Édipo quer dizer “Pés Inchados”, ou “O Coxo”. A sua história e a sua ferida começam quando seu pai, Laio, foi ao Oráculo de Apolo perguntar como seria o destino de seu primeiro filho. A previsão foi a mais terrível que se pudesse esperar: aquele menino estava destinado a desposar a própria mãe e matar o seu pai. Laio pegou a criança e a entregou a seus criados para morrer, no monte Cinterão. O escravo não teve coragem de matar a criança. Perfurou os seus pés e deixou-o pendurado numa árvore, para ser morta pelas feras. Pensando bem, talvez tivesse sido melhor matar a criança. Deixado à própria sorte, Édipo foi salvo por um pastor que ouviu o seu choro e tomou-o como filho. A marca dessa Ferida nunca se apagou de seus pés. Nem da sua alma.
Édipo é um herói moderno. A sua força não está na beleza nem nas glórias da batalha. Édipo vence a Esfinge com duas armas novas para os heróis: Inteligência e Astúcia. As suas armas não serão as dos X-Men nem dos Vingadores. Decifrando o Enigma da Esfinge, ele liberta Tebas e desposa a sua Rainha, Jocasta, que mais adiante ele descobrirá que assim cumpria a profecia terrível. Freud fixou-se bastante nessa parte do Mito que descreve a atração pela Mãe e a rivalidade voltada ao Pai. Eu prefiro olhar o mito por outro ângulo. Édipo descreve uma tendência muito enraizada em nossa Cultura, que já falei em outros posts, é mais helênica do que imaginamos. Como eu poderia resumir essa atitude? Fácil: ninguém aparece feio no Facebook. Todos estão lindos e com fotos desatualizadas em anos e quilos. Cultivamos beleza, simetria e perfeição. Nada de feiúra, nem de fraqueza. Ainda assim, somos descendentes dos pés inchados e tortos de Édipo. O que isso quer dizer?
Na prática clínica vemos histórias de heroísmo, de pais e mães que abraçam o sofrimento dos filhos. Doenças degenerativas, paralisias, sofrimentos que nem conseguimos imaginar. Fico pensando que esses pais fogem do erro de Laio e Jocasta. Laio ouviu que aquela criança mataria seu pai para desposar a mãe. Para fugir do próprio destino, sacrifica o seu filho e, sem saber, a própria vida. Essa é uma lei psicológica profunda do Mito: quem tenta fugir do sofrimento acaba por atraí-lo. A fragilidade humana sempre vai existir, não importam as tentativas de retificá-la. Podemos promover abortos terapêuticos quando os exames apontarem defeitos genéticos ou tentar manipular os genomas para eliminar as doenças, mas essa é exatamente o mecanismo da tragédia do Rei Édipo. O jovem machucado tenta fugir da própria Ferida através da Lógica, da Técnica, da tentativa de dominar a própria dor pela força da Razão. Isso parece mais fácil do que integrar a própria fragilidade no Todo da Psique.
Lacan dizia que o “Sintoma é Aquilo que o Sujeito tem de Mais Real”. O sintoma nos conecta com as coisas que gostamos de esconder nas redes sociais: a Fragilidade e a Dor. Isso não gera muitas curtidas...
Édipo termina a sua vida disputado por todas as cidades vizinhas. Outra profecia dizia que onde ele morresse seria um território sagrado? Não seria outro paradoxo? O portador da desgraça, a família que atravessou três gerações de tragédias (como os Kennedys), e ainda assim ele passa a ser um homem sagrado. Como outros grandes heróis, Édipo não vai passar pela morte física, e ele é engolido pela terra. Ele é o homem que conquistou a própria ferida, em vez de fugir a vida toda da própria fragilidade. A Razão vira Sabedoria e a Força deriva de sua fraqueza... E aí? Vai encarar?
sábado, 22 de agosto de 2015
domingo, 16 de agosto de 2015
Ciclos Arquetípicos
Já mencionei essa pequena história em outro post. Depois de 500 textos, é difícil não repetir ideias ou histórias. Junguianos comparam o desenvolvimento psíquico a uma escada em espiral, onde passamos infinitamente pelas mesmas questões, mas em níveis diferentes. Vamos imaginar que retomamos esta história alguns degraus acima.
Um artista plástico ensina sua aprendiz. Explica que um artista tem três grandes fases em sua vida: na primeira fase ele desenha, pinta, molda a sua arte para mostrar à sua família. Mostra para a sua mãe, sua babá, seus avós e depois de alguns anos para a professora, para as exposições da escola onde todos fingem examinar aqueles borrões em busca de algum indício de futuro. Na segunda fase, o artista mostra seu trabalho para os seus pares: entra em escolas de arte, encontra as suas referências, deixa o seu bairro, a sua cidade, o seu país e vai se filiando a uma imensa família de artistas, em que seu trabalho vai se inserir, ou não. Nesta fase, o artista quer mostrar a sua criação para todos, quer ser amado, admirado e, sobretudo, captar a atenção das pessoas. Talvez o artigo mais raro que dispomos na Era Digital seja a atenção das pessoas. Tudo e todos se dissipam numa fração de segundos, sem deixar muito rastro. As pessoas se queixam de falta de Memória, mas o que lhes falta é a Atenção.
O artista termina o seu ensinamento chegando à terceira fase, a maturidade da sua arte. Ele já mostrou sua produção aos pais, aos parentes, aos professores, aos seus pares e ao mundo. Recebeu, ou não, sua Atenção. Na última fase, ele não precisa mais desse olhar. Ele passa a ser visto pela sua Obra. Esse é o olhar que interessa. O artista se vê refletido em sua Obra e passa a ser visto por ela.
Acho essa história encantadora porque ela resume três grandes ciclos da vida de um ser humano. Talvez os mais importantes ciclos arquetípicos: o Ciclo Parental, o Ciclo Heróico, o Ciclo da Individuação. Jung dedicou sua vida a intuí-los e descrevê-los, sem essa sistematização, que deixou para nós, seus sucessores.
