sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Hora Mágica

Já está frequentando os divãs e a minha sala a nova série do GNT, dirigida por Selton Mello, "Sessão de Terapia". Para quem não conhece, a série é a adaptação de um trabalho originalmente feito em Israel, que já foi adaptada em mais de quarenta países, e é sobre um psicoterapeuta que vai atender um paciente por dia, todo dia. Téo, o terapeuta brasileiro, vai atender Maria Fernanda Cândido na Segunda Feira, um atirador de elite na Terça, um casal na Quinta e assim por diante. Vamos acompanhar, inclusive, o próprio terapeuta ser atendido por sua antiga mestra, nas Sextas Feiras.
Os pacientes já estão fazendo comparações entre o Téo e seu terapeuta, no caso, eu. Vem me perguntar se eu estou gostando da série brasileira. Eu dou uma de rabugento e digo que não estou gostando. Não estou gostando e vejo todo dia, se é que me entendem. Um problema para mim é que eu já havia assistido a série americana, com Gabriel Byrne fazendo Paul, o psicoterapeuta. A série americana é sem vaselina. A sessão reconstrói quase com perfeição o ambiente analítico. Nunca vi o cinema ou a TV conseguir isso. Os silêncios, os olhares, a inflexão da voz, tudo recria o campo psíquico que se forma quando analista e cliente se debruçam sobre uma vida e suas histórias. Não é uma conversa comum, não é bate papo. Há uma pessoa estabelecendo e disponibilizando a sua Escuta e sua atenção flutuante para entrar dentro de outra Subjetividade, todo o campo de experiências e códigos que definem e dão o contorno a uma vida. É um processo longo, meticuloso, que depende muito da confiança mútua e do pacto que se estabelece entre os participantes do campo analítico. Gabriel Byrne conseguiu recriar esse campo psíquico como ninguém, ele realmente entendeu esse campo de escuta, recheado de silêncios e de exploração delicada de lembranças. A versão americana, chamada de "In Treatment", é mais lenta e mais fiel a uma sessão de psicoterapia. Talvez por isso mal completou a terceira temporada e não chegou ao Brasil em nenhum desses boxes de megastore. Muita gente achou a série muito chata.
Selton Mello já deve ter recebido essa informação. Criou um ritmo mais rápido, dinâmico, que às vezes parece um bate boca entre os pacientes e Téo. Ele mal consegue estabelecer o campo de escuta e já vem a paciente falar que está apaixonada por ele, o outro manda calar a boca e o marido espreme uma resposta para a questão do casal. Téo vai sendo espremido, questionado e em alguns momentos francamente agredido pelos seus analisandos. Parece que a terapia é uma espécie de MMA analítico e que o terapeuta precisa ser treinado pelo Anderson Silva para poder sentar em sua cadeira. Uma vez eu estava orientando uma aspirante a terapeuta e ela contou que tinha levado um coice desses de sua primeira paciente. Eu falei para ela que "benvinda ao clube". Ela abriu uma Clínica de Estética. Que ficar levando coice de paciente, que nada.
Quem nunca fez psicoterapia e assistir à série pode ficar tranquilo ou tranquila que o dia a dia de um consultório tem muito mais afeto e muito menos bate boca do que na série de TV. Selton Mello e os atores querem prender a atenção do público, então as sessões serão mais "calientes" do que na vida real. Mas uma coisa é realmente bem legal de se assistir: é como o terapeuta se coloca com muita firmeza na posição de que não vai oferecer respostas aos pacientes, mas vai ensiná-los a entender as sua questões e procurar as suas respostas dentro de si, não na boca de um especialista. Nessa era de tantos palpiteiros dizendo para as pessoas o que elas devem pensar, como devem se vestir e o que devem dizer em todas as ocasiões, é um grande alívio ver alguém que não se acha o sócio majoritário da verdade do Outro tentando ouvir e ajudar, na sua hora mágica de cinquenta minutos, semanal.

