segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Som e a Cura

Não foi muito lido o post em que eu descrevo as formas de Reação ao Estresse e como a programação interna determina como vai ser o desempenho diante da situação difícil. A reação Fight or Flight, ou Bater ou Correr e o Congelamento, que são as reações mais comuns, ou a reação de Desafio, onde o sujeito se agiganta diante do medo. Usei exemplos de futebol, como o timeco (des)montado por Rogério Ceni, que se congela quando toma gol. Não vou repetir o erro e falar de futebol de novo. Acho que vou fazer um blog só para isso.
A Reação de Desafio se manifesta quando uma pessoa se enfurece e se expande diante de uma dificuldade, ao contrário da reação natural, que é o medo e o encolhimento. No laboratório, os pesquisadores chamam a Reação de Desamparo Aprendido, quando um camundongo desiste de enfrentar uma situação adversa e se entrega para um predador ou para de nadar. Ratinhos mais valentes e medicados com alguns antidepressivos se mantém valentes por mais tempo.
Está chegando uma nova indústria farmacêutica no Brasil, e ela trouxe como cartão de visita um aplicativo chamado Parkinsounds, voltado para a DP, Doença de Parkinson. Essa doença degenerativa compromete algumas capacidades neurais, mas seu principal achado é a dificuldade motora, com tremores, lentificação e perda da capacidade de andar e se movimentar adequadamente. O aplicativo foi concebido para usar as músicas que o paciente gosta e adaptar o seu ritmo para acompanhar outro ritmo, o da marcha do doente. Enquanto ele faz seu trabalho de fisioterapia, seus passos tentam acompanhar o ritmo da música, como um marca passo musical e interno reorientando os movimentos. As melhoras depois de alguns meses são impressionantes. A música recria a musicalidade dos movimentos.
Li uma matéria sobre Michael Phelps, o maior medalhista olímpico e maior nadador de todos os tempos, e alguém perguntou o que tocava em seus fones de ouvido antes da prova. Ele respondeu que era uma música forte e pauleira, mas hoje eu me pergunto se ele também não encontrou um aplicativo onde a música ditava o ritmo de suas braçadas, criando um monstro dentro da piscina, que se expande e se agiganta diante do medo. Ou que ele aprendeu a colocar a música nas braçadas, ficando invencível.
Vivemos uma época de hiperestímulo, e um desses estímulos é o de prevalecer numa selva darwiniana de competições invisíveis. O medo de ficar para trás, ficar obsoleto ou, em última análise, ficar inteiramente só em meio à balbúrdia das pressões do Mercado cria também uma multidão de camundongos humanos congelados em seus pensamentos, até chegar ao estado de desamparo clínico, que chamamos de Depressão. Como no caso desse aplicativo Parkinsounds, posso imaginar que ele possa ser o início do fim da era medicamentosa em Neurociência. Em algumas décadas, os psiquiatras poderão ser substituídos por aplicativos que vão produzir ondas de pulso em áreas afetadas pela Depressão e Ansiedade, para restaurar a função perdida ou simplesmente recuperar a neurotransmissão após um dia difícil no trabalho. Em vez de temer que a Psiquiatria vire uma empresa de taxi em meio aos carros do Uber, gosto de imaginar que as doenças que são tratadas no dia a dia são na verdade doenças de áreas desativadas ou pouco ativadas no Cérebro que provocam nas pessoas dores psíquicas profundas. As técnicas meditativas são um aplicativo milenar, disponível para todos, para mandar ondas de estímulo para todas as áreas pouco ativas do Cérebro. Manda pulsos de serenidade e a sensação de expansão do que está contraído pelo medo. E é gratuito.
As doenças mentais podem se manifestar quando o Cérebro perde seu estímulo e sua Música. Um bom terapeuta busca recuperar as harmonias perdidas, e isso não vai poder ser substituído por um smartphone.