O Ciclo Parental é o mais explorado pela Psicologia. A primeira formação de identidade vai se formar, bem ou mal, nessa fase. A sensação de ser alguém, de ter um valor intrínseco, de ter um lugar na vida, vai ser formada nessa fase em que a criança mostra seus garranchos e espera por Atenção e Aprovação. A falta ou o excesso dessa Atenção e dessa Aprovação vai determinar muitas feridas psíquicas e um longo trabalho de cicatrização. Isso também vai permitir, ou impedir, a entrada no segundo Ciclo, que é o Heróico. Como o artista que vai procurar a sua tribo, a pessoa vai buscar seu lugar no seu grupo, inicialmente de amigos, depois de colegas e competidores. Vai ser a sua jornada dentro da sua profissão, na formação de sua família e construção de um legado. Muita gente tropeça, ou nem entra, nessa fase heróica. Muitos se perdem no caminho, como dizia a velha música.
A fase seguinte é a mais difícil de descrever, e entrar. O diálogo passa a ser com níveis mais profundos de Silêncio. O artista passa a se reconhecer, ou ser reconhecido, em seu mundo interno, independente da vaia ou do aplauso que vem de fora. O seu diálogo é com a eternidade, onde a sua obra vai ficar de alguma forma registrada. Ele precisa menos de atenção e aprovação que eram tão importantes nas outras fases. Na verdade, ele precisa de cada vez menos coisas do mundo exterior.
Essas fases descrevem a formação, a consolidação e a relativização do Ego como veículo de nossa consciência.
No recente filme “Lucy”, com Scarlett Johansson, uma moça comum e com péssimo gosto para homens se envolve com traficantes e acidentalmente se expõe a uma droga que vai progressivamente expandindo sua capacidade cognitiva. Ela primeiro domina toda a informação disponível, chega ao profundo entendimento da natureza do Tempo e da Vida para no final virar pura Consciência. Jung teria gostado bastante desse filme, eu imagino. O filme descreve, imagino também, a nossa jornada em atingir o máximo de Conhecimento para virarmos, no fim, Consciência. Essa é a tarefa da Individuação, nos três grandes ciclos da Vida.
domingo, 9 de agosto de 2015
Inimigo Invisível
Uma das características da Doença do Pânico, em sua própria definição, é da ocorrência de uma crise de ansiedade repentina e devastadora, sem um desencadeante específico. Segundo essa definição, é como um vulcão interno que entra em erupção sem motivo e sem ter como prevenir esse fenômeno. Essa é uma das características que transformam os portadores dessa doença em reféns do medo: se a crise pode ocorrer a qualquer momento, é como viver sentado num barril de pólvora o tempo todo.
Estava numa livraria ontem e folheava um livro em que o autor denunciava a máfia da Psiquiatria e a sua capacidade de transformar os pacientes com o diagnóstico de Transtorno de Pânico em doentes crônicos, sempre dependentes de vários medicamentos e mantendo, ainda, crises que se repetem, repetem diante das doses cavalares de medicação, que vão sendo aumentadas indefinidamente. Achei a visão um tanto soturna e comprei um livro que talvez falasse do mesmo assunto, que é a Neuroplasticidade. Concordo com o autor que ficar aumentando a dose da medicação sem trabalhar com o paciente as origens e a manifestação do Medo, criando mecanismos de enfrentamento e controle dos sintomas, simplesmente não funciona.
Lembro de um caso que me chegou depois de tratamentos anteriores fracassados em que, apesar da dose da medicação estar adequada e até um pouco mais alta do que eu costumo prescrever, as crises continuavam indo e voltando, ante o olhar assustado do médico e de seus familiares. A conduta tradicional seria aumentar a dose. Acontece que essa definição de crises que vem do nada é muito bonita nos livros e nos manuais diagnósticos, mas não ajuda nos tratamentos. Por que aquele caso, que parecia ter tudo para melhorar, estava evoluindo tão mal? A paciente continuava cutucando as áreas do medo com uma sensação permanente de insegurança sobre o seu futuro. Tio Sigmund, sempre achincalhado nos seminários de Neurociência, descobriu há mais de um século que a existência de um conflito, rodando debaixo da camada percebida pela nossa Consciência, gera sintomas. Esses sintomas não são Imaginários nem vontade de chamar a atenção, como muita gente acredita, mas a tentativa de trazer o conflito para cima e, de preferência, elaborá-lo. A paciente em si estava perfeitamente acovardada por aquelas fases da vida em que nada parece dar certo: relacionamento terminando, transição de carreira, brigas na família, tudo isso bombardeando as áreas do Cérebro que processam o medo, gerando crises que surgiam no meio de pensamentos em turbilhão, preocupações indo e vindo e um bullying muito comum e cruel, que é o auto-bulliyng. Tudo isso criava as condições para a crise de Pânico perfeita, gerando assim novos ciclos de medo e de sensação de que aquilo nunca teria fim.
A estratégia foi trazer à tona os achacadores internos para depois enfrentar os externos, como chefe abusivo, namorado surtado e mãe chantagista, que foram perdendo sua força e as crises junto. De certa forma, pintar o Pânico como um inimigo traiçoeiro, que pode atacar do nada sem mais nem porque deixa os pacientes sempre aterrorizados e agarrados aos remédios. Trazer os medos à luz, explicar os mecanismos das crises e como lidar com elas tem o efeito de trazer o monstro para fora, onde ele não parece tão implacável, nem invencível.
Modular o medo, reduzir os conflitos e as preocupações circulares sem dúvida ajudam a diminuir as crises e ampliar o repertório de estratégias e manobras de lidar com elas. Isso é o contrário do acovardamento que cronifica a doença e gera livros que denunciam os psiquiatras e sua tentativa de escravizar os pacientes. O tratamento deve visar o "enpowerment", que em portuenglish é traduzido por empoderar a pessoa que sofre as crises, para devolver a ela a sensação de estar no comando. Eu concordo que essa não é sempre a posição que alguns pesquisadores tem em relação à doença.
Colocar a crise de Pânico como um fantasma imprevisível e que vai sempre voltar, pode transformar o paciente em uma pessoa fragilizada e escondida atrás dos remédios. Isso deve ser modificado.Mas justiça seja feita que não é todo mundo que está afim de peitar a doença. Em alguns casos, felizmente raros, a pessoa se esconde atrás dos sintomas e vira uma paniquenta profissional, pode-se assim dizer. Essas não se adaptam muito a esse que escreve esse texto. E a culpa vai para a conta do médico e de seus remédios, como sempre.
