domingo, 20 de agosto de 2017

As Pontas do Mundo

Um lugar comum de entrevistas de emprego e de Coaching é a tal pergunta: “Como você se enxerga em cinco anos?”. Eu consigo entender que a construção de planos ou de intencionalidades seja importante. Até o delinear de um prazo, também é ok. Mas talvez a maior fonte de sofrimento humano seja a perspectiva de enxergar os próximos anos e ter que ter um plano, um projeto, uma garantia. Os planos macro sepultam o entrelaçamento de pequenos momentos que compõe o que temos, que é a infinidade de aqui agoras que vão se bifurcando em quase futuros. O Macro é inimigo do Micro. Nosso Cérebro caça regularidades e garantias. Foi projetado para isso. Nossa tarefa é reprogramá-lo.
“A vida é o que acontece enquanto você está fazendo seus planos”. Essa pode ser uma boa resposta para a tal pergunta de manual de autoajuda, ou de estagiária de RH: espero que a vida aconteça enquanto os coachs programam o futuro. A vida corre nas bordas do que se espera dela. Eu me vejo em cinco anos tentando arredondar as pontas do mundo, como faço hoje. Todo dia.
Fiquei bastante tocado com uma matéria da Folha, de alguns anos atrás, em que uma moça de origem muito humilde descreveu como ficou feliz após tornar-se budista. Ela era faxineira, e a principal descoberta foi que podia ser muito feliz sendo faxineira. Tornou-se uma profissional cuidadosa e sentia que cada movimento da vassoura tinha significado e devia ser caprichado. Em vez de fazer planos de carreira, como virar a Faxineira das Estrelas ou lançar alguma marca de pano de chão com a sua grife, tratava de estar presente em cada momento de seu dia. Em vez de fingir que limpa e tentar se livrar do serviço o mais rápido possível para poder voltar a viver fora da casa da patroa, ela consegue tirar um grande prazer em fazer o seu trabalho direito, sem checar seus e-mails ou postagens no Face a cada doze segundos. A vida é o que acontece quando você não está postando nas redes sociais. Se antes o Futuro nos roubava uma imensa parcela de nosso presente, agora o Presente se nos escapa na tentativa de atualizar o Passado. Postamos o que comemos, onde estivemos, quem apareceu na Selfie. O postar das fotos e dos comentários é uma constante luta para registrar o que já passou e ou ler os comentários que funcionam como um Espelho. Recebo um like, logo existo. Vou para lugar nenhum, com muitos seguidores.
A meditação é, entre outras coisas, uma disciplina para entrar na cascata infinita de aqui agoras entre uma respiração e outra. Uma boa sessão de terapia é uma tentativa de entrelaçamento delicado do que me torna e me impede. Uma trama delicada de lembranças, associações e novas sínteses. Liberamos as dores e os falsos programas de vida, revemos as crenças para construir não outro Futuro, mas outro estar no mundo. Um novo e renovado compromisso com estar no mundo.
Uma personagem da série Big Little Lies descreve o choro de seu bebê ao nascer. Ela pede perdão por tê-lo trazido ao mundo, tendo sido concebido por um estupro. Ela sente na criança um horror de vir a esse mundo, e quase se arrepende de ter levado a gestação até o fim. Na série, ele é um menino doce que sempre é acusado de estar machucando uma aluna. Uma boa terapia poderia ajudar a criança e sua mãe de desembaraçar essa fantasia, construir uma nova história fora desses territórios de violência. A mãe tem a fantasia de que o filho vai herdar a violência de seu pai, o menino sofre com isso sem perceber. A mãe constrói sem perceber tudo aquilo que pretende evitar.
Tentamos desembaraçar essas tramas de passado, esses medos do futuro, enquanto a Vida acontece indiferente a todo esse labirinto de blá blá blás. Como dizia um mestre zen, meu cachorro não está nem um pouco preocupado com o sentido da vida. E eu diria, nem como vai se enxergar daqui a cinco anos.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