domingo, 18 de junho de 2017

Vivemos para Descansar do Sonho

Estava meio desavisado no Brain Congress de Porto Alegre há três dias. Neste ano, o Congresso foi mais pobre em conteúdo e me fez correr mais atrás de coisa boa, então lá estava eu desavisado numa palestra sobre a “Neurociência ajudando a repensar o ser humano”. Nem atinei para o palestrante, um certo Mia Couto, provavelmente homônimo do grande escritor português/moçambicano, aquele que pode dar um prêmio Nobel para a nossa língua, a última Flor do Lácio. Quase capotei na cadeira quando ouvi que Mia Couto era mesmo Mia Couto, convidado de honra do Presidente para a sua palestra. Imediatamente tive a sensação que deveríamos ter todos os dias de nossa vida, de uma imensa gratidão e privilégio de estar lá, num Congresso de Psiquiatria, Neurologia e Neurociência ouvindo aquele homem. A sensação foi incrível: e pensar que todos os dias temos o privilégio de ver, tocar e sorrir para tanta gente especial e nem percebemos. Pois a presença modesta e bem humorada do romancista me deu a sensação que devia cultivar todo dia, a de gratidão. Estava grato de estar lá, depois de um dia exaustivo de gráficos, tabelas e saber científico. E Mia começou a contar histórias. Em tudo que descrevia, em todas histórias que ele contava, havia um viés de um narrador que fala escrevendo. Quem já assistiu uma aula show do infelizmente falecido Ariano Suassuna também tinha essa impressão. Os “causos” que saiam de sua boca não eram relatos factuais, mas a mágica de uma história que nos transportam para outras histórias. Uma viagem nos caminhos da Memória.
Mia Couto contou uma história de um homem que conheceu em viagem para a África, acho que no Zimbábue. O homem estava perdendo a visão mas conseguia guiar a todos em suas expedições e caçadas. O velho africano falou para o maravilhado escritor, que transforma tudo o que ouve em livros, que "só consegue enxergar quando caça". Mia ficou perplexo, porque alguns anos antes escreveu um livro em que um de seus personagens era cego e dizia: “Eu só enxergo quando escrevo”. Dizem que a vida sempre acaba imitando a Arte. Um tempo depois, o homem morreu e o escritor/narrador voltou para a sua cidade. Ele não foi enterrado, mas “semeado” debaixo de uma árvore. Quando perguntou do que ele morrera, percebeu que não havia esse conceito na tribo. As pessoas não morrem de algo, mas morrem de “alguém”. Como morrer de sua mãe e volta para seu seio. Uma morte freudiana