Estava numa livraria ontem e folheava um livro em que o autor denunciava a máfia da Psiquiatria e a sua capacidade de transformar os pacientes com o diagnóstico de Transtorno de Pânico em doentes crônicos, sempre dependentes de vários medicamentos e mantendo, ainda, crises que se repetem, repetem diante das doses cavalares de medicação, que vão sendo aumentadas indefinidamente. Achei a visão um tanto soturna e comprei um livro que talvez falasse do mesmo assunto, que é a Neuroplasticidade. Concordo com o autor que ficar aumentando a dose da medicação sem trabalhar com o paciente as origens e a manifestação do Medo, criando mecanismos de enfrentamento e controle dos sintomas, simplesmente não funciona.
Lembro de um caso que me chegou depois de tratamentos anteriores fracassados em que, apesar da dose da medicação estar adequada e até um pouco mais alta do que eu costumo prescrever, as crises continuavam indo e voltando, ante o olhar assustado do médico e de seus familiares. A conduta tradicional seria aumentar a dose. Acontece que essa definição de crises que vem do nada é muito bonita nos livros e nos manuais diagnósticos, mas não ajuda nos tratamentos. Por que aquele caso, que parecia ter tudo para melhorar, estava evoluindo tão mal? A paciente continuava cutucando as áreas do medo com uma sensação permanente de insegurança sobre o seu futuro. Tio Sigmund, sempre achincalhado nos seminários de Neurociência, descobriu há mais de um século que a existência de um conflito, rodando debaixo da camada percebida pela nossa Consciência, gera sintomas. Esses sintomas não são Imaginários nem vontade de chamar a atenção, como muita gente acredita, mas a tentativa de trazer o conflito para cima e, de preferência, elaborá-lo. A paciente em si estava perfeitamente acovardada por aquelas fases da vida em que nada parece dar certo: relacionamento terminando, transição de carreira, brigas na família, tudo isso bombardeando as áreas do Cérebro que processam o medo, gerando crises que surgiam no meio de pensamentos em turbilhão, preocupações indo e vindo e um bullying muito comum e cruel, que é o auto-bulliyng. Tudo isso criava as condições para a crise de Pânico perfeita, gerando assim novos ciclos de medo e de sensação de que aquilo nunca teria fim.
A estratégia foi trazer à tona os achacadores internos para depois enfrentar os externos, como chefe abusivo, namorado surtado e mãe chantagista, que foram perdendo sua força e as crises junto. De certa forma, pintar o Pânico como um inimigo traiçoeiro, que pode atacar do nada sem mais nem porque deixa os pacientes sempre aterrorizados e agarrados aos remédios. Trazer os medos à luz, explicar os mecanismos das crises e como lidar com elas tem o efeito de trazer o monstro para fora, onde ele não parece tão implacável, nem invencível.
Modular o medo, reduzir os conflitos e as preocupações circulares sem dúvida ajudam a diminuir as crises e ampliar o repertório de estratégias e manobras de lidar com elas. Isso é o contrário do acovardamento que cronifica a doença e gera livros que denunciam os psiquiatras e sua tentativa de escravizar os pacientes. O tratamento deve visar o "enpowerment", que em portuenglish é traduzido por empoderar a pessoa que sofre as crises, para devolver a ela a sensação de estar no comando. Eu concordo que essa não é sempre a posição que alguns pesquisadores tem em relação à doença.
Colocar a crise de Pânico como um fantasma imprevisível e que vai sempre voltar, pode transformar o paciente em uma pessoa fragilizada e escondida atrás dos remédios. Isso deve ser modificado.Mas justiça seja feita que não é todo mundo que está afim de peitar a doença. Em alguns casos, felizmente raros, a pessoa se esconde atrás dos sintomas e vira uma paniquenta profissional, pode-se assim dizer. Essas não se adaptam muito a esse que escreve esse texto. E a culpa vai para a conta do médico e de seus remédios, como sempre.
domingo, 2 de agosto de 2015
De Cima Para Baixo, De Baixo Para Cima
A descrição clássica da Reação do Estresse é o “Fight or Flight” um trocadilho que quer dizer uma reação de Luta ou Fuga quando diante de uma situação de ameaça. Ela se aplica muito mal a uma crise de Pânico. Nunca vi ninguém, durante e depois de uma crise de Pânico, afim de encarar uma briga. Nem ter vontade de fugir, para algum lugar, do inimigo invisível.Quem passa por isso quer correr, sim, para um lugar protegido, de preferência um hospital. A crise de Pânico parece mais um botão que a Mãe Natureza projetou para ser apertado num Enfarte do Miocárdio. Pode estar vindo uma betoneira na descida que o sujeito não se mexe quando sente a dor de um evento cardiovascular. Sudorese, taquicardia, dor em queimação no ombro e estômago, tremores em todo corpo e extremidades, ar que parece não querer entrar. Pior de tudo, a sensação de congelamento, de não ter como se mexer do lugar, como um peso de toneladas no peito. De fato, uma Crise de Pânico parece em tudo com um Enfarte. E é difícil convencer o paciente que aquilo é apenas um botão errado que o Cérebro apertou.
Gosto muito da Teoria da Neuroprogressão, do grupo de FLávio Kapczinski, lá do Rio Grande do Sul, que se aplica à Doença Bipolar, segundo esse grupo. Cada episódio da doença cria uma espécie de reorganização das redes neurais, criando um Cérebro diferente. Cada crise cria essa progressão, e quanto mais crises, pior. O mesmo se aplica à Doença do Pânico: quanto mais crises, mais o Cérebro vai se organizando em torno do risco de se ter outro evento. É como se o mundo deixasse de ser seguro e cada situação pudesse trazer uma crise de Pânico. Cria-se uma nova e amedrontada identidade, em que a pessoa passa a entender o mundo exterior como perigoso e a si mesma como muito frágil e acovardada. Esse é o maior estrago que a doença produz: uma Neuroprogressão no sentido de viver cercado por uma gaiola invisível: quanto mais crises, mais estreita fica a gaiola. E mais sem saída parece a situação. É muito importante devolver ao paciente a sensação de algum controle sobre as crises, e para isso a medicação é muito útil. Literalmente, um santo remédio.