De Alma e Sentido

No post anterior acabei falando da palestra de Mia Couto e sua advertência sobre não perder a Alma para atender as pessoas. A Medicina deveria ser exercida com Alma. Isso não dá para se ensinar nas cadeiras da Faculdade de Medicina. A Alma não aparece nos microscópios, nem nos aparelhos de Ressonância Magnética. Se está fora da Física, então é Metafísica. Se é Metafísica, é lixo, perante a Ciência Materialista. Pois a Ciência Materialista é como o governo Temer, demora para morrer. Se Einstein cunhou no início do século passado a equação da Relatividade, em que matéria e energia são estados diferentes de condensação e se complementam, ou seja, a matéria em si não existe, então, tecnicamente a Ciência Materialista bateu as botas nessa ocasião. Sem mencionar a Física Quântica, que jogou outras pás de cal. Mas esse é outro assunto.
A entrevista psiquiátrica foi substituída pela aplicação de escalas padronizadas, visando quantificar sintomas e achados para um diagnóstico menos subjetivo. Isso criou a Torre de Babel de escalas, competindo entre si como youtubers tentando ganhar um nicho de público. Isso significa a perda da Alma na entrevista. Lembro de uma consulta em que a cliente me descrevia detalhadamente a sequência de perdas dos últimos anos de sua vida: mudança de emprego, perda de sua mãe e tia depois de longo processo de doença, mudança de casa, desadaptação ao chefe. Uma odisseia moderna que chamamos de crise de meia idade. A sua descrição era detalhada e mostrava como tinha atravessado toda essa sequência de lutos e se organizado internamente em sua nova vida. Só estava com problemas para dormir, daí a consulta. Se ela tivesse sido entrevistada por um computador, digo, por uma escala padronizada, teria o diagnóstico de uma Reação ao Estresse, em curva de recuperação. Só faltou um detalhe. Durante a entrevista, a sua fala lógica e articulada transmitia em mim (veja o pronome, “em” mim, não “para” mim) uma profunda, cortante sensação de tristeza. Depois da tristeza, um cansaço, mas não um cansaço físico, um cansaço de Alma. Como uma vida em preto e branco. Os outros parâmetros clínicos estavam ok e ela estava vivendo bem. Era uma pessoa “funcional”, outro critério derivado da Revolução Industrial para medir a melhora do paciente: ele funciona? Está em condições de pertencer à Sociedade de Consumo? Então beleza. Pois ela estava bem e funcional, com uma dificuldade em dormir que parecia de fácil manejo. E o contato com ela transmitia uma profunda tristeza. Falei com ela sobre isso e introduzi um medicamento para esse estado de esgotamento, que fica sob o guarda chuva da Depressão. A resposta clínica foi impressionante até para mim mesmo, que levantei a hipótese diagnóstica. Felizmente ela aceitou a hipótese e tomou a medicação. E foi como enxergar colorido de novo.
A Alma está conectada com o Cérebro Emocional. Está diretamente correlacionada com nossa capacidade de sentir. Sentir a mim mesmo, sentir o outro. A virtualização do mundo está amortecendo a capacidade de sentir. O luto passou a ser uma foto ou desenho em redes sociais. A solidariedade é uma mensagem inbox. Tudo rápido, um clique e já vamos rir de um vídeo engraçado. A perda da Alma se relaciona à perda da temporalidade do corpo. Sim, porque é o Corpo que gera as sensações de Alma. O neurocientista Antônio Damásio formulou essa teoria, do Marcador Somático. Nosso Cérebro é moldado e se organiza pela sensação primeira de ter um corpo e, dentro desse corpo, tem uma mente que pensa e sente. Pensar e sentir são atividades integradas, que o autor desse post chama de Pensentimento. A Alma se localiza na fenda entre Pensamento e Sentimento, mas começa e termina na Sensação e no Sentimento. A Neurociência diria que se funda nos Neurônios em Espelho, que nos permitem bocejar quando alguém boceja e também sentir a dor do Outro quando o Outro não consegue mais sentir nada.
Salvo engano desse escriba, no Juízo Final dos Egípcios, após a morte, a Alma Imortal do finado ou da finada era pesada numa balança. O peso a ser medido deveria ser o da quantidade de vivências e de participação efetiva na vida que a pessoa conseguiu ou não, adquirir. O peso da alma talvez fosse medido pela capacidade de ver com os olhos do coração. E na quantidade de amor vivido e gerado. Isso parece um mambo jambo metafísico para a Ciência Materialista. Mas a matéria nem sequer existe, não é mesmo? Colocamos a alma naquilo que faz sentido. Procuramos então por Alma e por Sentido.