perfeita. Mia se lembrou, então, da primeira vez que morreu de “alguém”: foi de seu pai, que viu chorando espantado aos sete anos.Ver o pai chorando foi como morrer. Nunca imaginou que seu pai pudesse chorar. Eles estavam exilados em Moçambique nos anos setenta quando chegou o aviso que seu avô, pai de seu pai, havia morrido em Portugal. O menino amedrontado e perplexo tentou consolar seu pai, que falou que seu avô podia ter morrido em Portugal, mas naquela casa ele nunca morreria. No decorrer dos anos, eram tantas as memórias, os sons, os gostos e as cores que era como se a família corresse pelos quartos, rindo e contando histórias.E o menino escritor nunca sentiu a morte de seu avô que não conhecera. Ele passeava pelas salas, indiferente à Morte. Lembrei do meu pai assobiando um samba de João Nogueira. O assobio encheu a sala da Memória, no meio do Congresso. Talvez as duas qualidades que nos tornem humanos seja a Linguagem e a Memória. Através delas prosperamos, crescemos, desejamos e adoecemos. Através delas, o escritor virou um livro que falava. Em vez da Neurociência ajudar a repensar o humano, foi o humano que ajudou a repensar a Neurociência. Pois não há Ciência e não há cura se não houver Alma, daquele que cura e daquele que é curado. Na pratica clínica, nem sempre sabemos quem é quem. Só era perceptível, embora a voz do escritor não o tenha mencionado, que é a Alma que diferencia os técnicos dos curadores, e não existe cura sem preparo técnico. Mas o preparo técnico sem Alma também pode ser inútil.
Senti uma pena profunda de imaginar que o mundo está mudando para esse tipo de literatura, para o mundo que é percebido, processado e recriado desde o olhar imenso do narrador. Os livros já nascem como roteiros, não de cinema, mas de séries do Netflix. Quanto tempo teremos pessoas debruçadas em livros que abrem esse Olhar mágico?
Foi viajando nessas ideias e percepções que vi a palestra de Mia Couto terminar, e quase mil congressistas aplaudirem de pé a aula em que o humano reinventou a Ciência, como os verdadeiros artistas fazem. Eu lembrei de um sonho meu recente, onde afastava as pessoas para poder chorar a morte de meu pai. O velho caçador africano disse a Mia Couto que vivemos para poder descansar do sonho. Eu precisei do sonho para abrir espaço para o choro. O sonho não tem tempo, já que meu pai morreu há quase vinte e cinco anos. A mágica do sonho e da poesia me fez chorar na palestra de Mia Couro, de saudade de meu pai.