domingo, 30 de setembro de 2012

Tocáveis

Um filme francês estourou surpreendentemente na bilheteria, ganhando o circuito das grandes redes, um feito para poucos que conseguem atravessar as barreiras do cinemão americano. O filme é “Intocáveis”, o que sugere mais um remake da saga de Elliot Ness contra Al Capone, mas não é nada disso. O filme conta sobre o encontro improvável de dois deficientes: um social e outro físico. Um imigrante, recém saído da prisão, passa por uma entrevista para cuidar de um tetraplégico, um homem rico que nada sente abaixo da linha do pescoço. Daí a delicadeza do título. De certa forma, a marginalidade física e social não permite a ambos o toque humano. São solitários, isolados do mundo, uma fonte de sofrimento bem comum em nossos dias. Driss, um senegalês abusado, quer apenas provar que passou por entrevista e foi reprovado, para continuar recebendo o seu Seguro Desemprego. Um diálogo ácido entre eles se dá quando Phillipe, o rico cadeirante, pergunta a Driss como é viver dependendo dos outros. Ele responde de primeira: “Me diga você”, pois ele está cercado de enfermagem e serviçais. Quando Driss aceita trabalhar para Phillipe, a relação vai ser pautada por esse constante embate de homens inteligentes e feridos, sempre dispostos a sacanear um ao outro, o tempo todo. O que poderia descambar para um dramalhão ou um filme edificante acaba criando cenas engraçadíssimas do óbvio contraste entre eles e suas vidas, com o negão (desculpe, o afrodescendente) pintando e bordando naquele mundo empolado dos aristocratas. Como todo processo terapêutico, ambos saem transformados do encontro, mas isso eu vou deixar para quem ainda não viu poder saborear no cinema.
Estou lendo um paper sobre os avanços da neurobiologia e suas implicações para a psicoterapia. Uma, evidente, vem sendo observada na multiplicação dos cursos de Coaching e na influência que isso vai começar a ter nos próximos anos. O termo representa Treinamento, o Coach é o Treinador, o Coachee é a pessoa a ser treinada. Como tudo nessa vida, isso pode trazer um trabalho positivo, de intervenção estruturada nos sistemas de crenças disfuncionais, ou pode abolir a subjetividade humana. Você parte do mesmo princípio de todas as Psicologias, de que você é fruto de uma família e uma sociedade que incutem uma série de crenças compartilhadas e formas de ver o mundo. Pode parecer louco para nós que um menino de quinze anos detone uma carga de explosivos em seu corpo, matando dezenas de inocentes, por acreditar que aquilo é melhor para o seu povo e para o seu Deus. Isso está estabelecido em seu sistema de crenças. Menos dramáticos são nossos hábitos, que criam uma rede de funcionamentos quase impossíveis de se mudar. Um deles é a crença que vamos continuar ganhando peso gradativamente no decorrer de nossas vidas se continuarmos com o mesmo padrão alimentar, e não mudamos esse padrão. Parece impossível fazê-lo. O Coaching vai tentar mudar essas características através do desenvolvimento de outras alternativas de interpretação dessas crenças. Talvez um menino bomba pudesse ser ensinado a vencer os invasores através da educação de outras crianças e do ensino do amor que está descrito no belo Alcorão. É difícil, mas é possível. A neuroplasticidade mostra que podemos modificar essas redes neurais, num sistema de aprendizagem.
O que me incomoda nessa aparente onipotência de Logos, o Cérebro racional tão longamente desenvolvido e glorificado em nosso tempo, é a ingenuidade, tantas vezes abordada nesse blog, de se achar que podemos fazer alguma mudança em nossa vida só pelo viés da racionalidade. Querem um exemplo? A partir de amanhã vou começar novo regime, vou me exercitar mais e assistir menos televisão. Essa é a decisão correta e racional de se tomar, é só aplicá-la. Fácil, não?
O encantador no filme francês, o que talvez explique seu sucesso inesperado, é a descrição de como o afeto, os encontros de alma, podem ser o impulso para o enfrentamento de nossos medos mais profundos. Driss e Phillipe desafiam, um ao outro, o tempo todo, a enfrentar os próprios medos e as próprias limitações, para modificar, a partir do desencontro e também do desconforto, os seus padrões. Esse não é um sistema que pode ser programado, ou controlado por Logos. É a força inerente à vida, que Logos não pode captar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Do Medo e Memória