domingo, 6 de agosto de 2017

Morrer de Alguém

Mencionei em post anterior uma palestra do escritor moçambicano/português Mia Couto no Brain Congress em Porto Alegre, em Junho desse ano. O fio condutor de boa parte da sua exposição foi sua experiência, na África, com um caçador que estava perdendo a visão mas ainda assim conseguia enxergar o rastro da caça com os olhos de seu coração. Mia Couto ficou tão tomado pelo encontro que marcou uma consulta com uma oftalmologista na África do Sul, tentando socorrer o amigo. No dia da consulta, compareceu o irmão do tal homem, que “tinha os mesmos olhos”. Mia imaginou que, já que o homem falava e vivia no meio de metáforas, aquela fosse apenas mais uma verdade simbólica que não era verdade no mundo real. Mas estava enganado. A médica observou que a degeneração da Retina do homem que foi, o paciente “errado”, tinha base genética e tiraria a visão dos dois irmãos. Mia concluiu que realmente tinham os mesmos olhos, que compartilharam a luz e agora adentrariam juntos o escuro. Quando pode voltar a visitar a África, não se sabe quanto tempo depois, o escritor recebeu a notícia que o velho caçador havia morrido. Como bom ocidental e bom curioso, quis saber do que o homem tinha morrido. Como essa cultura vive por meio de metáforas, disseram que ele não havia morrido de algo, mas de “alguém”. Quando uma pessoa morre, morre pelo caminho de alguém. Como já escrevi no post, lembrei muito de meu pai nessa palestra. Meu pai morreu “de” minha avó. Minha avó morreu da morte de sua mãe. Aos oito anos de idade, seu mundo desabou com a morte prematura de sua mãe na era pré antibióticos, e a menina que seria a minha avó viu seu pai cair no mundo e foi mandada com sua irmã para o Colégio Interno. Ser mandado para o Colégio Interno era a ameaça fantasmagórica de muitas infâncias antigas. Os pais, quando perdiam a esposa, não se viam na obrigação de cuidar dos filhos. As crianças órfãs eram distribuídas entre outros familiares ou entregues para a criação de padrinhos. Chico Xavier viveu e morreu de sua mãe, também falecida precocemente. A sua mediunidade se manifestou muito cedo quando justamente conversava com a sua mãe, enquanto sofria abusos na mão de uma tia amarga e violenta. O fato é que minha avó passou a vida com medo de ser roubada, com medo de perder tudo o que tinha. Quando ela morreu, foi um grande trabalho a limpeza de seu apartamento. Ela guardava de tudo, barbantes, papeis de presente, caixas. Hoje seria medicada como acumuladora. Ela ficou a vida toda temendo que a vida lhe desse outra rasteira. Meu pai internalizou profundamente esse medo e também buscou defender-se do devir, buscar a segurança e evitar as altas e as baixas das marés da vida, que sobem e descem para todos. Esse medo teve um papel importante na sua morte prematura.
Morrer “de alguém”, então, é uma percepção profunda e metafórica da Ferida Arquetípica que nos constitui. O tal do Pecado Original, na minha opinião, é exatamente esse: é vir ao mundo com a tarefa de cuidar da ferida de seus antepassados, sua cultura, sua história. A sensação mais triste do Ego, que é a da Separação. Nosso mundo darwiniano reforça nas pessoas a sensação de solidão e de Separação. Chico Xavier encontrou em seu mundo interno o caminho de sua mãe. Teve sorte de viver em outro tempo, pois no nosso seria medicado e diagnosticado com Esquizofrenia Infantil. Eu prefiro imaginar que ele achou dentro de si o que buscamos em nossas terapias, que é cuidar da ferida para não morrer dela. Evitar de morrer da ausência de alguém que pode nunca ter partido.
Mia Couto fez uma recomendação muito séria para a plateia de psiquiatras, neurologistas e neurocientistas que bebiam de suas palavras: nunca percam a sua Alma no lidar com os seus pacientes. Nunca esqueçam da imensidão que é a vida de cada um. Eu diria para ele que a grande questão é estar junto quando se atravessa grandes desertos no escuro. Isso é clinicar com Alma.