Recebi um dia um jovem médico, que, óbvio, não ficou feliz com a hipótese de estar passando por crises de Pânico. E se for uma Arritmia Cardíaca? Como você pode ter certeza?- Ele me questionou. Não sei se há certeza em Psiquiatria, ou mesmo na Medicina. Uma arritmia pode causar taquicardia, medo e desconforto respiratório, bem como uma crise de Pânico. Como diferenciar uma coisa da outra?
Nossa consciência corporal se organiza nos dois sentidos: Top-Down e Bottom-Up, isto é, de Cima para Baixo, de Baixo para Cima. Nossa Consciência, na hipótese de Antonio Damásio, se organiza a partir das sensações corporais, nas percepções do próprio corpo que organiza uma sensação de Eu. O Penso Logo Existo de Descartes vira um Sinto Logo Existo dessa teoria. A sensação de existir, de ser o Fulano e Sicrano vai se organizando com uma coleção de Memórias e Percepções de Si e do Mundo. É justamente isso que passa a ser perturbado pelas crises de Pãnico. O Eu deixa de ser Eu e o Mundo deixa de ser o Mundo. Tudo fica estranho, novo, ameaçador. A Arritmia Cardíaca é um desconforto Bottom-Up (de baixo para cima). O Pânico é Top-Down (de cima para baixo). A Arritmia causa uma sensação de desconforto que é interpretada pelo Córtex: um aperto, uma tontura, um desconforto. A crise de Pânico, pelo contrário, primeiro dispara o alarme, o corpo se inunda de Adrenalina, a taquicardia vem depois. O jovem colega aprendeu a entender a crise e a lidar com ela. Isso fez toda a diferença.
Qualquer sensação corporal estranha pode apertar o botão do alarme: uma tosse, uma alergia, uma dor de barriga. O botão pode ser apertado de baixo para cima. mas manda a crise de cima para baixo.
Entender isso ajuda muito a orientar os pacientes e as pessoas que sofrem desta Doença. A sensação que dá para lidar com ela, então, é o começo da cura.
Gosto muito da Teoria da Neuroprogressão, do grupo de FLávio Kapczinski, lá do Rio Grande do Sul, que se aplica à Doença Bipolar, segundo esse grupo. Cada episódio da doença cria uma espécie de reorganização das redes neurais, criando um Cérebro diferente. Cada crise cria essa progressão, e quanto mais crises, pior. O mesmo se aplica à Doença do Pânico: quanto mais crises, mais o Cérebro vai se organizando em torno do risco de se ter outro evento. É como se o mundo deixasse de ser seguro e cada situação pudesse trazer uma crise de Pânico. Cria-se uma nova e amedrontada identidade, em que a pessoa passa a entender o mundo exterior como perigoso e a si mesma como muito frágil e acovardada. Esse é o maior estrago que a doença produz: uma Neuroprogressão no sentido de viver cercado por uma gaiola invisível: quanto mais crises, mais estreita fica a gaiola. E mais sem saída parece a situação. É muito importante devolver ao paciente a sensação de algum controle sobre as crises, e para isso a medicação é muito útil. Literalmente, um santo remédio.
Recebi um dia um jovem médico, que, óbvio, não ficou feliz com a hipótese de estar passando por crises de Pânico. E se for uma Arritmia Cardíaca? Como você pode ter certeza?- Ele me questionou. Não sei se há certeza em Psiquiatria, ou mesmo na Medicina. Uma arritmia pode causar taquicardia, medo e desconforto respiratório, bem como uma crise de Pânico. Como diferenciar uma coisa da outra?
Nossa consciência corporal se organiza nos dois sentidos: Top-Down e Bottom-Up, isto é, de Cima para Baixo, de Baixo para Cima. Nossa Consciência, na hipótese de Antonio Damásio, se organiza a partir das sensações corporais, nas percepções do próprio corpo que organiza uma sensação de Eu. O Penso Logo Existo de Descartes vira um Sinto Logo Existo dessa teoria. A sensação de existir, de ser o Fulano e Sicrano vai se organizando com uma coleção de Memórias e Percepções de Si e do Mundo. É justamente isso que passa a ser perturbado pelas crises de Pãnico. O Eu deixa de ser Eu e o Mundo deixa de ser o Mundo. Tudo fica estranho, novo, ameaçador. A Arritmia Cardíaca é um desconforto Bottom-Up (de baixo para cima). O Pânico é Top-Down (de cima para baixo). A Arritmia causa uma sensação de desconforto que é interpretada pelo Córtex: um aperto, uma tontura, um desconforto. A crise de Pânico, pelo contrário, primeiro dispara o alarme, o corpo se inunda de Adrenalina, a taquicardia vem depois. O jovem colega aprendeu a entender a crise e a lidar com ela. Isso fez toda a diferença.
Qualquer sensação corporal estranha pode apertar o botão do alarme: uma tosse, uma alergia, uma dor de barriga. O botão pode ser apertado de baixo para cima. mas manda a crise de cima para baixo.
Entender isso ajuda muito a orientar os pacientes e as pessoas que sofrem desta Doença. A sensação que dá para lidar com ela, então, é o começo da cura.
sábado, 1 de agosto de 2015
A Flauta de Pã
Antes de falar sobre o deus grego Pã, vou contar uma passagem de suas histórias: Pã, um deus grego feio, com torso e rosto humano mas chifres, barbas e pernas de bode, apaixonou-se pela bela ninfa Siringe. Ela, como tantas outras, rejeitou o sátiro que, enlouquecido, resolveu tomá-la à força. Ela fugiu deseperada e pediu ajuda às ninfas do rio, as naiades, que, meio no improviso, a transformaram num monte de bambús. Pã montou com esses bambús uma flauta, com sete notas, que representam as notas maiores da música e a harmonia universal que é tocada por ela. A Mitologia Grega é cheia dessas histórias, em que uma perda, uma dolorosa frustração ou mesmo uma morte é um portal para a arte, a criação. Isso tem uma implicação difícil para nosso tempo: a doença, a fragilidade podem ser o portal para uma ampliação de consciência.
