sério. Esse é um bom Significado para a Morte.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Tijolada

Para quem não teve a oportunidade de ler, o último post desse blog abordou mais uma vez o discurso de Steve Jobs em Stanford, que virou um clássico na Internet e já fora comentado aqui em postagens antigas. Neste discurso para uma turma de formandos, Steve Jobs fez algo muito esperto para um palestrante: esvaziou as expectativas e a auto importância logo de cara, dizendo que a sua apresentação teria apenas três pequenas histórias. A primeira, “Ligando os Pontos”, foi comentada no post anterior.
A segunda história foi sobre a tijolada que levou na cabeça, atirada pela vida. Também é uma história conhecida que Steve Jobs foi um dos criadores da Apple, que hoje é uma das maiores companias do planeta. Quando a empresa saía de sua infância e tentava atingir a adolescência, ele próprio contratou um grande executivo da Coca Cola para dirigí-la, o que se revelou catastrófico. Depois de uma guerra corporativa pelo poder e qual visão seria dominante sobre o futuro da Apple, Steve Jobs foi mandado embora da empresa que ele próprio havia criado. A decepção para si e toda a sua geração foi imensa, sua vida mergulhou num período de dúvida e silêncio. Ele tinha alguns milhões de dólares na conta para não precisar pensar com pressa. Isso pode parecer uma grande vantagem e de fato, é, Steve não precisou procurar emprego nem passar por entrevistas com head hunters para pagar o aluguel. Ele podia sentar encima do dinheiro e gozar de uma boa aposentadoria antes dos 30 anos. Mas continuou fazendo o que gostava, criando uma empresa para desenvolver um sistema operacional menos instável e mais inteligente que o Windows. A empresa ia mal das pernas, mas outro investimento, em uma empresa de animação chamada Pixar deixou-o bastante confortável. Alguns anos depois de ter sido chutado de sua empresa, Steve Jobs voltou para salvá-la e transformá-la no que hoje vemos e tocamos em quase tudo.
Em seu discurso, Steve alertou os formandos para o fato que a vida, um dia, iria dar uma tijolada na cabeça deles também. Alertou-os para não se acomodarem, continuando a fazer o que mais amam. Recomendou enfaticamente não deitar sobre as dificuldades e seguir atentamente a própria intuição (para quem acha que eu sou apenas uma fanzoca louca de carteirinha de Steve Jobs, em outro post eu comento a sua trajetória de herói ferido e trágico, como Édipo. Ele também tinha seus problemas com a própria ferida, como todos nós).
Esse discurso me é particularmente caro porque ele toca em pontos bem importantes do pensamento junguiano, muito provavelmente sem nunca ter sido apreciador da obra de Jung. Não é impressionante um patrono dizer para uma turma de formandos que, “em algum momento, a vida vai te dar uma tijolada”? Dante Aliguieri abre a sua Divina Comédia com o comentário que chegou à metade de sua vida e se descobriu perdido em uma noite escura. Jung tem um nome feio para isso, Metanóia.
Metanóia é a mudança profunda e muitas vezes desagradável que nossa Psique experimenta na metade da vida. A mesma sensação do poeta, de estar perdido no escuro, sem caminho e sem saída diante de um profundo silêncio de Deus, costuma aparecer nesse período da jornada. Quem está lendo pode localizar em sua vida várias pedradas, mas se examinar mais a fundo vai achar uma boa tijolada, daquelas que deixam tudo de cabeça para o ar em nossa vida. Procurar e reconstruir algum caminho e algum sentido após a tijolada não é para qualquer um. Conheço e atendo muita gente que nunca mais encontrou o caminho depois da tijolada. Sobretudo os que não param de falar sobre ela nem um minuto. A recomendação
de não se acomodar é a mais difícil, pois significa deixar a mágoa para traz e seguir caminho. Deixar o leite derramado como derramado e procurar por outras estradas. Seguindo a intuição e sua Voz Interior. Pode demorar muito tempo. E não é nada fácil, ao contrário do que falam os livros de autoajuda.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A Teia e a Mão Tecedeira

Steve Jobs fez um famoso discurso numa formatura de Stanford. Para os formandos, prometeu três pequenas histórias. No big deal, ele disse, “Nada demais, apenas três pequenas histórias”. Não eram apenas pequenas histórias.