domingo, 30 de julho de 2017

O Fim, o Início e os Meios

O escritor argentino Jorge Luis Borges passou u bom período de sua vida como escritor tentando encontrar a sua voz de criador, a forma pela qual conseguiria fazer fluir a sua literatura. Quando finalmente ficou feliz com o que nascia da sua pena, tratou de sumir com tudo o que tinha escrito antes e não representava o que ele tinha vindo ao mundo para manifestar. Seus textos foram ficando cada vez mais curtos, com uma espécie de fusão de prosa e poesia, que foram virando a mesma coisa. Num de seus contos, um explorador procurava em meio a deserto e paisagens inóspitas uma tribo, um agrupamento humano que se dizia, tinha encontrado a fonte da imortalidade. Depois de uma longa procura, encontrou a tal tribo, e, com grande surpresa e desolação, percebeu que a imortalidade tinha transformado aquela gente em selvagens, que não falavam mais e ficavam grunhindo em total inconsciência, na miséria e na nudez. Termina assim o conto. Borges deixa a metáfora pendente sobre a cabeça do leitor e ele que se vire com isso. Eu entendo que ele descreve que, a percepção da Morte e da finitude talvez seja a característica que nos constitue como humanos. Perceber que nosso tempo é finito e que há um futuro com o qual temos que lidar e, quem sabe, criar, talvez seja uma das maiores fontes de angústia do humano, mas é também o aguilhão que nos espeta para frente. O que vou construir, o que aprender, qual consciência ampliar, o que experimentar, quanto gozo gerar e receber, isso tudo impulsiona um homem na direção do que será o mundo após a própria morte. O conto mostra que, sem a percepção da finitude, o ser humano deixa de ser movido por essa angústia fundadora e perde a razão de viver. Esse é o paradoxo do conto. O que nos permite viver é a Morte.
Por falar em finitude, tenho namorado a ideia de parar com esse blog nesse ano em que ele completa sete anos de vida e mais de seiscentos posts publicados até aqui. Tem um belo apanhado de assuntos aleatórios que representam algumas das melhores e piores ideias desse autor. Posso continuar com outros textos e temas diferentes. Quem sabe, um blog que tenha um tema específico, como Foco, Motivação, Jornada da Alma. Como escrevi no post anterior, fazer um texto em Animus e outro em Anima, em espaços diferentes e sem os textos dominicais. Sem um ritmo específico, ou com uma ausência de ritmo. Vou continuar com esse blog até Outubro e aproveitar essa sensação de tempo se esgotando para deixar esses textos mais afiados, mais sinceros, mais definitivos. Tem muito material para o visitante tomar contato com as impressões do autor e está na hora de mudar de formato e de voz. Talvez até escrever um blog de verdade, porque a estrutura desse aqui é muito mais de uma coluna de ensaios, artigos, crônicas. Tem sido um passeio bacana dentro desse caminho que compartilhamos todos, como buscadores. Eu, Caçador de Mim, diria Milton Nascimento.
Minha vida como terapeuta e médico me ensinou e me ensina a força, a potência de silenciar. Como o silêncio torna intenso o que foi dito e, mais ainda, o que pode ser dito mais adiante.
Agradeço aos seguidores (todos os doze) e aos visitantes, que são bem mais numerosos. Vamos botar um pouco de pimenta nesse angú. Vamos visitar cada post como se fosse o último. É o fim que dá sentido ao início e o meio.