Não é incomum as pessoas virem a um consultório de Psiquiatria ou qualquer outra especialidade Psi com uma grande tensão e algum azedume. Uma vez a mãe de uma paciente querida, conhecida por seu mau humor, estava na recepção. A paciente veio alegremente apresentar o seu psiquiatra para ela. Essa senhora rosnou para o psiquiatra, no caso, esse que vos tecla, dizendo algo como: “Oi. Eu sou a mãe. A culpada”. Respondi de batepronto: “Culpada, não. Fornecedora”. Até hoje não sei se o seu olhar perplexo significava que ela tentava entender se aquilo era uma brincadeira, o que eu queria dizer com aquilo, se devia ou não me mandar para aquele lugar, etc. O fato é que a filha foi empurrando a senhora para fora do consultório antes que o caldo entornasse. O psiquiatra manteve um sorriso amigável, reforçando a confusão. A senhora irritável não voltou mais à minha recepção. Se estiver lendo esse post, deixe-me esclarecer: foi uma brincadeira. A senhora nem é culpada nem fornecedora. Mas pare de se levar tão a sério. Isso não faz bem para o Fígado.
As mães se queixam que os filhos só lembram das coisas ruins de sua infância. E elas tem razão. Eric Kandel ganhou um Nobel de Medicina pesquisando um molusco gigante, a Aplysia, que aprendia, rapidamente, a encolher a sua cauda se sentisse a mão do pesquisador se aproximar, após tomar alguns pequenos choques durante um tempo. Kandel descobriu muita coisa sobre mecanismos de Memória estudando esses belos moluscos, uma delas o próprio experimento deixa muito claro: uma função óbvia da Memória é aprender e evitar sobre mecanismos de injúria e risco para o ser vivo que tem a obrigação de escanear e aprender sobre tudo o que possa trazer risco à sua vida. Lembramos, sim, melhor das experiências desagradáveis do que das boas. Quanto mais profundos e primitivos são essas memórias de medo, mais isso vai perturbar o funcionamento futuro daquele ser. Uma amiga que trabalha com Proteção de cachorros estava chorando quando um cachorrinho teve que ser sacrificado, depois de ficar amarrado no mato e sob a chuva por cerca de três dias. O medo, muito mais do que a fome e o maus tratos causaram uma lesão definitiva no bichinho. Ele tronou-se agressivo, hiperagitado, destruía tudo o que estivesse na sua frente. Três famílias tentaram adotá-lo, mas foi completamente impossível. O bichinho virou um pequeno sociopata, principalmente por um medo impossível de dominar que ele internalizou.
Com o bicho homem, o medo pode também causar um grande estrago. Qualquer um pode constatá-lo, não precisa ser da área. Saber aprender com ele e transformá-lo é um grande X da questão terapêutica. Talvez seja um dos motivos que os manuais de Neurolinguística não conseguem erradicar do mundo o comportamento irracional, os medos profundos e injustificados que estão plantados em nosso Cérebro Emocional. É por isso que é necessário tempo e habilidade para operar nesse campo minado.