sábado, 10 de junho de 2017

O Fogo ou o Gelo

Certa vez ouvi Casagrande comentar em entrevista que jogar contra o Flamengo de Zico era uma arte. O Corinthians da época, início dos anos 80, era também forte, mas faziam um pacto de levar o jogo na maciota e, comentário dos mais engraçados, era importante NÂO fazer um gol no Flamengo no começo do jogo. “A ordem era levar o jogo em Banho Maria, para não acordar os caras...”, conta Casão bem humorado. “Se fizesse um gol eles acordavam e vinham para cima... Aí ninguém segurava”. Reza a lenda que uma ordem parecida era dada aos adversários do Chicago Bulls nos tempos de Michael Jordan: todos eram proibidos de dar entrevistas provocando o cara ou dizendo que ele estava velho. Sobretudo, era proibido fazer alusões à sua idade. Michael Jordan, como o Flamengo de Zico, se inflamava quando provocado e conseguia transformar a raiva em concentração, mas uma concentração inflamada pela raiva que fazia o seu desempenho se ampliar. Teve um gaiato que quase apanhou do time porque provocou o homem e levou 45 pontos no placar feitos por Michael Jordan, sem contar desarmes e assistências. A raiva o tornava um monstro.
A Neurociência está começando a distinguir reações diferentes diante do estresse. A diferença principal entre elas é a utilização da reação do estresse como Desafio, Raiva Explosiva ou Paralisia. Não há dúvidas que as pessoas estão mais acostumadas a ativar a reação de medo ou raiva do que de enfrentamento divertido.
O São Paulo, do chato Rogério Ceni, por exemplo. É um time todo cheio de deslocamentos e concepções táticas que Rogério passou muito tempo aprendendo como jogador e treinador aprendiz. Mas suas invenções de Professor Pardal logo desmoronam na primeira bola que entra no gol do São Paulo. O time continua moderno, bacana, tático, mas não consegue ter a reação adrenérgica de Desafio, que é abrir os Brônquios, fazer o Coração bombear o sangue com mais força ou encher os músculos de sangue com a certeza de que vai conseguir virar o resultado. O São Paulo é o contrário do Flamengo de Zico: quando toma um gol, é ativada a Reação de Medo, o time perde a alegria e não consegue acreditar na vitória.
Foi feito um estudo de resposta ao Estresse em que dois grupos de alunos foram testados em períodos de provas finais. Um dos grupos recebeu a orientação de que a Reação de Estresse era boa para a performance porque aguçava o raciocínio e levava mais sangue para o Cérebro. O outro grupo não recebeu nenhuma orientação a respeito e foi só mandado para a prova. O primeiro grupo teve uma resposta significativamente melhor quando foi orientado indiretamente a transformar o medo em reação de desafio e enfrentamento. Essa reação transforma o medo em uma tensão divertida, que pode provocar um prazer de enfrentar e passar por cima da dificuldade (ou do adversário). Já a reação de medo de perder, que causa uma contrição de energia, cria uma situação inversa: tudo dá errado e o que se teme mais acaba acontecendo.
É curioso que tanta gente chegue para tratamento de doenças relacionadas ao estresse, sobretudo estresse profissional, onde os gestores não tem a menor noção de um saber tão óbvio e intuitivo: um ambiente de trabalho de desafio e apoio mútuo é muito mais produtivo que nossos correspondentes modernos de navios negreiros, onde as pessoas são massacradas com metas inalcançáveis e chicotes de cobranças e berros da gerência. Diga-se também que os funcionários que se entregam à uma moleza reclamona e medrosa também são grandes candidatos à fila de desemprego. A reação mais comum é o medo, que é evolutivamente mais antiga do que transformar o medo em excitação/combate. Mas é muito importante propagar o saber, agora cientificamente comprovado, que é sempre melhor se divertir pelejando do que se esconder no banheiro. Como dizia o Capitão Rodrigo de Erico Veríssimo: “Não está morto quem peleia”