domingo, 16 de julho de 2017

Jovens que Adoecem

Um grande filósofo/ensaísta que anda muito fora de moda foi Gaston Bachelard. Capaz de ser extremamente preciso em seus ensaios filosóficos e igualmente poético e suave em suas reflexões sobre a lentidão e o repouso. Dizia Bachelard que ele escrevia livros em Anima e Animus, ou seja, com a sua Psique feminina e masculina. Quem ler com atenção as mal tecladas linhas desse blog vai notar essa alternância de posições. Com uma tendência maior a escrever em Animus, textos mais analíticos e com alguma posição a se tomar. Se usarmos uma leitura política, podemos achar que esse blog é linha de expressão da mais pura ideologia coxinha, quando aponta os delírios anos 70 da escumalha bolivariana que tomou conta da esquerda da América Latina, também alcunhada de América Latrina por alguns. Vazou um vídeo da senadora Gleisi Hoffmann (cujo marido é acusado de desviar centenas de milhões de reais de créditos consignados de velhinhos), antevendo a nauseante pantomima na votação da reforma trabalhista que ela e suas colegas senadoras protagonizaram. A senadora tem feito uso abundante do jus esperneandis desde que ela e sua galerinha foram apeados do poder, sempre com resultados pífios, o que se repetiu nessa votação. Na gravação, ela desenha a sua estratégia de obstrução da votação e radicalização da tensão social, com aprofundamento da crise econômica e do desemprego para levar a um cenário de convulsão social. Isso é tão Che Guevara, não é mesmo, qual é o próximo passo, treinar uma guerrilha no Araguaia? Vamos continuar com a fantasia de um senhor do século XIX que nunca ganhou um tostão com seu trabalho e dizia que o Capitalismo só terminaria com a Luta (ou a Guerra) de classes? Que coisa mais moderna e lúcida. Com excelentes resultados, diga-se.
Em outros posts, o autor parece tomar o lado dos trabalhadores, com os abusos e as perversões do Capitalismo. Estamos caminhando, nesse hipercapitalismo, para uma linha de rompimento do tecido psíquico do mundo: todo mundo querendo consumir ou realizar seu sonho de consumo, as empresas querendo vender mais e reduzir custos, aumentando lucros, está levando o planeta à asfixia. Na China que os sistemas se uniram à perfeição: trabalho semi escravo e trabalhadores anencéfalicos do Comunismo e hiperprodução/consumo/desastre ecológico do Capitalismo. Estamos ferrados pelos dois lados, pela esquerda bolivariana arcaica e pelos lobos famintos da direita, que perpetuam a miséria e o atraso?
No Matrix, o personagem principal, Neo, é colocado diante de duas pílulas coloridas: com uma ele pode viver a sua vida em sono profundo, trabalhando e produzindo para sua energia ser sugada pela Matrix, uma rede de máquinas infinitas que se alimenta da energia, criatividade e esperança humana ( As grandes corporações e os conglomerados econômicos e de mídia?) Pode, por outro lado, tomar outra pílula e enfrentar esse sistema, para devolver às pessoas o direito à Consciência. Quem se lembra desse filme sabe qual foi a escolha de Neo.
Vivemos nesse mundo em que a Matrix é disputada pelos discursos dos perversos de plantão, de um ou de outro lado do escopo do discurso político: o objetivo é a dominação do espaço em que as pessoas estacionam seu Sistema de Crenças, de preferência com uma passividade bovina. Convivemos com a tentativa de apropriação do Estado pela escumalha petista por treze anos. A derrocada dos obesos e empanturrados peemedebistas e tucanos deixa um vácuo perigoso de poder e de discurso, propício a novos “salvadores” e aventureiros tipo Collor. Ou Bolsonaro.
Como dizia Renato Russo “há tempos, nem os santos/ tem ao certo a medida da maldade/ e há tempos são os jovens que adoecem”. Perdemos a noção do tamanho da maldade e os jovens desejam sair desse país, como o poeta percebeu.
Tomar a pílula da Consciência ou da Realidade significa continuar apontando a Sombra dos Sistemas que buscam, à esquerda e à direita, subtrair das pessoas sua capacidade de percepção e reflexão. Em tempos de um novo fascismo, o das redes sociais, a fuga para discursos binários e para o ódio gratuito também tem sido discutido nesses posts.
O partido que se toma nesses escritos é o da Consciência, em tempos que o discurso político disputa o primado da ignorância e da estupidez.