Talvez esse seja um ponto importante para marcar as diferentes leituras de Freud e de Jung sobre os mitos e as doenças. Pã é um deus pastoril, um homem bode que deu origem à imagem de vários demônios, com seus chifres e seus olhos de fogo. Conta a lenda que Pã morre com a nova civilização cristã e a transformação da força indomável de Eros para a doçura do encontro amoroso. Pã não morreu, apenas adormeceu. Freud retirou-o das profundezas. Mostrou que dentro de nossas camadas e camadas de educação civilizada existe um sátiro, um monstro pronto a assumir o comando e despedaçar tudo o que estiver na sua frente.
Para quem já teve uma crise de Pânico a imagem da fúria de Pã não é nem um pouco estranha. Siringe diz não diante de seu desejo, Pã se enfurece e avança para tomá-la à força, mesmo que isso a destrua. Ela pede para sair de lá, ir para outro lugar. As pessoas vítimas de extrema violência, como torturas e estupros, podem usar essa estratégia, de se mudar para outro lugar dentro de sua cabeça para sair dali, não participar daquilo. Quem passa por uma crise de Pânico nem sempre tem essa opção: é sufocante demais, aterrorizante demais.
Freud diria que as pessoas perderam o contato com seus instintos, mandando-os para o calabouço do Inconsciente. Exilado no escuro, Pã aproveita a primeira ocasião para possuir quem o abandonou. Depois disso, ele não vai mais tolerar a indiferença. Ele vai ser ouvido, por bem ou por mal. Ele não lida bem com rejeição, pode-se assim dizer.
Jung diria que a doença é sim uma porta voz dos deuses famintos. Que o sintoma pede para ser ouvido e exige que o homem partido em mil pedaços comece a juntar seus cacos na direção de um ser mais completo e integrado. Aqui temos um ponto muito importante: Freud clama pela recuperação do deus morto, pela recuperação de nossa capacidade desejante. Ele procura o Daimon, que é o nosso fauno interior. Nossa sociedade inflamatória afunda nosso daimon em tijelas imensas de Corn Flakes. Nosso desejo virou obesidade. O desejo de Pã não pode ser contido e deve ser trazido à Consciência.
Jung acredita em Siringe: o desejo de Pã pode e deve ser contido. Quando fazemos isso, sofremos. Não é fácil dizer não, como bem sabia a ninfa. A dor, a perda, a doença, tudo isso pode ser transmutado em harmonia. Em totalidade. Percebem? Ambos, junguianos, freudianos, procuram pela recuperação do que está soterrado e restauração do humano aleijado de seu instinto, ou separado do Significado. Os caminhos não são distantes, mas terminam em lugares muito diferentes.
Talvez esse seja um ponto importante para marcar as diferentes leituras de Freud e de Jung sobre os mitos e as doenças. Pã é um deus pastoril, um homem bode que deu origem à imagem de vários demônios, com seus chifres e seus olhos de fogo. Conta a lenda que Pã morre com a nova civilização cristã e a transformação da força indomável de Eros para a doçura do encontro amoroso. Pã não morreu, apenas adormeceu. Freud retirou-o das profundezas. Mostrou que dentro de nossas camadas e camadas de educação civilizada existe um sátiro, um monstro pronto a assumir o comando e despedaçar tudo o que estiver na sua frente.
Para quem já teve uma crise de Pânico a imagem da fúria de Pã não é nem um pouco estranha. Siringe diz não diante de seu desejo, Pã se enfurece e avança para tomá-la à força, mesmo que isso a destrua. Ela pede para sair de lá, ir para outro lugar. As pessoas vítimas de extrema violência, como torturas e estupros, podem usar essa estratégia, de se mudar para outro lugar dentro de sua cabeça para sair dali, não participar daquilo. Quem passa por uma crise de Pânico nem sempre tem essa opção: é sufocante demais, aterrorizante demais.
Freud diria que as pessoas perderam o contato com seus instintos, mandando-os para o calabouço do Inconsciente. Exilado no escuro, Pã aproveita a primeira ocasião para possuir quem o abandonou. Depois disso, ele não vai mais tolerar a indiferença. Ele vai ser ouvido, por bem ou por mal. Ele não lida bem com rejeição, pode-se assim dizer.
Jung diria que a doença é sim uma porta voz dos deuses famintos. Que o sintoma pede para ser ouvido e exige que o homem partido em mil pedaços comece a juntar seus cacos na direção de um ser mais completo e integrado. Aqui temos um ponto muito importante: Freud clama pela recuperação do deus morto, pela recuperação de nossa capacidade desejante. Ele procura o Daimon, que é o nosso fauno interior. Nossa sociedade inflamatória afunda nosso daimon em tijelas imensas de Corn Flakes. Nosso desejo virou obesidade. O desejo de Pã não pode ser contido e deve ser trazido à Consciência.
Jung acredita em Siringe: o desejo de Pã pode e deve ser contido. Quando fazemos isso, sofremos. Não é fácil dizer não, como bem sabia a ninfa. A dor, a perda, a doença, tudo isso pode ser transmutado em harmonia. Em totalidade. Percebem? Ambos, junguianos, freudianos, procuram pela recuperação do que está soterrado e restauração do humano aleijado de seu instinto, ou separado do Significado. Os caminhos não são distantes, mas terminam em lugares muito diferentes.
domingo, 26 de julho de 2015
O Urso e o Pânico
Ontem estava conversando com uma amiga sobre uma pequena aula, que hoje acaba sendo chamada de workshop, sobre o assunto que realmente me interessa há décadas, que é estabelecer uma ponte entre a clínica psiquiátrica e a compreensão psicológica. De preferência, uma ponte entre Jung e Neurociência. Isso sempre me valeu problemas com membros de ambos os lados da trincheira; para os psicoterapeutas, eu sou psiquiatra demais e para os psiquiatras, eu sou um terapeuta que não participo de verdade do jogo das escalas de avaliação e dos simpósios de Psicofarmacologia. Uma espécie de café com leite, pode-se assim dizer.