domingo, 23 de setembro de 2012

Estresse e Interneurônios

Estava lendo um paper sobre o papel dos interneurônios GABAérgicos na gênese de doenças psiquiátricas graves. Não é preciso fugir desse post, eu vou explicar. Nossas redes neurais e quase toda a função de nossas células nervosas é um balanço extremamente complexo entre excitação e inibição. Temos aceleradores e breques à disposição para quase todo nosso leque de experiência. A Medicina Chinesa e o Taoísmo intuíram isso milênios antes da Ciência Moderna, dando nome de Yang para as funções masculinas e aceleradoras e de Yin para as funções femininas e acolhedoras, relaxantes, inibidoras. Há uma substância, o GABA, que responde por muitas funções Yin em nosso Cérebro.
Quando, dentro de nossas redes neurais, há um desequilíbrio maior ou menor dessas funções, os problemas começam a acontecer. Em casos mais graves, esse desequilíbrio entre excitação e inibição pode levar a doenças como a Esquizofrenia e o Autismo. Os Interneurônios constituem uma rede quase infinita de pequenos Relês que mediam a neurotransmissão, como amortecedores dessa excitação, um resfriador ou acelerador dependendo da ocasião.
Fico me perguntando se essa rede de Excitação/Inibição não responde na verdade por vários fenômenos de nossa vida prática. Tenho acompanhado a odisséia de um amigo que tem uma criança com desadaptação severa ao ambiente social, sobretudo o escolar, gerando reações violentas e autistas-like em situações de estresse. O excesso de informações, os deboches, as reações sociais complexas como as ironias, duplos sentidos, tudo isso fica dando voltas dentro de seu Cérebro Emocional gerando comportamentos disruptivos e violentos. A criança está perdida numa floresta de neurologistas, psiquiatras, pedagogos e psicoterapeutas de várias linhas, e parece faltar a todos esse entendimento: a criança não tem um instrumental de entendimento de situações complexas, emocionais e intelectuais. Não consegue, igualmente, entender essas situações e criar sistemas de aprendizagem para melhorar a sua perfomance. Isso deve atrapalhar ainda mais a ação dos seus interneurônios que tentam esfriar o sistema para encontrar a melhor solução. O resultado é, diante de pequenas contrariedades, explosões agressivas que estão se tornando cada vez mais perigosas. Qual seria a solução? Antes de mais nada, assumir que a criança tem uma limitação e parar de empurrá-la para a selva da Inclusão, muito linda no papel, mas uma verdadeira tortura para a criança que tem um déficit de desenvolvimento, se o processo não for muito bem conduzido. Depois, tentar criar estratégias para ele compreender melhor as interações sociais e o processo de aprendizagem, em um ambiente mais relaxado. Aprender numa escola menos solicitante e jogar futebol quase todo dia. Reconstruir sua capacidade de tolerar a frustração, passo a passo. Em nossa época, onde tudo está acelerado e as pessoas querem resolver tudo com um click em seu mouse, não é fácil encontrar quem faça esse trabalho.
Tenho a impressão que as pessoas vão ser cada vez mais avaliadas no futuro por sua capacidade de compreender, processar e atuar em situações de estresse e frustração. Hoje há um termo psiquiátrico que foi incorporado pelo senso comum quando a pessoa fracassa na gestão do estresse: o surto. Ouvimos cada vez mais: “Ele surtou na reunião”: “Toda vez que eu estou em TPM eu surto com a minha equipe”. Surto deveria ser um termo reservado a situações psiquiátricas severas. Hoje está incorporado em nosso dia a dia em situações onde nosso sistema de resfriamento e processamento emocional e cognitivo falham e uma pessoa pacata pode jogar o carro em corredores de uma maratona, sem motivo aparente.
Os consultores motivacionais devem parar de recomendar aos clientes estressados que relaxem ou joguem golfe. O melhor é ensinar as pessoas a usarem melhor os seus interneurônios GABAérgicos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Meditação e Finalidades