domingo, 4 de junho de 2017

Constelações Familiares

Eu costumo dizer que Constelações Familiares são uma mistura de Psicodrama com Sessão Espírita. Baixa tudo o que é santo por lá, e alguns acabam grudando. Mas não vou usar esse post para atacar esse trabalho, apenas para alertar sobre sua potência e necessidade de uso consciente.
Cibele, leitora dessas mal tecladas linhas, me pediu duas vezes para abordar esse assunto nos comentários do Blog. Eu me fiz de rogado, porque conheço, mas não aplico a técnica. Li alguns livros de Bert Hellinger, criador das Constelações Familiares, e me encantei com seu alcance. Aliás, escrevi Hellinger errado no outro post e ainda não fui corrigir. De certa forma, falar do trabalho como um estrangeiro pode me ajudar a manter distância e equilíbrio. Distância e equilíbrio nem sempre são minhas melhores qualidades.
Uma senhora uma vez me descreveu a técnica familiar de sempre cortar a ponta das peças da carne antes de assá-las. Finalmente alguém perguntou o motivo de excluir quase um terço da peça do prato final. Ela foi perguntar para a sua avó porque cortavam as pontas das peças de carne. A avó lembrou que eram muito pobres e tinham uma assadeira pequena. Para caber a peça de carne, era necessário cortar as pontas. O resto serviria como mistura a semana inteira. Podemos dizer que esse episódio ilustra o que a Psicologia chama de Esquema. Esquemas são sistemas de crença e de comportamento que as famílias, os clãs, os países e as culturas adotam como o Certo e a Verdade mesmo que não baseado em nenhuma razão objetiva. Junguianos chamariam isso de Complexos Familiares, imprintings de memória e comportamento que se espalham de geração em geração. Essa é a raiz da Cultura e de algumas tragédias.
Nas Constelações Familiares, o terapeuta/facilitador (não gosto do termo facilitador, mas não vou falar disso hoje) levanta uma questão, que se manifesta como sintoma. A pessoa fala de ataques de medo imotivado, que lhe causam tremores. As pessoas presentes na Constelação começam a ocupar papéis do drama inconsciente que se desenrola: o pai autoritário, as crianças quietas na mesa do jantar. Entra uma visita. Alguém está escondida atrás da porta, tremendo. A paciente lembra da história de uma moça, de origem judaica, que sua família escondeu dos nazistas durante a guerra, que ficava escondida atrás das portas mesmo depois que a guerra acabou. Ela percebe que sempre treme quando algo bate à sua porta na vida.
A Psicologia da Gestalt esteve muito em moda nos anos setenta, hoje mal se fala sobre ela. Gestalt quer dizer totalidade. Quando algo está foracluído da consciência, atua como sintoma. A Gestalt fazia vivências para incluir e trazer de volta ao sistema o que estava represado, reprimido. Isso é um ponto importante em muitas correntes de Psicologia: revelar o que foi recalcado e integrá-lo. Uma paciente minha interrompeu a vivência de Constelação Familiar quando a terapeuta a fez olhar para a amante de seu pai, que teve um filho dele, e pedir perdão pelo desprezo e ódio que tinha recebido em todos aqueles anos. Ela não pode se libertar do Esquema familiar de que aquela mulher era uma vaca, destruidora de casamentos. Coincidentemente ou não, seu casamento não ia bem, justamente porque ela não conseguia confiar no marido nem ter uma boa vida sexual com ele. Mas não dava para pedir perdão à tal da Megera, que continuou atuando nas sombras. A Gestalt não se fechou.
As Constelações Familiares fazem então o trabalho da velha Gestalt: trazem os elementos dispersos para dentro do Todo. Bert Hellinger, que não era nem junguiano nem freudiano, buscava nas vivências Integração, Reparação e, se tiver sorte, Perdão, como arma potente e terapêutica. Mas...E sempre tem um Mas, já peguei à unha duas pacientes que saíram dessas vivências com um forte risco suicida. Ficar mexendo indiscriminadamente nos complexos familiares pode fazer o terapeuta tropeçar em algumas granadas e, pior, granadas que podem explodir semanas depois das vivências. Não me oponho que meus pacientes participem, mas porque sei que vou estar na retaguarda se o caldo entornar. Quando os pacientes estão na vigência de quadros psiquiátricos maiores, como Depressão ou Transtorno de Pânico, nunca autorizo a ir cutucar o Inconsciente em momentos de fragilidade. Existe um oba oba de aplicações de técnicas potentes, por terapeutas que fizeram cursos de fim de semana. Tem muita gente bondosa e bem intencionada mexendo onde não sabe e não deve mexer.
Eu não acredito em terapias, acredito em terapeutas. Diz o ditado taoísta que o Método certo aplicado pela pessoa errada sempre vai dar errado; o Método errado aplicado pela pessoa certa, pode dar certo. Portanto, ao se submeter às Constelações Familiares, fique de olho em Quem e Como aplica. Aliás, isso vale para todas as terapias.