A palestra, ou workshop, ou pequeno convescote Psi deve inaugurar uma série de encontros, espero, que vamos chamar de “Os Deuses viraram Doenças?”, uma brincadeira com uma frase do psiquiatra Carl Jung sobre nossa psique contemporânea. O tema será a Doença de Pânico, ou o Transtorno de Pânico. Síndrome do Pânico é um nome que a mídia consagrou e que significa rigorosamente nada. Uma síndrome é um agrupamento de sintomas que podem derivar de etiologias diferentes. Uma síndrome depressiva, por exemplo, pode derivar de uma disfunção tireoidiana ou de uma falha de neurotransmissão após periodo de estresse. Ou a manifestação de uma Doença Bipolar. Mesmo com origens diferentes, o achado clínico pode ser o mesmo. Da mesma forma, uma crise de Pânico pode ser causada por um medicamento para gripe ou por uma disfunção no processamento do medo em nosso Cérebro Límbico. Portanto, é uma Síndrome. Mas o nome pouco discrimina. Se a doença é diagnosticada, deve ser tratada, e esse vai ser um dos assuntos da aula. O seu nome é Transtorno de Pânico, portanto. Mas esse não será o problema da aula. O problema é como fazer uma ponte entre Jung e Neurociência? Será que existe uma?
Lembro de um caso que atendi no início de meu consultório, nos anos 90. Um caso de crises de Pânico irrompendo em um homem racional, culto, professor universitário que viu o seu senso de estar no mundo chacoalhado por crises inexplicáveis de terror e sensação de morte iminente. A princípio ele, como muitos pacientes, fez uma peregrinação por Pronto Socorros, fez dezenas de exames e chegou a investigar arritmias cardíacas e labirintites, porque seus sintomas poderiam sugerir esses diagnósticos. Na sua primeira entrevista ele, de maneira pouco usual para si, ficou com os olhos marejados de lágrimas, lágrimas de raiva e humilhação pela sensação de ter perdido o comando de sua vida, por não poder mais sair de casa sem ter medo de passar de novo por aquela sensação horrível de morte envolvendo o seu corpo e levando-o embora. Se ao menos o Pânico fosse um inimigo visível, ele poderia esganá-lo com as suas próprias mãos. Foi aí que uma frase estranha saiu da minha boca: "E se ele não for um inimigo? E se for um mensageiro de seu mundo interno que está querendo ser ouvido?". Naquele tempo, não havia sido lançado o filme "O Sexto Sentido", que é de 1999, onde o psiquiatra sugere ao menino que vê gente morta a ouvir o que eles, os mortos, queriam dizer. Isso acaba apaziguando muito o seu sofrimento. Bruce Willis acabou me plagiando, portanto. O fato é que eu fiz essa sugestão ao meu paciente que, de maneira surpreendente, não saiu correndo do meu consultório gritando que o psiquiatra era mais louco que ele. Os seus olhos brilharam e pela primeira vez enxergou algum significado naquilo tudo. Na consulta seguinte ele trouxe um sonho belíssimo, que teve na noite seguinte ao dia de nossa consulta: "Estava diante de um urso enorme, sentindo algum medo e a sensação de ameaça do que poderia acontecer se aquele urso chegasse perto. O urso falou com ele, dizendo que não precisava sentir nenhum medo, ele não estava lá para ameaçá-lo nem para fazer mal. Realmente, o urso não parecia querer machucá-lo, mas mesmo assim percebeu que era melhor não chegar muito perto, pois poderia ser despedaçado se ganhasse um abraço do amigo urso. Quando olhou para o lado, viu um felino enorme sentado ao seu lado, um tigre. Não teve medo, mas ficou intrigado com a imagem, que o fez acordar".
O urso representava o seu Inconsciente, que queria se comunicar com ele e ajudá-lo, embora pudesse despedaçá-lo se chegasse muito perto. O tigre representava, em suas associações, as características que precisaria desenvolver, de flexibilidade, astúcia e até uma agressividade mais integrada em sua vida. Ou seja, o que ele desenvolveu nos anos seguintes em sua psicoterapia. Foi naquele caso que eu descobri que o Pânico era um mensageiro dos deuses, que se manifestavam como doença. Descobri também que, quando o Inconsciente quer falar, é melhor ouví-lo, antes que ele grite, porque seus gritos podem ser ensurdecedores.
Essa é uma ponte entre a doença e seu significado. Será que as pessoas ainda querem saber o significado de seu sofrimento?
A palestra, ou workshop, ou pequeno convescote Psi deve inaugurar uma série de encontros, espero, que vamos chamar de “Os Deuses viraram Doenças?”, uma brincadeira com uma frase do psiquiatra Carl Jung sobre nossa psique contemporânea. O tema será a Doença de Pânico, ou o Transtorno de Pânico. Síndrome do Pânico é um nome que a mídia consagrou e que significa rigorosamente nada. Uma síndrome é um agrupamento de sintomas que podem derivar de etiologias diferentes. Uma síndrome depressiva, por exemplo, pode derivar de uma disfunção tireoidiana ou de uma falha de neurotransmissão após periodo de estresse. Ou a manifestação de uma Doença Bipolar. Mesmo com origens diferentes, o achado clínico pode ser o mesmo. Da mesma forma, uma crise de Pânico pode ser causada por um medicamento para gripe ou por uma disfunção no processamento do medo em nosso Cérebro Límbico. Portanto, é uma Síndrome. Mas o nome pouco discrimina. Se a doença é diagnosticada, deve ser tratada, e esse vai ser um dos assuntos da aula. O seu nome é Transtorno de Pânico, portanto. Mas esse não será o problema da aula. O problema é como fazer uma ponte entre Jung e Neurociência? Será que existe uma?