Foi a partir do final do século XIX e início do XX que a influência da cultura oriental passou a se mais documentada, sobretudo essa estranha (para nós, ocidentais) prática de ficar sentado, na posição de lótus, esvaziando a mente de pensamentos por horas a fio. Uma atividade chamada Meditação. Qual a finalidade disso? Essa pergunta já é um grande X da questão entre as duas culturas: um pensamento finalista, ou intencionalista e o outro que procura, o tempo todo, afastar a mente das amarras da intenção.
Há uma cena no belíssimo filme “Sete Anos no Tibet” em que Brad Pitt faz um papel de um alpinista alemão famoso, que se esconde no Tibet durante a Segunda Guerra para não ficar prisioneiro das forças inglesas, demonstra as suas habilidades de escalada para uma jovem tibetana. Ele está com uma queda por ela e a disputa com um amigo, que também está preso lá pelo mesmo motivo que ele. Lá vai o cara todo pimpão tentando demonstrar que o gostosão lá é ele, olha como eu escalo o morro, olha como manejo as cordas, sou atlético, etc, etc. A moça olha para ele de forma neutra e responde que aquele tipo de demonstração só o faz parecer mais bobo. As pessoas de lá estavam sempre tentando domar o Ego, em vez de glorificá-lo. Pois, nós, ocidentais, tentamos sempre glorificar o Ego com as imagens de herói projetadas nas mídias, ou da mulher escultural, perfeita, que serve de enfeite ao herói. A moça do Tibete dá um fora no Brad Pitt e fica com seu amigo feioso, mais puro de coração. Convenhamos, uma escolha que a levaria à avaliação psiquiátrica desse lado do mundo. Aqui temos mais uma peça do quebracabeça: a Meditação é uma forma de acalmar o Ego, tirá-lo de cena, senão ele fica o tempo todo, correndo em círculos atrás de seus pensamentos. Mas a dúvida ainda resiste: para que serve isso?
Eu li em um livro sobre um mestre Zen que foi dar aula nos Estados Unidos sobre a Não Mente e a Meditação. Um jornal local fez uma reportagem sobre o mestre e suas aulas. A matéria dizia que a sua Meditação era perfeita para o Relaxamento e a redução das tensões da vida moderna. Um dos anfitriões americanos traduziu essa matéria, pensando agradar o mestre. Qual não foi a sua surpresa quando o mestre falou que aquela reportagem era “muito cruel”. Já se vai meio século que o Mestre achou que essa leitura era muito cruel e nós, ocidentais não sabemos onde está essa crueldade. A Meditação continua sendo comparada ou indicada como um Relaxamento do Corpo e da Atividade Mental que traz benefícios de modular as tensões de nossa civilização adrenérgica. Mas por que será que o homem achou essa leitura cruel?
Na Neurociência, estuda-se há décadas a interação entre as experiências e o meio ambiente sobre a expressão genética. Vários países, de diferentes culturas, tem protegido a relação da mãe com os bebês nos primeiros meses de vida. Estudos mostram que o simples reconhecimento do rosto ou da voz da mãe já produzem uma descarga de Endorfinas no Cérebro Emocional do bebê. Isso vai ter influência na capacidade de estabelecer conexões sociais agradáveis e confiar na vida. Ontem um paciente relatava o terror, na sua infância, de quando fazia uma arte e ficava fechado no quarto, esperando pela punição, muitas vezes física, que a sua mãe iria determinar. Essa rede neural, hoje, faz com que ele seja mandado embora sistematicamente de seus empregos, simplesmente por esperar da figura de autoridade uma punição severa por um erro banal. O ambiente relaxado e protetor da psicoterapia permite que ele revisite a cena, compreenda os seus efeitos na construção do software defeituoso que atrapalha a sua vida pessoal e amorosa. Podemos dizer que a sua mãe sabia que estava fazendo aquele estrago no futuro de seu filho? É claro que não. Estava tentando domar um menino levado, mas usou os seus próprios medos na tarefa. Os resultados não foram bons, então.
O que eu posso dizer ao Mestre Zen é que a meditação e os estados de mente relaxada tem, sim, efeito terapêutico e liberador de Endorfinas e Serotonina. Isso é muito importante para nós, ocidentais assustados. Como o bebê que reconhece o sorriso da mãe, podemos “usar” a Meditação para reeducar nossos Cérebros adrenérgicos demais. Eu sei que a percepção do Sábio oriental é que a Meditação é uma prática de alargamento de Alma e de Consciência. É muito mais do que um banho de Endorfinas. Mas nós somos mais jovens, cultural e espiritualmente. Precisamos saber para o que serve e como usar a coisa. Isso pode ser um bom começo. Podemos sorrir mais e acreditar mais na vida. Isso poderia diminuir muito nossa violência interna e externa. Vamos praticar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Nova Adolescência