domingo, 28 de maio de 2017

Haters

O Ministério Público investiga um comentário feito em redes sociais após o pavoroso atentado terrorista em Manchester, Inglaterra, nesta semana. A moça escreveu algo como “Que pena que isso não aconteceu na Bahia, para explodir aqueles escurinhos kkkk”. Adorável, não ? Um comentário em redes sociais é um comentário público, sujeito às penas da lei, portanto espero que a moça passe algumas horas de trabalho social trocando crianças “escurinhas”. Poderia ajudá-la a ampliar sua limitada visão da vida.
O atentado de Manchester foi perpetrado por um inglês de origem líbia, com as características dos lobos solitários que tem servido a grupos terroristas: origem pobre, família de imigrantes, de base islâmica ou não, que são recrutados após frequentar sites e chats de ódio. Passam por treinamento na Síria para atentados realizados por pequenas células ou mesmo uma pessoa só. O rapaz de 22 anos que explodiu artefato caseiro (e potente)na saída de um show repleto de crianças e adolescentes e seus pais, para vingar “as crianças mortas na Síria” em bombardeios de aliados, passou por todo esse processo. Seu pai na Líbia, recusou-se a acreditar que seu filho poderia ter planejado e perpetrado o ato monstruoso. Dizem os sites que ele jurou vingar a morte de um amigo após atropelamento, aparentemente um acidente. Menciono isso para mostrar a característica indiscriminada do ódio: vou vingar crianças bombardeadas por americanos e meu amigo atropelado, matando crianças em show na minha cidade. Explodir o outro é uma forma de explodir o silêncio que o cerca. Ou a falta de significado, uma doença de alma muito grave de nossa modernidade.
O comentário da moça, com seus “kkk s” após a tragédia, talvez seja o sintoma de outra doença de nossa época , que é fazer comentários nauseantes para atrair atenção ou mostrar que “você não está nem aí “. A tal da trolagem.
Na semana passada assisti ao novo clipe de Mallú Magalhães , “Você Não Presta”. A princípio achei que fosse um remake de Jorge Benjor. A música é completamente Jorge Benjor. Mas não , a música e letra são da Mallú, jovem prodígio da MPB que estourou em 2010 com 15 anos. O som talvez seja um passo para sua maturidade musical, ainda mais precoce. O clipe tem um corpo de baile de street dance que embeleza cada estrofe. Não são corpos perfeitos, nem panicats saradas, a dança nem sempre segue a música, muitas vezes contracena com ela. Gostei do samba rock, gostei do balé . Mallú canta bem e dança mal, tornando a dança que a cerca mais relevante. Pois isso gerou comentários de um vlogueiro/vogleira que viu numa cantora branca cercada de bailarinos e bailarinas negros e mulatos uma exploração/exposição dos corpos negros. Uma exploração racista de corpos negros usados de forma ornamental. Isso ganhou um volume tal, com a adesão de pessoas de movimento negro, que a artista veio a público pedir desculpas (?!) se o vídeo transmitia essa impressão.
Os “Haters”,ou os "Detestantes", sempre infestaram a internet. A diferença é que agora estão ampliando o seu volume, criando falsas acusações, generalizações enlouquecidas e a busca reiterada da polarização, do “nós contra eles”. Manifestantes quebraram e incendiaram prédios da Esplanada dos Ministérios nessa semana, mostrando aos coxinhas “como se faz manifestação”. A polarização é uma saída fácil , pois desliga nossa capacidade de pensar e empatizar com o outro. Uma artista de 20 e poucos anos vira uma racista, uma moça deseja que a bomba exploda os escurinhos, um deputado comemora a violência da manifestação, um rapaz com a mesma idade da Mallú detona um artefato para matar o maior número possível de crianças num show.
É óbvio que há uma diferença profunda, dramática, entre os vários casos descritos, mas há entre eles um ponto em comum: está na hora das pessoas de bem levantarem sua voz contra a cultura do ódio. Está na hora de parar de tratar isso como fenômeno passageiro. Está na hora de uma mobilização contra o ódio e a exclusão, que são, em algum ponto, o combustível da dominação e da ignorância. Não concordo com o pedido de desculpas emitido pelo estafe de Mallú Magalhães. Concordo de coração com o comentário de uma moça, que infelizmente vou ter que dizer que é afrodescendente, pois isso deveria ser irrelevante, que mencionou que foi ver o clipe por conta da polêmica e tinha adorado e se “convertido” à Mallú. Palmas para ela. Ou para elas.