domingo, 9 de julho de 2017

Esperar no Silêncio

O menino segurava a mão de seu avô, no cenário chuvoso do funeral de sua mãe. Um cenário chuvoso é sempre mais adequado aos funerais. Pergunta ao seu avô, que era um Pediatra, por que não tinham conseguido tirar o tumor da cabeça de sua mãe. O avô explicou que o tumor estava espalhado e se interpenetrava nos tecidos do entorno, não dava para ser retirado. Não havia nada a fazer. O menino cresceu e virou um médico, com uma particular motivação em entender as situações em que, apesar de todos os conhecimentos e recursos, as vidas se vão e nada se pode fazer. Virou pesquisador não de Oncologia, mas de Choque Séptico, uma causa bastante importante de morte hospitalar, com o agravante de se dar algumas vezes de forma paradoxal, interrompendo uma curva de melhora clínica. Descobriu que essa entidade clínica, ao contrário do que se pensava quando me formei, está menos relacionada com atividade de bactérias resistentes ao tratamento do que a um estado de completo esgotamento do organismo em manter o próprio equilíbrio, gerando quedas abruptas de pressão arterial e parada cardíaca. Hoje está pesquisando as formas de evitar que esse estado de exaustão se estabeleça, antes que seja tarde. Como no romance de Mary Shelley, ele cria uma rixa com a Morte a partir da perda de sua mãe. Ao contrário do Dr Victor Frankenstein, ele não está criando monstros a partir de sua dor. Porque a dor pode criar monstros que nunca nos abandonam.
O Tao Te King, assim como o Taoísmo, usa um conceito muito difícil de apreensão pelas nossas mentes ocidentais, que é o Wu Wei, a “Ação pela Não Ação”. Conceito bem difícil para a Medicina. Tratamos a doença e a morte como predadores à espreita. Temos que antecipar seus ataques. Muito estrago se faz a partir dessa fantasia: procedimentos invasivos, caros, condutas e atitudes proativas que podem gerar outras complicações. Pois se toda ação gera uma reação, o que fazer pelo poder da Não Ação? A hora de maior aflição, que é a hora em que não se sabe mais o que fazer, talvez seja a hora de esperar na Não Ação?
O que eu consigo entender sobre a Não Ação é que ela não significa simplesmente cruzar os braços ou deitar as armas. Significa aquele momento de silêncio em que nada há a fazer senão esperar. Mas esperar à espreita; à espreita de algo que vá se manifestar. No filme Apollo 13, entrevistam a mãe de Jim Lovell, supostamente demenciada, sobre seu filho, preso dentro de uma espaçonave entre a Terra e a Lua. Ela se recorda de um episódio em que seu filho voava sobre a costa do Pacífico e seu jato teve uma pane elétrica. Jim perdeu todos os instrumentos de navegação e passou a voar às cegas, no meio da noite do outro lado do mundo. Em vez de se desesperar, o piloto entrou em perfeito Wu Wei, e esperou no meio do silêncio e do escuro, que parecia mortal, o que viria em seu auxílio. Foi quando notou que a Lua se refletia nas algas da costa, fazendo um rastro prateado. Isso serviu para a sua orientação e ele seguiu aquele rastro até achar as luzes das cidades e o caminho para a sua pista. Podemos chamar isso de sorte, ou de Mistério. Fica ao gosto do leitor. A velha senhora resumiu o que foi o resgate de seu filho: pode ser que ele não tenha achado um jeito ainda, mas vai achar.
Herdei de Jung (e Jung herdou do Taoísmo) o gosto pela ação médica que restaura o equilíbrio. A Ação delicada e, em algumas situações, a Ação pela Não Ação. Não que seja fácil e, muitas vezes, o terapeuta é confinado à Não Ação pela Defesa do próprio paciente. Acho que, como o colega cuja história descrevi acima, também tive uma pendenga com a Morte quando vi meu avô se esvaindo num Cãncer de Esôfago, lá pelos idos dos anos setenta. Não gosto das situações onde não há nada a fazer, mas imagino, como o piloto que perdeu os seus aparelhos, que sempre vai acontecer algo se eu esperar no Silêncio.