A primeira delas ele chamou de “Juntando os Pontos”. A primeira “Pequena História” foi sobre o seu nascimento e processo de adoção (uma história levinha, como pode-se perceber). Sua mãe biológica achou que seria impossível conciliar a sua carreira universitária e doutorado com as tarefas de mãe, então encaminhou o bebê para adoção, exigindo apenas que o casal que o adotasse tivesse nível escolar superior, certificando que aquele bebê fizesse uma boa faculdade. Vamos combinar que a moça realmente prezava a vida acadêmica. Tudo bem se os pais fossem terroristas ou abusadores de crianças, mas tinham que, acima de tudo, garantir uma boa faculdade para aquele bebê. O casal que finalmente o adotou era de pessoas humildes e sem curso superior, mas que juraram de pés juntos que aquele moleque iria para a faculdade quando crescesse. Talvez o único ato de rebeldia de Steve Jobs para com a sua mãe biológica foi nunca ter concluído nenhuma curso de nível superior. Ele pediu desculpas para a plateia de formandos para acrescentar que largar a faculdade foi uma das melhores decisões de sua vida. Pois ele passou um semestre nessa Universidade cara, já sabendo que não iria concluir o curso. Começou a fazer matérias que lhe chamavam a atenção, sem uma razão ou objetivo aparente. Um dos cursos que ele fez foi o de Caligrafia. Pensar em Caligrafia hoje em dia soa quase como piada, com o fim da palavra manuscrita. Pois o jovem e pobre estudante gastou os apertados recursos de seus pais estudando caligrafia. Alguns poucos anos depois, quando fabricava o primeiro Macintosh e o primeiro processador de texto, teve a oportunidade de colocar todas as letras, os caracteres e os tipos de grafias, muitas das quais usamos ainda hoje em nossos programas, a partir do tal curso de Caligrafia. Como Bill Gates passou a mão em alguns programas e plataformas do Macintosh, podemos concluir que muitas letras e textos que digitamos em nossos computadores tem alguma coisa a dever para o tal curso de Caligrafia que o jovem Steve Jobs fez sem intenção nenhuma. Jobs concluiu a sua primeira história dizendo que essas coisas nunca são percebidas em seu significado na hora em que acontecem. Elas só podem ser analisadas quando olhamos para trás e juntamos os pontos. Ele recomendou, finalmente, que as pessoas sempre mantivessem contato com a sua intuição para tomar as grandes e pequenas decisões de sua vida, e que algumas poderiam levar alguns anos para finalmente fazer algum sentido.
Foi bom para Steve Jobs não ter seguido nenhuma carreira acadêmica ou científica, senão seria linchado diante da turba. Conectar os pontos, mais do que juntá-los, necessariamente implica numa infinidade de questões. Implica, por exemplo, em um conceito grego caro aos junguianos, que é a Enteléquia. Este palavrão puxa por outro palavrão, que propõe que nossa vida e Psique tenam um Telos. Calma que eu explico.
Enteléquia é o princípio da semente do carvalho. É um pequeno milagre que uma semente minúscula possa formar uma árvore imensa como um carvalho. A Enteléquia significa o potencial intrínseco, o vir a ser misterioso de toda vida, que faz uma semente virar uma árvore gigante. Posso dar o exemplo de um menino de Três Corações que passou a infância a jogar bola pelos terrões mineiros para virar anos depois o Rei Pelé, o Atleta do Século. Como isso é possível? Destino, acaso, sorteio genético, determinismo edípico, já que seu Dondinho, pai do Edson, passava para o filho todo o legado do grande jogador que tinha sido, mas que nunca ultrapassou os campeonatos amadores?