domingo, 21 de maio de 2017

Observador Interno

Já vi mais de uma vez no Netflix o documentário “Free The Mind”, e não tenho certeza se ele já foi citado ou não nesse blog. Uma parte das mais emocionantes enfoca uma escola experimental, ligada a uma faculdade, onde as crianças, na Educação Infantil, recebem aulas diárias de Meditação e Educação Emocional. O foco principal do documentário é sobre um menino com diagnóstico de Déficit de Atenção e que apresenta muitos sintomas na classe e como a escola e as professoras fazem para ajudá-lo. Muitas vezes o menino explode, chora e tem várias dificuldades em lidar com seus medos e angústias. As professoras dão para ele um brinquedo, daqueles comuns nos Estados Unidos, que são aquelas bolas de vidro com umas casinhas e paisagens que, ao ser chacoalhadas parecem cheias de neves circulando, como uma chuva. Se os movimentos param, a “neve” vai assentando, como se a chuva estivesse parando. A função do brinquedo, nessa escola, é mostrar para o menino que as emoções podem sair do controle ou mesmo explodir, até que tudo parece muito bagunçado e caótico, mas, se ele ficar olhando sem fazer nada, a raiva ou o medo vai passando e se autorganizando.
O garoto morre de medo de andar no elevador, pois ficou preso nele uma vez. O filme mostra as múltiplas tentativas das professoras tentando ajudá-lo a superar o medo. Ele fracassa inúmeras vezes, até finalmente subir no elevador com sua bolinha de vidro, chacoalhada várias vezes para indicar a sua confusão interna. Numa das tentativas ele fica olhando fixamente para a “neve” se assentando, até o elevador chegar ao seu destino e ele poder descer, calmamente. O mais curioso é a atitude das professoras, que não fazem muito alarde quando ele consegue finalmente superar o medo. Ninguém comemora ou faz festa para a pequena grande conquista do garoto, como era de se esperar. Acho que foi de propósito. Provavelmente uma tentativa de não criar mais uma grande emoção quando o garoto entrasse no elevador de novo. Entrar com os amiguinhos e ir para outro andar é o absolutamente natural, não precisa criar um sistema de recompensas para cumprir a tarefa.
Parece uma manobra pueril para se adotar com uma criança muito pequena. Mais alguns anos e é capaz do menino jogar a bola na cabeça de algum desafeto. Será que os resultados dessa educação emocional serão duradouros? Espero que sim. Uma manobra tão simples como essa tem um fundamento muito profundo e genial: as emoções apresentam um período de instalação e outro de recuperação. Um dos sintomas de desregulação emocional é a Labilidade Afetiva, justamente quando as emoções pulam de um afeto a outro sem nenhuma modulação. Por exemplo, isso se observa quando a pessoa começa a chorar na conversa e, com uma brincadeira, passa imediatamente a gargalhar e fazer piadas. Uma paciente chegou uma vez no Pronto Atendimento batendo boca com a enfermagem porque queria ser atendida sem fazer a ficha e passando na frente das outras pessoas. Minha colega observou que seu cabelo estava lindo e as duas entabularam uma conversa sobre xampus e escovas. Ela foi atendida enquanto o acompanhante fazia a ficha. As atendentes olharam maravilhadas. A manobra foi justamente aproveitar o estado de labilidade e superficialidade de afetos para mudar o assunto e desfazer o climão que ameaçava virar uma briga mais grave. Salvo em quadros psiquiátricos, as emoções não pulam de galho em galho. Elas levam um tempo para se instalarem e outro tempo para mudar de grau ou de forma de expressão.
Dar o brinquedo para a criança ensina duas coisas incríveis: criar um observador interno para acompanhar as emoções em sua montanha russa, sem interferir ou se fundir com elas; criado esse observador, a segunda tarefa é observar os flocos de neve subirem e descerem, até a fúria se dissipar. Fico imaginando os padres, depois do “Eu vos declaro marido e mulher” entregando a tal bolinha para os noivos levarem para casa. Quanta terapia de casal vai se economizar se os pombinhos aprenderem a observar a raiva subindo e descendo antes de falar absurdos ou fazer acusações, cobranças e ataques de nervos em geral.
Pensando melhor ainda, vou parar de escrever e procurar um brinquedo desses na Amazon. Vou andar com isso na minha mão o tempo todo.