domingo, 2 de julho de 2017

Trincheiras Corporativas

Ana (nome fictício), veio para consulta depois de um período em que começou a apresentar crises ansiosas dentro do ambiente de trabalho. Tinha uma sensação profunda de desconforto na boca do Estômago, a boca ficava seca, as mãos suadas e tinha uma espécie de mau pressentimento, como se algo muito ruim estivesse para acontecer. A princípio achou que aquilo fosse cansaço, bebia café, chá, água com açúcar. A situação com sua chefe não estava nada bem, e sua ansiedade a deixava mais distraída e com dificuldade em concluir suas tarefas. Ela passou a evitar contato com a chefe e chegou a chorar no meio de uma reunião onde seus resultados ruins foram expostos diante de seus pares. Foi sugerido a ela que “não estava tolerando a pressão” e que “estava espanando”. Ela já tinha ouvido essa expressão e sabia muito bem que ser taxada dessa forma era o caminho mais curto para a demissão. Felizmente o tratamento reduziu seus sintomas e ela conseguiu retomar suas funções por alguns meses. Mas sua chefe continuou cismada e caçando seus erros, até que teve outra crise de choro em outra reunião. Corremos com a medicação, mas ela acabou sendo desligada da empresa no final do mês. Está cogitando acionar a empresa, embora seja difícil caracterizar o ambiente de trabalho como causador de sua doença.
Foi na Primeira Grande Guerra, talvez a mais brutal da história, que foi descrita a Neurose de Guerra, uma doença que acometia os soldados nas trincheiras ouvindo as bombas e os morteiros zunindo sobre suas cabeças até entrarem numa espécie de colapso, com tremores, paralisias, pesadelos e explosões emocionais que os impediam de combater. Steve Stahl, famoso psiquiatra americano, escreveu um livro, de ficção, “Shell Shock”, com o relato de que nessa Guerra, alguns soldados que receberam o diagnóstico de Neurose de Guerra eram fuzilados como covardes e desertores pelo Exército Inglês. Como os arquivos da Primeira Guerra Mundial foram abertos após setenta e cinco anos da mesma, foi só muito recentemente que essas execuções tornaram-se públicas e que as famílias pediram que esses soldados fossem reabilitados como doentes, não covardes.
O Transtorno de Estresse Pós Traumático é uma condição psiquiátrica conhecida, estudada e tratada há cerca de três décadas, embora seja uma condição muito comum na história humana. É o corresponde moderno da Neurose de Guerra. A exposição repetida a experiências estressantes ou de ameaça podem gerar lesões em áreas Cerebrais como o Hipocampo e predisporem a Depressão, Alcoolismo e uso de Drogas, além de se correlacionar com risco aumentado de Suicídio. Apesar de tudo isso, lamento dizer que em variados locais de trabalho ou de exposição a situações estressantes, como abusos verbais, físicos e sexuais, o aparecimento desses tipo de quadro clínico é ainda entendido como sinais de preguiça, frescura ou falta de resiliência. Com mais de treze milhões de desempregados, ser taxado assim pode significar uma espécie de morte profissional. E algumas pessoas entendem isso de maneira literal. O modelo de gestão de pessoas baseado em criação de monitoramento de resultados sob pressão gera uma tensão semelhante a dos soldados nas trincheiras. Quando o funcionário “espana”, seus sintomas são vistos como sinais de fraqueza ou de inaptidão ao serviço. Ambientes de trabalho de maior apoio e redes sustentadas de comunicação são mais protetores, geram melhores resultados e maior produtividade. Não sou eu quem diz, são todos os estudos e a Neurociência. Curiosamente, o sistema darwinista de pressão Top-Down nas organizações criam a cultura de que o melhor gestor é o que consegue extrair o máximo de produtividade com o mínimo de gastos e investimentos. Como os capatazes dos navios negreiros. Isso ainda persiste.
Chegam cada vez mais vítimas desse sistema nos consultórios. A gestão por bullying cria cada vez mais vítimas de ambos os lados das trincheiras corporativas. Vejo pacientes terem crises ansiosas e sensação de Pânico quando se sugere que possam voltar ao trabalho. O rombo da Previdência aumenta a pressão dos peritos para devolver as pessoas ao seu trabalho. Muitos deles sequer ouviram falar em TEPT, o Transtorno de Estresse Pós Traumático, assim como muita gente vai continuar achando que isso é desculpa de quem quer fugir de suas responsabilidades.
As empresas e as políticas públicas só vão mudar quando essa Guerra silenciosa gerar mais e mais prejuÍzos, não humanos, mas econômicos. Isso deve gerar programas de gestão de comunicação e criação de ambientes mais colaborativos de trabalho. Para o bem de todos.
Até lá, vamos evitar que nossos soldados sejam fuzilados pelos gestores, com bons tratamentos e terapias. Os psiquiatras que devem estar de plantão nas trincheiras.