Enteléquia é o potencial que estava em estado de semente naquele jovem fumeteiro dos anos setenta que viria a se tornar o grande inovador Steve Jobs, um cara que influenciou quase tudo o que acontece em nossa vida moderna. Daí chegamos em um conceito ainda mais complexo e metafísico, que é o Telos. Telos significa Finalidade ou direção. Como se nosso desenvolvimento pessoal tivesse uma direção, um significado e um sentido. Conectar os pontos significa entender, de alguma forma, essa Mão Invisível que vai trançando o meu e o seu destino. Os pontos formam uma Teia imensamente complexa, que podemos perceber em alguns flashes, ou olhando para trás. Pensar que há uma mão invisível significa o que o físico David Bohm chamou de Ordem Implicada, o que a grosso modo significa a ordem profunda que tece, com imensa delicadeza, as teias do nosso destino. Veja bem que tudo isso pode ser retirado desta pequena história. Pensando bem, foi muito bom que Steve Jobs tenha largado a faculdade.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Grande Mãe

O filme “Guerra ao Terror” ganhou o Oscar num ano insosso, com uma safra de filmes limitada. Eu gosto do filme, mas tenho certeza que a sua premiação foi uma espécie de canto de cisne dos anos sombrios de George W. Bush, um sósia de Ronald Golias que foi presidente do país mais poderoso do mundo por oito longos anos. Para não dar o Oscar para “Avatar”, que segundo os críticos reaças da Academia estava repleto de sentimentos antiamericanos, preferiram premiar a luta solitária de um soldado que arrisca a própria vida todo dia para desmontar artefatos na Guerra do Iraque. Tem até um psiquiatra bonzinho que estimula os soldados a tentar tirar o que há de melhor na experiência de invadir um país e ver explosões e pedaços de carne humana voando pelos ares. O tal psiquiatra sai numa patrulha e troca uma ideia com os nativos, que lhe deixam uma bomba de lembrança... E lá se vai o psiquiatra (e, provavelmente, a Psiquiatria otimista) pelos ares. Não se deve dar mole para esses seres medievais, é o que deixa implícito o filme.
“Avatar” é uma fábula futurista adocicada, uma visão romântica da luta para preservar a consciência de um povo que não perdeu o contato com a natureza e tem uma Árvore Sagrada” para defender dos interesses extrativistas dos invasores americanos. O soldado paraplégico ganha pernas de seu Avatar para se infiltrar nos povos da floresta, com o intuito de facilitar a invasão, mas acaba percebendo a natureza sagrada da Árvore e da Grande Deusa da floresta que cria o campo energético onde tudo está interconectado. E tudo pode ser aniquilado se esse santuário ecológico for destruído. O soldado troca de lado e passa a combater os invasores americanos, o que retirou o Oscar de melhor filme de “Avatar” que, aqui entre nós, é menos filme que “Guerra ao Terror”.
Há alguns meses eu citei, nesse blog, um documentário mostrado na TV a Cabo chamado “Medicina Milenar”. Um jornalista inglês percorre o mundo conhecendo tradições de cura de diversos povos. Um dos programas é sobre a Medicina Amazônica, na borda entre os curandeiros peruanos e os índios brasileiros, na fronteira amazônica entre os dois países. Uma moça americana com quadro pulmonar crônico e ataques intratáveis de asma tomou uma espécie de xarope de cupim e sentiu melhora imediata. No final de toda a experiência, o jornalista foi convidado a tomar o extrato de Ayhuasca, bebida retirada de uma espécie de bambú amazônico que serve para os rituais do Santo Daime. O homem fica completamente chapado e descreve, durante o uso da substância, que aquilo era uma espécie de tecnologia da floresta para se proteger da invasão dos humanos. Era como um contato com a Alma da Floresta, que também demonstrava a sua presença sagrada. Não são poucos os relatos de pessoas que se libertaram completamente do uso de outras substâncias, como o Álcool e a Cocaína, a partir da experiência com essas substâncias que estão na origem das mais antigas tradições espirituais da raça humana, que é o Xamanismo.
Trabalhar com a doença e o adoecer humano é, muitas vezes, a oportunidade de se recuperar o contato com essa experiência do Sagrado, que é motivo de piada em nosso Ocidente hipercapitalista e científico, ou pseudocientífico. Não são poucas as pessoas que mudam radicalmente a sua relação com o próprio tempo e com a própria vida após atravessar a dura jornada de um tratamento para o Câncer, por exemplo.
Vivemos num mundo que as pessoas não tem muito contato com seu Mundo Interno e sua relação com a Mãe Terra e a Mãe Natureza. Para os usuários do Daime, ela aparece como uma Grande Mãe, a Mãe Ayhuasca que adverte os dependentes sobre a besteira que está fazendo com sua vida. A vida é sagrada em si, tem um valor intrínseco e não depende de nada que a justifique. Como tal, deve ser preservada e desenvolvida, não jogada no lixo. Tenho vontade de tomar o chá horrível para acionar essa sabedoria da Grande Mãe para esfriar o planeta, dissipar os poluentes e trazer de volta o equilíbrio para o clima e a Água. Ou poderia acionar um Avatar para penetrar na Alma da Floresta, para que a Terra chame pela chuva e a chuva não destrua tudo em seu caminho. Precisamos entra em contato com a Mãe Gaia. Quem tiver o contato, por favor me passe.