Na minha formação como Psiquiatra, dei a preferência por uma especialização que na verdade é uma não especialização, que é a Psiquiatria de Interconsulta, ou Hospitalar, se preferirem. Um psiquiatra no hospital geral é, antes de tudo, um generalista. Atende a menina que tomou os remédios da mãe porque brigou com o namorado, no PS, e o velhinho que, por conta de uma Infecção Urinária está confuso na UTI. É uma Psiquiatria de Interface e os leitores desse blog já devem ter notado que eu adoro as questões que estão na interface de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência. O IBAMA está concluindo estudos para me tombar, já que a tendência, nas últimas décadas, é de hiperespecialização. Outro dia fiquei novamente emputecido com essa tendência. Uma pessoa muito próxima estava iniciando um tratamento à base de Hormônios Tireoidianos e passou a apresentar taquicardias eventuais, seguidas de desconforto ansioso. Ao apresentar a queixa para a médica Endocrinologista, foi encaminhada ao Cardiologista para investigação. O quê, Cara Pálida? A taquicardia é um sintoma desencadeado pelo uso do Hormônio Tireoidiano, o quadro coincidiu com o aumento da dose, e agora vamos passar pela floresta de testes cardiológicos por conta de efeitos colaterais perfeitamente manejáveis? Não foi ao Cardiologista, o quadro se estabilizou gradativamente e eu, psiquiatra, tive que explicar os efeitos colaterais da medicação endocrinológica. Continuo um psiquiatra de interfaces, não é mesmo?
Uma coisa que vem me impressionando é o que está acontecendo com essa geração Facebook, que está chegando à casa dos vinte anos. É uma geração de excessos: excessos de Internet, de games, de Álcool, de intensidade. Acho que levaram a sério o mito apocalíptico da vez, que é prevê o final do mundo agora em Dezembro. Tudo é vivido com pressa e intensidade e os resultados dessa velocidade acompanhamos todo dia no noticiário. Acidentes, bebedeiras, overdoses. São todos os pós adolescentes que atropelam corredores de rua, bebem até o coma alcoólico e caem de ribanceiras? Não, é claro que não. Mas há um estranho deslocamento dos quadros antes vistos pela Psiquiatria da Adolescência nessa geração, como se a Adolescência agora estivesse de estendendo até os trinta anos (ou mais). Nossa Geração Autoestima, hedonista e narcísica, exacerbou a busca incessante do excesso e do compulsivo, gerando comportamentos que deixam os pais desnorteados.
No Prólogo de minha Dissertação de Mestrado, eu fiz uma alusão a uma deusa grega, protetora dessa transição da infância para a idade adulta, Ártemis. Ela é uma deusa sempre menina, sempre jovem, sem plástica nem uso de hormônios esteróides. Ártemis anda sempre com uma saia curtinha, é a precursora da minissaia, para poder correr mais rápido. É eximia no manejo do arco e flexa. Hoje em dia, Ártemis seria a deusa das Redes Sociais e da volta para casa depois das baladas, onde o risco de acidentes é 8 vezes o normal. Essa pequena deusa tem sido muito invocada nesse consultório. Ela protege o jovem na jornada que separa a infância da idade adulta. Ajuda o jovem a passar pela noite escura na selva sem se contaminar pela bestialidade das feras.
Ártemis anda muito ocupada com essa geração, filmando baladas e sexo e colocando no Youtube, capotando carros ou fugindo de Blitz, para serem metralhados na esquina.
A parte mais difícil é trazer os pais para a posição de pais. Estamos numa época em que todos querem permanecer ou voltar, para a adolescência. Envelhecer é o maior pecado. Que a pequena deusa Ártemis ilumine e proteja os jovens e suas famílias em sua jornada e que nada destrua esse caminho. Salve, Ártemis.