domingo, 14 de maio de 2017

As Paralelas

Atendi uma vez uma moça que tinha participado de um Reality Show, acho que desses de cozinha, de chef, ou de bolo, sei lá, não sou nada bom com esse tipo de programa. Acompanhei o Big Brother um ano que meu filho curtia e era um pretexto para assistirmos juntos e torcer por um candidato ou torcer para cair o biquíni das moças no banho. Reality Show? Quando se coloca uma câmera apontada, toda a realidade desaparece. Vivemos numa sociedade de espetáculo, tudo sob a câmera é uma encenação. A moça entrou no programa por acaso, caiu no gosto do público, virou finalista. Quando acabou, passou a ser reconhecida na rua, amada, admirada, detestada, por ter aparecido dentro das casas de milhões de brasileiros em horário nobre. A imprensa a procurava, quais serão seus próximos passos? Ela passou a ser esmagada por sua Persona televisiva. Começou a ficar com medo de sair de casa. Recusou os convites, os projetos. Sem perceber, engajou-se num projeto de morte: decidiu, ao contrário da imensa maioria, que iria matar aquela sub celebridade que o programa, a mídia, a família e os patrocinadores queriam transformá-la. Voltou para o anonimato e passou um bom tempo trancada em casa, até ser esquecida. O problema foi o custo da reclusão: não conseguia mais sair de casa, não sabia qual carreira seguir, nem como se reconectar com o mundo. Falei bastante sobre isso na única consulta que tivemos. Ela falou bem de mim para a terapeuta que a encaminhou, mas nunca mais apareceu.
Lembrei dela quando li sobre a morte de Belchior. Há poucos anos ele havia virado um trend topic de redes sociais por ter abandonado uma Mercedes no estacionamento do Aeroporto e sumido. Aquilo parecia uma cena suicida. Foi tanto o bafafá que ele acabou aparecendo para avisar que estava bem e vivendo no Uruguai, já que era apenas um rapaz latino e americano. Morreu recluso numa pequena cidade do Sul, com uma Dissecção de Aorta, no sofá da sala. Vagou de cidade em cidade, protegido por um pequeno círculo de amigos que o apoiavam no seu processo de morte do cantor e compositor Belchior, décadas antes do desfecho noticiado pela imprensa. Tinha o projeto de fazer mais de três mil ilustrações para a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Disse para uma repórter que as suas músicas já estavam gravadas na memória da cultura e já tinham a sua vida. Agora ele precisava cuidar daquele projeto. Dizia também que planejava retomar sua carreira. Parecem todos projetos inexistentes, que ele usava para enganar a si mesmo e a quem o procurasse. O que foi provavelmente acontecendo foi um afastamento entre criador e criatura, onde o artista, o cantor, o poeta, o desenhista, começaram a tomar distância da criatura, o artista pop, a celebridade, o Belchior. Abandonar o carro e sair fugido da própria vida. Como a moça do reality show, Belchior teve a urgência de se livrar de si mesmo e do que as pessoas esperavam dele. Acho que, infelizmente, acabou se perdendo de si e da realidade. Passou a viver entre livros e discos antigos, os seus últimos interlocutores.
Nessa época de retração econômica e recessão brutal, todo dia chega ao conhecimento histórias de pessoas que se perdem da própria identidade, ou perdem o caminho dessa entidade abstrata chamada Mercado. O isolamento vai gerando uma realidade paralela, onde projetos pouco realistas enchem o tempo, enquanto se espera que o tempo dê marcha a ré para o tempo em que as coisas fluíam e os ventos da vida estavam a favor. Não é fácil recomeçar e talvez seja ainda mais difícil reconhecer que se pegou um atalho errado e recomeçar do zero.
Semana passada fui para um simpósio no Rio. Do ônibus que nos levou ao local do evento eu via que o Cristo Redentor mantinha seus braços abertos. A noite estava bonita e, durante todo o caminho, os versos tocavam em minha cabeça: “No Corcovado, quem abre os braços sou eu/ Copacabana, essa semana o mar, sou eu/E as borboletas do que fui pousam demais/Por entre as flores do asfalto em que tu vais”. O poeta pode morrer esquecido, ou exilado de si mesmo, mas ele no final das contas, tem toda razão: as músicas tem vida própria e sabem cuidar de si mesmas. E continuam soando dentro de nós.