domingo, 11 de janeiro de 2015

A Pena e a Metralhadora

Em Dez de Setembro de 2001, um paciente meu teve um sonho de madrugada, que correlacionou com o fato de ter lido um livro sobre a Segunda Guerra Mundial antes de dormir. Lembro do sonho como se tivesse sido contado ontem: “No sonho havia um grupo de pessoas preocupadas com uma crise mundial. Estavam reunidas no alto de uma montanha, em torno de uma mesa redonda. Na mesa havia um livro enorme, com pessoas de várias nacionalidades em torno dele, discutindo as soluções para o perigo”. Meu paciente acordou e foi para o trabalho, até ser chamado para ver o segundo avião se chocar com as Torres Gêmeas, pondo fim ao mundo que a gente conhecia até então. Foi na sessão que correlacionamos o sonho com o Onze de Setembro. O terrorismo então criou esse paradoxo: em nome da Liberdade, as liberdades individuais foram abolidas. Somos todos monitorados, rastreados, nossos corpos expostos em máquinas de Raio X nos Aeroportos, prisioneiros são torturados e enviados para masmorras sem julgamento, em nome da segurança e da liberdade. O sonho antecipou a crise mundial que praticamente definiu o rumo dos anos 2000 e as guerras que vieram depois das torres desabarem.
Hoje aconteceu uma passeata de quase quatro milhões de parisienses nas ruas da Cidade Luz, num protesto intenso contra o atentado perpetrado por terroristas fanáticos ao jornal satírico Charlie Hebdo, uma espécie de Casseta e Planeta francês. O Jornal publicou tiras e charges com o profeta Maomé. O pessoal do Porta dos Fundos, que faz muitos vídeos brincando com Jesus e com Deus, está sendo provocado: façam vídeos com Maomé então, se forem machos de verdade...
A turma do Mas tomou as mídias, dizendo que os caras folgaram demais. Mas, não pode mexer assim com radicais. Mas, a turma do Charlie era anti qualquer religião, pisava no calo de muita gente. Eu concordo com algumas vozes que dizem: “Mas uma ova! Ninguém pode tirar a vida de ninguém por conta de uma tirinha”.
A parte mais assustadora desse atentado, assim como o atentado de Boston, é o terrorismo ter virado um negócio de família. Microcélulas terroristas, compostas por dois irmãos e poucos familiares, são quase impossíveis de rastrear, uma agulha no palheiro de ruídos nas redes sociais e nas linhas de celular. Mais uma vez, o terrorismo vai permitir que se subtraia ainda mais as liberdades individuais. Como no caso dos irmãos de Boston, os irmãos franceses eram imigrantes, tinham pouca ou nenhuma inserção na sociedade francesa e na vida produtiva e receberam dos radicais uma espécie de processo de adoção. Passaram a ter nome e sobrenome e, acima de tudo, uma causa para defender, um inimigo para atacar. A sua vida de pequenos marginais passou a ter um foco e um significado. Quantos órfãos do Capitalismo podem ser recrutados? Quantos serão seduzidos pela chance de empreender uma luta heroica contra os caras que jogam outros jogos terroristas, como os assassinatos econômicos e as manipulações de informação. O que se vai fazer para vigiar essa células terroristas?
O sonho do meu paciente anunciava uma crise que se realizou nesses anos. O Alto da Montanha representa a necessidade profunda dos homens de boa vontade de olharem a situação de um outro patamar, para compreender e superar as diferenças. Uma cultura de ódio é bem mais fácil de construir do que uma de paz. Criar uma sociedade islamofóbica não vai permitir que se escrevam novos livros sagrados. Há milênios que as religiões criam boas tentações para achar que meu profeta é melhor que o seu, então vou enfiá-lo pela sua goela abaixo. A religião ocidental predominante é o Capitalismo. Ou o Hipercapitalismo. Essa é a nova Cruzada. Os focos de resistência do Islã não representam apenas que um bando de fanáticos quer que as mulheres andem de burca e a Guerra Santa prevaleça. Eles lutam também para que sua Cultura não seja engolida, e o mundo vire finalmente um gigantesco Mac Donalds. Fazer charges ridicularizando uma crença não vai estabelecer zonas de diálogo e criação de visão compartilhada com o Islã que quer a Paz e o entendimento. Esse Islã está em grande risco e sob grande ataque. E precisa muito da ajuda do Ocidente.