domingo, 16 de setembro de 2012

Insight

Havia um chefe no Instituto de Psiquiatria que submetia alguns escritos a nós, escravos, para ouvir a nossa opinião de escravos. Em um de seus escritos, ele dizia que algum dia descobriríamos a Neurociência do Insight e como produzí-lo. Insight significa, em tradução livre, uma visão interior, uma capacidade de enxergar as experiências de uma forma mais ampla e libertadora. Isso não pode ser reproduzido em laboratório. No dia a dia do consultório, é razoavelmente comum ouvir alguém ter essa pequena epifania nas situações mais estranhas. Uma frase de um amigo numa mesa de bar pode dar essa visão amplificada e nova para uma situação. Geralmente uma frase que já foi dita e repetida uma dezena de vezes em terapia, mas que muda completamente de figura com algumas cervejas e o momento afetivo vivido no boteco.
O Insight é uma experiência sincrética. Não dá para reproduzí-lo com um modelo experimental clássico. Foi isso que eu respondi para o meu chefe. A frase dele, portanto, era uma bobagem. Mas o que é uma experiência sincrética?
Esse palavrão significa que é um momento em que Emoção e Cognição se fundem, gerando uma nova visão da vida ou de um problema. Vou voltar a uma cena do "360" de Fernando Meirelles, não porque tenha achado o filme excepcional, mas, antes, essa cena é excepcional. Está descrita no post anterior. Anthony Hopkins faz um personagem carregado de imensa tristeza, que vaga pelo país procurando pela filha desaparecida. A cena transcorre em uma reunião do AA, em que ele descreve exatamente a experiência do Insight. Aliás, duas.
Na primeira, ele conta que encontrou um padre vigoroso em uma reunião do AA, anos antes. O padre notou que sua dependência do Álcool tinha destruído sua energia e ele parecia um cara imprestável e pouco confiável. O homem, um alcoólatra convicto da inexistência de um Deus, agarrou o tal padre em completo desespero e suplicou, suplicou pela oração mais suscinta, mais direta para atingir o coração de Deus e tirá-lo daquele sofrimento. O padre olhou fundo em seus olhos e respondeu que a oração mais suscinta para atingir o coração de Deus é "Fuck it!". Em tradução livre, "Foda-se". Nesse momento, foi como tivessem retirado uma tonelada das costas desse homem. Ele olha para os poucos participantes da reunião e fala: "Já pensou, ouvir uma oração dessas da boca de um padre?". Como eu gostaria de dar uma interpretada dessas, ainda mais dentro de uma batina. Vivemos presos às angústias do que será o futuro, ou às culpas do passado, do que fizemos ou deixamos de fazer até chegar a esse ponto. Essa "oração" é realmente bonita, porque coloca o personagem fora da ruminação infinita dos "Por Quê?" e nos lança para a única coisa que temos, que é o Aqui/Agora.
O segundo Insight para esse personagem é ter conhecido uma jovem brasileira, interpretada por uma jovem atriz chamada Maria Flor. Ela tinha ficado de encontrar com ele para o jantar, em um Aeroporto bloqueado pela neve. Quando ele chega, ela havia saído com um rapaz que acabara de conhecer. Ela deixou uma nota se desculpando, mas tinha obedecido a esse impulso, porque "Só se vive uma vez". Essa frase também abriu um mundo para o personagem de Tony. Ele fala, emocionado, que a sua busca pela filha desaparecida terminava ali. Se ela quisesse encontrá-lo, sabia onde procurar. Se estava morta, então estava morta. Ele promete viver a vida, em sua simplicidade, um dia de cada vez, porque "só se vive uma vez". Os visitantes desse blog podem notar que eu curti muito a cena, não é mesmo?
O Insight é o evento, a frase, a emoção aleatória que faz a Consciência saltar, de uma visão mais limitada para outra mais ampla. Ela nos liberta do nó do medo do futuro e da culpa do passado, em um só movimento.
O meu chefe no HC não mais submeteu os seus escritos para eu ler. Ele também criticava o meu estilo "muito literário" de escrever. Como se pode perceber, isso não mudou um milímetro nesse vinte anos que me separam daquela conversa. O Insight não pode ser reproduzido pela Neurociência. E meu estilo continua literário. "Fuck it".