Lembro de um caso que atendi no início de meu consultório, nos anos 90. Um caso de crises de Pânico irrompendo em um homem racional, culto, professor universitário que viu o seu senso de estar no mundo chacoalhado por crises inexplicáveis de terror e sensação de morte iminente. A princípio ele, como muitos pacientes, fez uma peregrinação por Pronto Socorros, fez dezenas de exames e chegou a investigar arritmias cardíacas e labirintites, porque seus sintomas poderiam sugerir esses diagnósticos. Na sua primeira entrevista ele, de maneira pouco usual para si, ficou com os olhos marejados de lágrimas, lágrimas de raiva e humilhação pela sensação de ter perdido o comando de sua vida, por não poder mais sair de casa sem ter medo de passar de novo por aquela sensação horrível de morte envolvendo o seu corpo e levando-o embora. Se ao menos o Pânico fosse um inimigo visível, ele poderia esganá-lo com as suas próprias mãos. Foi aí que uma frase estranha saiu da minha boca: "E se ele não for um inimigo? E se for um mensageiro de seu mundo interno que está querendo ser ouvido?". Naquele tempo, não havia sido lançado o filme "O Sexto Sentido", que é de 1999, onde o psiquiatra sugere ao menino que vê gente morta a ouvir o que eles, os mortos, queriam dizer. Isso acaba apaziguando muito o seu sofrimento. Bruce Willis acabou me plagiando, portanto. O fato é que eu fiz essa sugestão ao meu paciente que, de maneira surpreendente, não saiu correndo do meu consultório gritando que o psiquiatra era mais louco que ele. Os seus olhos brilharam e pela primeira vez enxergou algum significado naquilo tudo. Na consulta seguinte ele trouxe um sonho belíssimo, que teve na noite seguinte ao dia de nossa consulta: "Estava diante de um urso enorme, sentindo algum medo e a sensação de ameaça do que poderia acontecer se aquele urso chegasse perto. O urso falou com ele, dizendo que não precisava sentir nenhum medo, ele não estava lá para ameaçá-lo nem para fazer mal. Realmente, o urso não parecia querer machucá-lo, mas mesmo assim percebeu que era melhor não chegar muito perto, pois poderia ser despedaçado se ganhasse um abraço do amigo urso. Quando olhou para o lado, viu um felino enorme sentado ao seu lado, um tigre. Não teve medo, mas ficou intrigado com a imagem, que o fez acordar".
O urso representava o seu Inconsciente, que queria se comunicar com ele e ajudá-lo, embora pudesse despedaçá-lo se chegasse muito perto. O tigre representava, em suas associações, as características que precisaria desenvolver, de flexibilidade, astúcia e até uma agressividade mais integrada em sua vida. Ou seja, o que ele desenvolveu nos anos seguintes em sua psicoterapia. Foi naquele caso que eu descobri que o Pânico era um mensageiro dos deuses, que se manifestavam como doença. Descobri também que, quando o Inconsciente quer falar, é melhor ouví-lo, antes que ele grite, porque seus gritos podem ser ensurdecedores.
Essa é uma ponte entre a doença e seu significado. Será que as pessoas ainda querem saber o significado de seu sofrimento?
domingo, 19 de julho de 2015
Divertida (?) Mente
Se você que está entrando nesse blog não assistiu o novo filme da Pixar, “Divertida Mente” (título em português novamente lamentável para o original, “Inside Out”), talvez seja melhor correr para algum cinema e vê-lo. Vou evitar alguns spoilers, mas outros não. Vamos lá.
Os antecessores dos psiquiatras e psicoterapeutas foram os xamãs, os curandeiros, os sacerdotes. Eles entendiam a Depressão como um estado de Perda da Alma e faziam seus rituais para trazer de volta a alma perdida. Muitas vezes, depois de um tempo de tratamento eu finalmente me apresento para a pessoa que, gradualmente, vai recuperando as suas próprias características, como se estivesse exilada de si própria e tivesse que fazer um longo caminho de volta para se reencontrar. Um caminho de volta que atribuímos aos medicamentos, mas que é muito mais que isso, na opinião desse escriba. Quando a doença começa a melhorar, finalmente eu tenho a impressão de receber a pessoa “de verdade”, não aquela que chegou ao consultório.
Eu seria capaz de jurar que algum roteirista de “Inside Out” passou por uma Depressão ou teve alguém muito próximo com a doença. De preferência, algum adolescente deprimido. A personagem principal do filme é uma garotinha, Riley, filha única de pais amorosos e de uma família tradicional, em que a mãe cuida dela full time e seu pai trabalha numa pequena cidade, em Connecticut. De uma maneira abrupta a família é obrigada a se mudar para uma nova vida em São Francisco (será que o pai perdeu seu emprego na crise de 2008?). As Emoções Primárias de Riley são representadas por cinco personagens que operam da Sala de Controle: Alegria, que parece uma fada, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. A nova casa é feia e antiga, a cidade é assustadora e, como em muitas situações de nossa vida, Riley experimenta um Ponto de Mutação, onde tudo vira de ponta cabeça: ela perde seu quintal, sua escola, sua melhor amiga e seu time de hockey sobre o gelo, de uma vez só. Alegria tenta coordenar todas as outras emoções primárias para ver o lado bom da situação e animar a menina. A maior dificuldade é manter sob controle a desajeitada Tristeza, que começa a contaminar toda a experiência de Riley. Durante uma briga pela Identidade fundamental da menina, Alegria e Tristeza são sugadas para dentro da Psique de Riley. Na Sala de Controle ficam Medo, Raiva e Nojo. Esse pedaço é muito legal. A Depressão em Adolescente muitas vezes não se manifesta com tristeza. O que aparece é uma irritabilidade profunda e constante, com variações e mudanças abruptas de Humor, explosões de raiva e aversão à tudo. A personagem chamada de Nojo, na verdade em Inglês se chama “Disgust”, que é Repulsa. No caso dos adolescentes, um Tédio profundo e constante, em todas situações.
Estou falando de uma situação extrema, que é a Depressão, mas a idade de Riley, doze anos, é bem a transição em que somos expulsos do paraíso da Infância e de repente lançados no labirinto das relações com o grupo, na necessidade de autonomia e no medo de não conseguir completar a travessia. Isso se dá na revolução da Pré Adolescência, que começa já entre os nove e dez anos. O referencial de Alegria e Tristeza se perdem nesse processo, e a antiga menina fofa e amorosa, que olha o mundo de maneira encantada se torna uma monstrinha irritável, entediada e perdida dentro dos seus medos de fracassar, não ser aceita e sofrer bullying de suas colegas. E olha que colocaram tudo isso no filme de maneira engraçada, mas a Mente de Riley nessa travessia pode ser tudo, menos Divertida.
O filme vai mostrar a jornada de volta para a Sala de Controle, da Alegria e da Tristeza. Tratar uma Depressão é exatamente isso, uma longa jornada de volta para casa. A Depressão de Riley dura alguns dias, mas, na vida real, essa jornada costuma durar muito mais tempo. Muito mais tempo. Os pais que o digam. Os que já passaram por isso que o digam.
Freud descobriu que a matriz de muitos sintomas psíquicos é um conflito de forças psíquicas antagônicas. No filme, o conflito permanente é entre Alegria e Tristeza. Alegria é uma fada bem intencionada, que quer prolongar ao máximo a infância de Riley. É um personagem bem atual, nesse tempo de infantilização coletiva. A Infância hoje em dia dura uns vinte e cinco anos e todos querem se divertir o tempo todo. Esse esforço de se manter alegre à qualquer custo leva Riley à Depressão. Dona Alegria, percebe, numa cena que marejou os meus olhos de lágrimas, que não há como atravessar aquele conflito sem manifestar a Tristeza. A desajeitada Tristeza assume o comando e Riley pode, finalmente, expressar o luto e a dor por tudo o que estava deixando para inciar a sua nova jornada, a Puberdade. Em nossa cultura de alegria de plástico e de redes sociais, não há como crescer sem integrar Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Tédio. Como dizia uma velha música de Cazuza: “A tristeza é uma maneira/ Da gente se salvar depois”...
Os antecessores dos psiquiatras e psicoterapeutas foram os xamãs, os curandeiros, os sacerdotes. Eles entendiam a Depressão como um estado de Perda da Alma e faziam seus rituais para trazer de volta a alma perdida. Muitas vezes, depois de um tempo de tratamento eu finalmente me apresento para a pessoa que, gradualmente, vai recuperando as suas próprias características, como se estivesse exilada de si própria e tivesse que fazer um longo caminho de volta para se reencontrar. Um caminho de volta que atribuímos aos medicamentos, mas que é muito mais que isso, na opinião desse escriba. Quando a doença começa a melhorar, finalmente eu tenho a impressão de receber a pessoa “de verdade”, não aquela que chegou ao consultório.
Eu seria capaz de jurar que algum roteirista de “Inside Out” passou por uma Depressão ou teve alguém muito próximo com a doença. De preferência, algum adolescente deprimido. A personagem principal do filme é uma garotinha, Riley, filha única de pais amorosos e de uma família tradicional, em que a mãe cuida dela full time e seu pai trabalha numa pequena cidade, em Connecticut. De uma maneira abrupta a família é obrigada a se mudar para uma nova vida em São Francisco (será que o pai perdeu seu emprego na crise de 2008?). As Emoções Primárias de Riley são representadas por cinco personagens que operam da Sala de Controle: Alegria, que parece uma fada, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo. A nova casa é feia e antiga, a cidade é assustadora e, como em muitas situações de nossa vida, Riley experimenta um Ponto de Mutação, onde tudo vira de ponta cabeça: ela perde seu quintal, sua escola, sua melhor amiga e seu time de hockey sobre o gelo, de uma vez só. Alegria tenta coordenar todas as outras emoções primárias para ver o lado bom da situação e animar a menina. A maior dificuldade é manter sob controle a desajeitada Tristeza, que começa a contaminar toda a experiência de Riley. Durante uma briga pela Identidade fundamental da menina, Alegria e Tristeza são sugadas para dentro da Psique de Riley. Na Sala de Controle ficam Medo, Raiva e Nojo. Esse pedaço é muito legal. A Depressão em Adolescente muitas vezes não se manifesta com tristeza. O que aparece é uma irritabilidade profunda e constante, com variações e mudanças abruptas de Humor, explosões de raiva e aversão à tudo. A personagem chamada de Nojo, na verdade em Inglês se chama “Disgust”, que é Repulsa. No caso dos adolescentes, um Tédio profundo e constante, em todas situações.
Estou falando de uma situação extrema, que é a Depressão, mas a idade de Riley, doze anos, é bem a transição em que somos expulsos do paraíso da Infância e de repente lançados no labirinto das relações com o grupo, na necessidade de autonomia e no medo de não conseguir completar a travessia. Isso se dá na revolução da Pré Adolescência, que começa já entre os nove e dez anos. O referencial de Alegria e Tristeza se perdem nesse processo, e a antiga menina fofa e amorosa, que olha o mundo de maneira encantada se torna uma monstrinha irritável, entediada e perdida dentro dos seus medos de fracassar, não ser aceita e sofrer bullying de suas colegas. E olha que colocaram tudo isso no filme de maneira engraçada, mas a Mente de Riley nessa travessia pode ser tudo, menos Divertida.
O filme vai mostrar a jornada de volta para a Sala de Controle, da Alegria e da Tristeza. Tratar uma Depressão é exatamente isso, uma longa jornada de volta para casa. A Depressão de Riley dura alguns dias, mas, na vida real, essa jornada costuma durar muito mais tempo. Muito mais tempo. Os pais que o digam. Os que já passaram por isso que o digam.
Freud descobriu que a matriz de muitos sintomas psíquicos é um conflito de forças psíquicas antagônicas. No filme, o conflito permanente é entre Alegria e Tristeza. Alegria é uma fada bem intencionada, que quer prolongar ao máximo a infância de Riley. É um personagem bem atual, nesse tempo de infantilização coletiva. A Infância hoje em dia dura uns vinte e cinco anos e todos querem se divertir o tempo todo. Esse esforço de se manter alegre à qualquer custo leva Riley à Depressão. Dona Alegria, percebe, numa cena que marejou os meus olhos de lágrimas, que não há como atravessar aquele conflito sem manifestar a Tristeza. A desajeitada Tristeza assume o comando e Riley pode, finalmente, expressar o luto e a dor por tudo o que estava deixando para inciar a sua nova jornada, a Puberdade. Em nossa cultura de alegria de plástico e de redes sociais, não há como crescer sem integrar Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Tédio. Como dizia uma velha música de Cazuza: “A tristeza é uma maneira/ Da gente se salvar depois”...
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